ARTIGO

Casa da Prima Vera

Gê Moraes

Tudo na vida tem que passar pela via da primeira vez, e seja ela como for, lembrada sempre será, ainda que por vezes haja alguma que teria sido bem melhor se não tivesse acontecido. Mas, fazer o quê? Aconteceu, está indelevelmente impregnada no mapa da vida, e não há nenhuma química que consiga removê-la. E o amor também passa por esta mesma via. E como é marcante o primeiro amor! Tanto é verdade que os compositores José Fortuna e Pinheirinho Jr, valendo-se da temática fizeram uma belíssima letra para a música de Hermínio Gimenez: Meu Primeiro Amor, que começa assim:

“Saudade, palavra triste / Quando se perde um grande amor / Na estrada longa da vida / Eu vou chorando a minha dor”.

– Ah, como dói, como o bichinho da saudade rói de modo intermitente as fibras do coração da gente, de quem é pego no contrapé, e no último segundo do jogo sofre aquele gol de bola no ângulo, e vê a Vitória voar para os braços do rival. E aí, não adiantea chorar torcida brasileira, não tem jeito, está feito.

“Igual uma borboleta / Vagando triste por sobre a flor / Seu nome sempre em meus lábios / Irei chamando por onde for”.

– Pronto. O jeito agora é voar em torno doutras flores e chamar a todas de Vitória, o que por certo, não dará nada certo.

“Você nem sequer se lembra / De ouvir a voz deste sofredor / Que implora por seus carinhos / Só um pouquinho do seu amor”.

– A Vitória foi se roçar em outro tronco e não quer nem saber de ouvir o canto de quem lhe cantava.

“Meu primeiro amor / Tão cedo acabou / Só a dor deixou / Neste peito meu”.

– Ah, o primeiro amor, que começou no alvorecer e terminou ao cair da tarde. Pouco durou, mas quanta dor ficou batendo bola lá no terrão do interior do peito!

“Meu primeiro amor / Foi como uma flor / Que desabrochou e logo morreu / Nesta solidão, sem ter alegria / O que me alivia são meus tristes ais / São prantos de dor / Que dos olhos caem / É porque bem sei / Quem eu tanto amei / Não verei jamais”.

– Vitória, o primeiro amor, a flor que desabrochou linda e perfumosa, mas que teve vida breve partiu e deixou alguém de braços dados com o bichinho da saudade que rói e dói barbaridade. Mas quer saber duma coisa? Chute forte a bola do primeiro amor, e se o goleiro mandar pra escanteio, vá até lá, cobre, dispare para a área, faça aquele gol de cabeça, e corra para os braços da Vitória que arrependida lhe espera na casa da prima Vera.

Gê Moraes é cronista

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