CIRCUITO

Campeão mundial de judô, o mogiano Willian Lima conta sua trajetória

Aos 19 anos, o mogiano Willian Lima coleciona medalhas pelo esporte que ama, o judô. Integrante da seleção brasileira deste esporte, ele foi campeão mundial em 2019, além de ter outras centenas de conquistas. Entre uma viagem à Israel e outra à Bulgária, o atleta contou a própria trajetória a O Diário, numa entrevista em que também detalha os projetos para 2020 e explica qual é a sensação de ter, mesmo tão jovem, o título de melhor do mundo.

Willian Lima. (Foto: arquivo)

Como foi o primeiro contato com o judô?

Comecei a praticar judô com seis anos, no Centro Esportivo do Socorro, mas não era para ser assim. Eu queria fazer natação, mas só podia a partir de 9 anos. E como eu era uma criança hiperativa, meu pai queria me matricular em algum esporte. Como meu irmão já fazia judô, decidimos que eu ia fazer também. Até a primeira competição eu levava na brincadeira. Mas quando comecei a competir a nível municipal peguei gosto pela adrenalina.

O que o encantou no judô?

Eu estava entre amigos, com irmão ao lado e a família apoiando também. Por um lado aprendi a me defender, mas o judô também ajudou muito, principalmente devido a meu sensei, em relação ao respeito, honestidade e disciplina.

Quando recebeu o primeiro grande título? E qual foi o primeiro desafio?

A primeira grande competição foi aos 12 anos, quando fui campeão panamericano e deixei subir isso para a cabeça. Tomei bronca e fui rebaixado de faixa. E o primeiro desafio foi aos 14 anos, quando, faltando uma semana para campeonato brasileiro, quebrei o ombro, justamente numa das minhas melhores fases.

Como foi voltar a competir depois de recuperar o ombro?

Depois de meses de fisioterapia, no final de 2015 eu não tinha a mesma confiança de antes, mas tinha que buscar tempo perdido. Fui convidado para uma seletiva no Clube Pinheiros, onde fui contratado e estou até hoje. Foi a oportunidade para dar início carreira profissional, com dedicação total ao esporte.

Nesta época vieram as primeiras medalhas internacionais?

Sim, na temporada de 2016. Participei de competições na Turquia e na Croácia, onde costuma ser muito difícil alguém do Brasil medalhar. Na minha primeira competição a nível mundial fiquei em terceiro, na Turquia. E na semana seguinte, na Croácia, fui campeão. Os técnicos cresceram o olho em mim, e continuamos, fazendo outras competições deste tipo, sempre com medalhas. O objetivo era o mundial em outubro e o panamericano no meio do ano, do qual saí vencedor, e por isso estava confiante para o mundial. A expectativa era muito grande, mas perdi.

Qual foi o próximo passo?

Em 2017 eu lutava na categoria de 60 quilos, e em 2018 passei para a categoria de 66 quilos, pensando no futuro, nas olimpíadas. Teoricamente seria um ano de adaptação, mas fiquei em segundo na seletiva nacional, e como tinha vindo de um ano muito bom, de várias competições europeias com medalha, a confederação decidiu apostar em mim para um torneio na Alemanha. Tive bom resultado, fiquei em segundo lugar e participei do mundial também.

Mas o título veio somente em 2019, não é? Como foi a última temporada?

O ano passado foi, até agora, o melhor ano da minha carreira. Fui campeão na seletiva nacional e fiquei em segundo na olímpica. Sou amigo mas dentro do tatame rivalidade muito grande com um atleta de São Paulo, o Michael Marcelino. A gente sempre luta, principalmente fora do país, e em 2018 ele foi vice campeão mundial e teoricamente era favorito para tudo em 2019. Nos encontramos na semifinal do mundial, competição na qual ele ficou em terceiro e eu em primeiro.

Qual foi a sensação de ganhar o título mundial?

Foi muito reconfortante, como se tivesse finalmente chegado ao meu objetivo, com uma das minhas metas realmente alcançada. Depois de ter perdido por dois anos, fiquei pensando “será que sou forte para ser campeão, será que estou fazendo o certo?” Depois de muitos “serás”, ter sido o campeão me mostrou que estou fazendo as coisas da maneira certa e tenho tudo para chegar as olimpíadas.

E como é ser o melhor do mundo em algo?

Já me fizeram essa pergunta, e não sei como responder. É uma sensação de alívio, de felicidade extrema que nunca tinha sentido antes. Como se tivesse tirado um fardo nas minhas costas, junto com alegria imensurável.

A temporada de 2020 já começou?

Sim. Minha primeira viagem foi logo no dia 6 de janeiro, para a Áustria, onde há um treinamento de campo com a presença de vários países, como França, Rússia e Itália. Depois fui para Israel e Bulgária, onde competi, e a próxima viagem é para a França.

Você tem 19 anos. Quanto países já conheceu, e quantas medalhas já ganhou?

Já conheci uns 20 países, e ganhei cerca de 250 medalhas.

Como enxerga estas conquistas?

São a realização de um sonho, e da melhor forma que eu poderia realizar, fazendo algo que gosto. Sempre tive muita vontade de conhecer o mundo, e fazer isso lutando e representando meu país é a coisa mais gostosa que há.

Que aprendizados essas experiências te proporcionaram?

Até hoje talvez não tivesse viajado de avião ou saído do país se não fosse pelo judô. Não posso dizer que sou fluente, mas nunca fiz curso de inglês e consigo conversar, me comunicar, muito mais do que eu esperaria nessa idade, por conta das viagens, porque tenho amigos de vários outros países e o inglês é a língua universal. Como as mesmas pessoas frequentam os ambientes, faço e mantenho amizades, então também conheço outras culturas.

Quais os projetos para 2020?

Estou fazendo faculdade de Direito, na Universidade Paulista (Unip), mas vou trancar a matrícula. As forças armadas têm um trabalho com atletas, e existem competições militares. Alguns atletas da seleção se tornam terceiro sargento e a partir dai se tornam oficiais. Quero entrar para a marinha, mas conciliar com a carreira de atleta, porque a agenda é intercalada com a da Confederação Internacional de Judô.

E que conselho daria para quem está começando?

Já tive muito problema de autoconfiança, e hoje em dia percebo que todo atleta tem. Da mesma forma que me sinto inseguro, sinto nervosismo, e todos pensam isso. Os mais novos também vão enfrentar esses medos. Mas cada dia é um dia. Às vezes perdemos, às vezes ganhamos, ninguém é imbatível. As minhas maiores evoluções aconteceram com as derrotas, porque quando a gente ganha fica numa área de conforto. Então meu conselho é nunca desistir.


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