EDITORIAL

Carnaval sem carnaval

Por muito pouco, Mogi das Cruzes viveria um carnaval sem carnaval, na sequência do jejum iniciado há dois anos, com o fim dos desfiles oficiais e tradições como a abertura do reinado do Momo pela Banda Vai Quem Quer.

Muito perto de completar três décadas, a banda deixou de abrir a folia na sexta-feira. Mogi perde um dos símbolos da festa popular brasileira, caracterizada pela alegria e a confraternização de pessoas de todas as classes sociais à base do improviso, da sátira, do descompromisso, da brincadeira.

O feriado, com ponto facultativo e tudo mais, está aí. Mas em Mogi das Cruzes o carnaval perde com o sentido com desaparecimento de signos fortes, como a da abertura da festa marcada pela passagem das bandas em ruas centrais. Mogi segue rota contrária à de outras cidades brasileiras, que passaram a valorizar os bloquinhos de rua, responsáveis por um carnaval de espírito mais democrático e popular.

Além da Vai Quem Quer, outras bandas mantidas pelos clubes Vila Santista e de Campo, e até o Campestre, quando ele existia, exerceram uma certa resistência que acabou sendo quebrada pelo endurecimento das regras para esse tipo de manifestação nas ruas a partir do governo do ex-prefeito Marco Bertaiolli, e mantidas pelo prefeito Marcos Melo.

Mudanças na legislação pesaram a organização das bandas carnavalescas. As bandas eram algo mais para farra despretensiosa. Com as normas rígidas e o peso de multas, os custos se tornaram impraticáveis. Faltou ao poder público a visão de moderador oferecendo a segurança, claro, mas o minimo de incentivo mínimo para garantir um entretenimento que ocorre uma vez por ano e atende uma parcela da população que permanece na cidade durante o carnaval e lustra um acervo cultural que já foi muito forte, em tempos passados.

Os clubes foram os primeiros a perder o fôlego, antes do deputado Luis Carlos Gondim Teixeira (PTB) sentregar os pontos. Ontem, apenas o Casarão do Mariquinha resistiu, com a participação do grupo Suburbloco.

Um enxuto desfile de escolas de samba acontecerá amanhã, na Avenida Cívica. E será um outro teste porque a desarticulação das escolas tem um alto preço.

O que se vislumbra para os próximos dias nada lembra o potencial e a força das comunidades do samba de bairros que se notabilizaram no passado como Vila Industrial, o São João, a Vila da Prata, Braz Cubas, o Conjunto Santo Ângelo, César de Souza, e até o Mogilar e a Ponte Grande (acreditem).

São tempos duros e de perdas para a cultura popular, o congraçamento entre os bairros, a transferência de saberes e costumes entre as gerações mais velhas para as novas.