Cardiologista Paulo Saraiva: Higiene e isolamento devem ser mantidos

Paulo Saraiva é cardiologista. (Foto: Eisner Soares)
Paulo Saraiva é cardiologista. (Foto: Eisner Soares)

Médico cardiologista e responsável técnico da Unidade Clínica Ambulatorial (Unica) de Jundiapeba, Paulo Eduardo da Costa Saraiva atua nas redes pública e privada de saúde. Mais do que estar na linha de frente do combate ao novo coronavírus, ele tem lidado com o combate às doenças pré-existentes ao Covid-19, como hipertensão e diabetes, que em muitos casos, ficaram esquecidas pelas pessoas, dado o pânico provocado pela pandemia. Além de comentar a importância de manter essas comorbidades controladas, nesta entrevista ele diz que, independentemente da flexibilização da quarentena e da retomada do comércio, a recomendação de ficar em casa permanece.

Considerando as taxas de casos confirmados e de mortes pelo novo coronavírus, o senhor acredita que é hora para uma flexibilização, o que inclui a volta das pessoas para o trabalho e a retomada do comércio?

Acredito que agora não seja hora para isso, porém como há muita pressão do comércio e da economia, acredito que os prefeitos e governantes estão ficando numa situação complicada, porque a população está precisando trabalhar, está querendo ir para rua, pois tem compromissos financeiros e a vida para tocar. Minha opinião particular, como médico cardiologista, é que agora essa flexibilização com maior abertura está sendo um pouco arriscada. Acho que abrir o comércio por somente quatro horas seja um erro, pois isso vai gerar maior acúmulo de pessoas num horário pequeno. Ao invés de diminuir o horário de atendimento ele deveria ser aumentado… Já que existe pressão pela reabertura, ela tem que ser repensada. Tomara que essa flexibilização não aumente o número de casos. Que a gente não precise aumentar número de leitos, que a gente assine mais atestados de alta do que de óbito.

Podemos considerar que estamos saindo do pico da Covid-19?

Eu não acredito que estamos saindo do pico do Covid-19. Na realidade ninguém sabe quando vai ser o pico, porque toda semana fala-se sobre ele. Novamente, como médico cardiologista, acredito que o pessoal vai acabar indo para a rua, porque os governantes não estão conseguindo mais segurá-los em casa por causa da pressão da economia, e com isso o pico vai acontecer agora. As pessoas não vão respeitar o uso de máscara e álcool gel, então o pico da pandemia está se aproximando sim, mas não acho que estamos chegando no patamar que vai começar a diminuir o número de contaminados.

Muitos pacientes deixaram de realizar tratamentos importantes durante a pandemia? Haverá uma busca por atendimento médico grande quando tudo passar?

Sim, e já existe essa busca nos consultórios e ambulatórios pelo tratamento. As clínicas, tanto privadas como particulares, já se adequaram quanto ao acolhimento dos pacientes, número reduzido de pessoas por horário e a orientação de não receber acompanhantes, e é assim que vai ser daqui pra frente. Já estamos atendendo essa demanda, principalmente pelas doenças descompensadas pelo próprio confinamento.

Como cardiologista, o senhor já explicou, em entrevista ao jornal O Diário, que as pessoas com mais de 60 anos geralmente têm doenças crônicas, como hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, entre outras, e que portanto o coronavírus pode causar um comprometimento maior no organismo delas. A recomendação é então que elas fiquem em casa, para diminuir o contato com outras pessoas. Isso tem sido respeitado?

Os pacientes acima de 60 anos já são do grupo de risco mesmo sem doença, por serem idosos, então sim, é recomendado que eles fiquem em casa, que evitem de sair. E para aqueles que têm doenças crônicas é ainda mais importante ficar em casa, porque já há imunidade baixa. Sei que isso está gerando uma angústia em todo mundo, e até mesmo criando novos problemas. Pacientes que não tinham problema de ansiedade e de depressão estão sendo acometidos por essas patologias por estarem em confinamento há quase 90 dias. Como não encontramos remédio que tenha comprovação efetiva no tratamento da doença, como não foi encontrada uma vacina, a única coisa que temos para fazer para se resguardar da contaminação do Covid é manter o distanciamento social.

E no caso das demais pessoas, como jovens e adultos?

