MOGI PELO MUNDO

Casal de Mogi relata apreensão na volta de Israel em meio a pandemia do novo coronavírus

CENÁRIO Mirian Romano e Rivaldo de Azevedo visitaram entre outros pontos turísticos o Muro das Lamentações, em Jerusalém, além de participar de rally no deserto Wadi Rum. (Fotos: divulgação)

Acostumados a viajar pelo mundo, a professora aposentada mogiana Miriam Aparecida Romano de Azevedo, 74 anos, e o marido, o ex-administrador de empresas e santista Rivaldo de Azevedo Neto, 72, que já estiveram em mais de 70 países, viveram situações inusitadas no retorno ao Brasil após viagem à Terra Santa no início da pandemia de Covid-19, na primeira quinzena de março. Eles saíram de Santos, onde moram, em 29 de fevereiro, rumo a Tel Aviv, em Israel, e encontraram um cenário até então tranquilo nas duas semanas de passeio. Visitaram o Muro das Lamentações, em Jerusalém; se encantaram com Petra e o Mar Morto, na Jordânia, país onde fizeram rally no deserto Wadi Rum; e foram à gruta na qual acredita-se que Jesus nasceu, em Belém (Palestina). As dificuldades surgiram na volta ao Brasil, quando o trajeto foi mudado após cancelamento de voos e fechamento de fronteiras em Israel. De Amã, capital da Jordânia, o casal e o grupo com o qual viajava precisaram ir para Frankfurt, na Alemanha, e de lá até Roma, na Itália, onde embarcaram no último voo com destino ao Brasil, em 15 de março. Na entrevista a O Diário, Rivaldo e Miriam compartilham estas histórias:

Como foi o trajeto na Terra Santa?

Rivaldo – Saímos de Santos, onde moramos, em 29 de fevereiro, com destino a Tel Aviv, em Israel. Já se falava no novo coronavírus, mas a situação não estava complicada. Passamos por Jerusalém, perto da Faixa de Gaza, Palestina e Jordânia, com tudo tranquilo e sob controle. Acompanhávamos o noticiário e as informações dos familiares, mas não tivemos problemas neste percurso.

Quando o trajeto foi alterado?

Rivaldo – A volta deveria ser pelo outro lado da Jordânia, onde entraríamos em Israel, visitaríamos mais locais e pegaríamos o avião de volta a São Paulo em Tel Aviv. Mas quando estávamos em Amã, capital da Jordânia, chegou a informação de que a situação no mundo estava se complicando e alguns países, como Israel, tinham fechado as fronteiras. Não havia como retornar e os voos eram sempre cancelados.

Miriam – Estávamos com um grupo de 18 pessoas e isso ajudou na superação porque um dava apoio ao outro. Fazíamos contato por WhatsApp com os familiares para deixá-los informados.

Qual foi a alternativa?

Rivaldo – A empresa pela qual viajamos nos deu suporte e houve contato com o consulado. Uma das alternativas era ir para Paris, na França, e de lá viajar ao Brasil, mas o voo foi cancelado e continuamos em Amã. Após muita expectativa, conseguimos voar para Frankfurt, na Alemanha, pela Lufhtansa, e de lá saímos em um avião da Alitalia até Roma, na Itália, onde pegamos o último voo com destino ao Brasil, em 15 de março.

Houve momentos de medo?

Rivaldo – Não tivemos medo porque amenizávamos a situação, mas ficava a preocupação. Nunca tínhamos certeza se o voo levantaria, porque eram cancelados na última hora. Quando chegamos ao aeroporto de Roma foi assustador. Parecia um filme de terror. Éramos apenas nós e alguns funcionários. Todas as lojas estavam fechadas. No trajeto de Amã até Guarulhos, em São Paulo, passamos 40 horas acordados e o alívio só veio quando o avião pousou aqui. Perdemos 25% do passeio com a mudança no roteiro da volta, mas foi uma viagem lindíssima, que superou as dificuldades do retorno.

Miriam – Tivemos um pouco de apreensão, mas a viagem valeu muito à pena, apesar de parte do trajeto não poder ter sido feita na volta. Todo o pessoal do grupo já é bastante viajado, conversávamos muito e até hoje nos comunicamos pelo WhatsApp. Fiquei encantada com a Jordânia, que é um lugar exótico, onde passamos boa parte no deserto e de lá fomos até Petra. O caminho para chegar lá é um longo e grande desfiladeiro e, ao final, deslumbra-se o fantástico Al Khazneh, o tesouro, principal monumento da cidade rosa. É emocionante.

Os senhores fazem parte do grupo de risco?

