EDITORIAL

Bomba relógio

Os sinais de saturação da Rodovia Mogi-Bertioga voltaram a ser acesos na segunda-feira, com o registro de deslizamentos de terra e vegetação. Basta uma chuva mais forte para a natureza alertar que algo não vai bem por ali.

No ano passado, uma das mais graves quedas de pedras, árvores e terra fechou a estrada durante semanas. Serviços paliativos foram feitos, mas quem ousa afirmar que os riscos de novos deslizamentos estão afastados? Sobretudo nesses dias tristes e trágicos, marcados pelas brutais cenas do rompimento de uma das barragens da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e pela busca de explicações e responsabilidades pelo gravíssimo acidente com trabalhadores e moradores, e com a fauna e flora do Rio Paraopeba.

A Mogi-Bertioga pode ser comparada a uma bomba relógio, prestes a ser acionada. Em nossa Entrevista de Domingo, o geólogo Silvio Antonio Canevare Pomaro afirmou o que o deslizamento das últimas horas nos faz lembrar e voltar a cobrar respostas do Governo do Estado. “Estamos de novo em época de chuvas e nada se resolveu. O Estado não vê que é um saco sem fundo, gasta dinheiro e não resolve. O que vem sendo feito é para inglês ver, não é definitivo, assertivo, é algo paliativo e pouco estrutural”.

Os grandes riscos não levados em conta pelos responsáveis pela estrada são acidentes fatais, com pessoas que podem ser soterradas por pedras e árvores. E quem deveria reagir a esses riscos? O Governo do Estado e as prefeituras municipais, interligadas pela estrada, que têm a obrigação de defender seus cidadãos. Até agora, os prejuízos com os deslizamentos, felizmente, foram apenas materiais.

A estrada é usada por um grande número de pessoas. Nos finais de semana, por milhares de usuários. É tanta gente que o grande movimento alimenta uma cadeia de vendedores ambulantes, que colocam a vida em risco entre os carros e motos. Sem qualquer fiscalização, como lembrou Silvio Pomaro. “O poder público tem de olhar rápido, porque há gente vendendo água na beira da rua, flanelinhas querendo limpar os arros, trânsito caótico, comércio irregular. A região não sustenta mais o que está acontecendo”. Silvio defende a construção de uma nova estrada, e um imediato estudo técnico sobre as condições de uso do acesso.

Um ano depois das interdições, sequer foram iniciados os estudos de geologia, que poderão detalhar o que está realmente acontecendo nas encostas, porque elas estão desmoronando, quais falhas ainda podem provocar novas quedas de barreiras, onde ainda há pedras pesadíssimas, sujeitas a rolarem serra abaixo?