Camila Pitanga instiga à reflexão

INSPIRADORA Aos 42 anos, Camila se mantém interessada em trabalhos que possam compartilhar algum tipo de reflexão sobre o Brasil
INSPIRADORA Aos 42 anos, Camila se mantém interessada em trabalhos que possam compartilhar algum tipo de reflexão sobre o Brasil

Dedicada ao teatro e ao cinema, atriz também apresenta o programa ‘Superbonita’, do GNT, e terá um
papel na segunda temporada da série ‘Aruanas’

Camila Pitanga está paulistana. A atriz mudou para a capital, temporariamente. Com ela, vieram a filha Antônia, os
bichinhos e a namorada Beatriz Coelho. Mas o novo estilo urbano da atriz carioca não durou muito. Quando chegou ao Teatro Cacilda Becker, na região da Lapa, cumprimentou o repórter com um beijo a mais. “Ficou faltando um”, brinca. 
A temporada na cidade tem bons motivos. Estreou na última sexta, o espetáculo ‘Por Que Não Vivemos?’. E ao lado da companhia brasileira, a atriz vai compartilhar com a plateia a versão do diretor Marcio Abreu para a peça ‘Platonov’, de Chekhov, em sessões de quase três horas de duração. Para Camila, o texto do autor russo publicado em 1923 tem tudo a ver com o Brasil.

Não é de hoje que a atriz se mantém interessada em trabalhos que possam compartilhar algum tipo de reflexão sobre o Brasil, com o público brasileiro. De algum modo, não deixa de repisar as pegadas de seu pai, Antonio Pitanga. O ator de 80 anos também está por estas bandas. Ao lado do filho, Rocco, Pitanga-pai está em cartaz com a peça ‘Embarque Imediato’, um percurso cênico sobre identidade e herança, com dramaturgia de Aldri Anunciação. “Meu pai me contou que só este ano ele já fez participações em cinco filmes”, conta a atriz sem esconder surpresa.

“É claro que com o tempo e a idade, o trabalho para alguns artistas começa a rarear. Ele segue e eu fico sempre comovida”. Camila também está no palco de ‘Embarque Imediato’, ao menos de maneira virtual. Na peça, dirigida por Márcio Meirelles, dois homens se conhecem numa sala especial de um aeroporto. O jovem é um pesquisador que seguirá para a Alemanha e o outro, um africano misterioso. No palco, Camila empresta a voz e rosto para conduzir a rotina de avisos de embarques e decolagens. Juntos, os atores vão percorrer questões sensíveis sobre identidade africana que, diferentemente de uma cultura europeia, construída nos livros, tem força na oralidade. “O texto do Aldri e a presença do meu pai e do meu irmão em cena ampliam o entendimento sobre nossas origens. Não é difícil imaginar que somos todos do mesmo quilombo”, afirma a atriz.

Essa inquietação por entender a si olhando o mundo também se mostra no interesse da atriz pelo cinema. O olhar atento com que dirigiu o documentário ‘Pitanga’, com Beto Brant, não perde de vista os expoentes do cinema mundial. Do Oscar, ela conta que viu e adorou ‘Parasita’, o grande vencedor da premiação.

Para Camila, é muito mais que uma produção de última hora. “Ele não veio do nada. Para que ‘Parasita’ pudesse brilhar, o país entendeu que cultura é investimento, não acessório”. Nessa esteira ela também aponta para a produção nacional, como ‘Bacurau’, de Kleber Mendonça Filho, e ‘A Vida Invisível’, de Karim Aïnouz, ambos premiados no circuito europeu. “Quando vemos estes elencos nos tapetes vermelhos, nos sentimos ali, vistos por todo mundo”. Mas antes que se possa sacudir o mundo, essa inquietação precisa surgir no interior, ela acredita. É o tipo de movimento que Chekhov engendra para Anna Petrovna, personagem de Camila em ‘Por Que Não Vivemos?’. A mulher tem sua vida sacudida pelo professor Platonov. 

Bem diferente de Anna é seu papel na série ‘Aruanas’, da Globoplay, cuja segunda temporada deve iniciar as gravações ainda no primeiro semestre. A trama que escancarou a atuação criminosa na Amazônia deixa a região desmatada da primeira fase para debater um conflito mais urbano. “Agora será sobre a indústria do petróleo, inspirada na MP do Trilhão, sobre a isenção que beneficiou petroleiras”. E o discurso da atriz afinado com este tempo só amplia a beleza de Camila. No fim do ano, ela gravou a nova temporada do programa ‘Superbonita’, no canal GNT, em que fala de maquiagem, cabelo, com mulheres de todas as cores. Ao vivo, ela é um desbunde para os olhos e para a mente.


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