No caso das demais pessoas a recomendação é a mesma: ficar em casa. O que não ficou bem esclarecido no começo é que pensava-se que só precisavam fazer isso as pessoas acima de 60 anos e pertencentes ao grupo de risco, mas não! O isolamento social é recomendado a todos, pois ainda não há tratamento efetivo. É tudo pesquisa, tosos medicamentos de uso experimental, então o distanciamento social e o “ficar em casa” serem para evitar o aumento da taxa de contaminação.

Justamente pela existência de outras comorbidades associadas o tratamento do público considerado como “de risco” deve ser acompanhado adequadamente. Como tem sido este processo?

No início da pandemia os pacientes portadores de doenças crônicas ficaram em pânico, porque era muita informação e muita coisa errada, jogada de qualquer forma, sem explicação baseada em estudo ou artigo científico. Nessa época foi falado que as medicações de pressão alta poderiam piorar o quadro do paciente que foi acometido pelo Covid-19, mas não. É que os pacientes com hipertensão tem maior risco quando cometidos pela doença, ou seja, não é a medicação que faz a pessoa piorar, e sim o descontrole da doença base. Ou seja, quem está com a doença de base descontrolada e é acometido pelo coronavírus tem um problema além da Covid, e para evitar isso, a orientação que a gente dá é procurar o médico para manter o controle.

No final de março e também no início de abril houve uma “corrida” de pacientes aos consultórios a fim de trocar a medicação, não é? Como foi essa situação? Ela ainda acontece?

Sim, teve essa “corrida” dos pacientes para a troca da medicação nos ambulatórios, bem no comecinho da pandemia. A angústia dos pacientes veio de notícias sobre uma medicação chamada losartana, que supostamente piorava o quadro de Covid-19. Com o passar do tempo os pacientes começaram a vir desesperados, mas como falei antes, é muita informação e muita desinformação também. Fato é que pacientes com doença cardíaca prévia desenvolvem quadros mais graves do coronavírus, então não é o uso da medicação que piora a infecção, e sim o descontrole da doença de base.

Além do isolamento social, existem outras recomendações aos pacientes acometidos pela Covid-19, como o cuidado alimentar. Que outras observações são feitas?

Quando sair de casa, sempre deve-se usar máscara. Ao chegar em casa, tirar a roupa e os sapatos, deixando-os do lado de fora, e ir direto para o chuveiro, tomar banho. A mesma coisa vale para a máscara de tecido: a cada duas horas ela fica úmida e diminui a proteção, então a recomendação, mesmo para os jovens e adultos, é levar máscaras reserva caso seja necessário ficar mais do que duas horas na rua, além de sempre estar e usar álcool gel.

Que mudanças o senhor acredita que a pandemia vai provocar na sociedade quando o mundo estiver livre do novo coronavírus?

A gente vai ter que se reinventar, se acostumar com o “novo normal”. O que acredito daqui pra frente que vamos tirar de ensinamento é a higiene pessoal, como o uso de álcool gel e o hábito de lavar as mãos várias vezes ao dia. O uso de máscara é uma das atitudes que vai ser mais protocolar no pós-pandemia. Não vai dar pra frequentar cinemas ou shoppings, ir a shows ou teatros, sem estar de máscara. Enquanto não existir tratamento efetivo ou vacina, os hábitos no pós-pandemia tem que continuar sendo os mesmos da pandemia, e isso vale para o distanciamento social, ou seja, beijos e abraços, tão presentes no comportamento do brasileiro.

E que lições estes meses de incertezas e confinamento social deixam?

A principal lição é que vamos ter que aprender a ser muito mais tolerantes. Não é fácil conviver 100% dentro de casa, não é fácil manter distanciamento das pessoas de quem se gosta. O controle emocional tem que ser melhor pensado. Pessoas que nunca desenvolveram quadro de ansiedade estão lotando consultórios ou pronto-socorro com crises. Então a lição que vamos tirar é que a gente tem que ser mais tolerante, ter cuidado maior com a nossa saúde, com nosso corpo, com nossa mente, e vamos torcer para que essa pandemia acabe o quanto antes e que a gente possa voltar a nova normalidade, que vai ser com máscara, álcool gel, com a retirada das roupas antes de entrar e com cuidado especial para com os idosos.


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