Rivaldo – Faço parte do grupo de alto risco, sou diabético, tive infarto, cinco vezes pneumonia e tenho bronquite. Quando chegamos em Santos, pedimos para um laboratório ir em casa. Fizemos o exame mais completo de coronavírus e deu negativo para os dois. Do grupo, apenas uma pessoa que viajou do Rio de Janeiro pegou o vírus, ficou 20 dias na UTI e está bem.

Miriam – Além da idade, tenho doença autoimune, mas a situação estava tranquila até o retorno. Era o começo da pandemia.

Em algum momento, houve arrependimento de ter saído do Brasil?

Rivaldo – Não nos arrependemos. Já estivemos em outros lugares mais perigosos e sobrevivemos. Viajamos o Líbano de ponta a ponta e, na divisa com a Síria, vimos 2 milhões de refugiados sírios acampados. Também estivemos na divisa, onde Israel havia bombardeado uma semana antes, passamos pela localidade de um grupo de terroristas e fomos para o Egito, sempre acompanhados de um militar com metralhadora. Fomos de navio e pegamos um ônibus para descer o Vale dos Reis, onde um mês depois os terroristas sequestraram um ônibus de turistas. Nestas regiões, a todo quarteirão víamos o Exército na rua, com canhões e metralhadoras e saíamos de ônibus com batedores na frente.

Houve situações inusitadas em outras viagens?

Rivaldo – Em Capadócia, na Turquia, no passeio de balão, o nosso colidiu com outros dois. Foi um susto. Na viagem à África do Sul, com o casal de amigos Valéria e Nildo Alabarce, após um safári de balão, na volta ao hotel, tivemos uma assustadora surpresa. Ainda no Kruger Park, um elefante vinha pela estrada em nossa direção. Nossos jipes deram marcha a ré e entraram em uma clareira, com a expectativa de que ele fosse pela estrada e nos deixasse seguir caminho. Mas ele entrou na clareira, os jipes saíram por todos os lados, o nosso ficou preso em uma lombada, como uma gangorra, e o animal vindo em nossa direção. Por pouco não saímos correndo a pé, mas o veículo conseguiu sair a tempo de escaparmos. O nome desse elefante era Amarula, o maior que já vi e que já havia, em passado recente, levado tiros dos seguranças e tombado jipes quando morreram algumas pessoas. O alívio foi quando chegamos no hotel e demos boas risadas nervosas.

Como vocês avaliam a atual pandemia?

Miriam – A humanidade nunca viveu uma situação simular e é preciso rezar e pedir a piedade de Deus. Ninguém sabe o que vai dar e não é só a questão da saúde, porque mexe com a economia mundial, muita gente perdeu o emprego e os shoppings estão tendo prejuízos enormes com o fechamento, assim como o comércio em geral e as indústrias. Não sei como vamos viver quando isso passar, porque a economia terá que ser refeita, haverá muita gente sem emprego e ainda mais pobre. Teremos outro mundo.

Rivaldo – Haverá uma mudança drástica. Recebi nestes dias o comunicado da cantina Luna Rossa, em Mogi, que fechou depois de mais de 30 anos. E há vários casos.

Como está a situação em Santos?

Rivaldo – Está um terror, porque das 19h às 20h, um carro de som passa pedindo para ninguém sair de casa. Parece aqueles filmes de guerra de antigamente. Todo mundo está proibido de ir à praia, cercaram o calçadão, o que não é totalmente obedecido, apesar de não haver mais o movimento de antes, porque a Polícia está circulando. Desde que chegamos, há dois meses, estamos trancados em quarentena.

Miriam – Aqui fizeram carreatas para reabertura do comércio e muitos já quebraram. O isolamento deveria ser apenas para o pessoal de risco. Quem tem condições de trabalhar deveria ir, com todo o cuidado. Nem todas as empresas fecharam, há transporte, motoristas, supermercados e farmácias abertas, então outras atividades poderiam ser liberadas com o controle necessário, porque senão teremos grandes problemas econômicos. Muita gente morre pela doença, mas também há aqueles que morrerão de fome, por falta de dinheiro. Será um caos social. Desisti de ter expectativa sobre o fim da pandemia e tenho impressão de que vai demorar para passar. Não sei se vamos estar todos juntos no Natal. Precisamos trabalhar a paciência e o equilíbrio.

Como serão as viagens a partir de agora?

Rivaldo – Nossa viagem programada para Bora Bora, no Taiti, em setembro, foi cancelada. Em março de 2021, a ideia é ir ao Japão. As viagens serão mais rigorosas. Nosso grupo saiu do Brasil levando máscaras e as usou o tempo todo, mas na maioria dos voos e nos lugares que visitamos, havia muita gente sem máscara e não tivemos observação quando chegamos em Guarulhos. Em Santos, grandes navios ficaram parados no porto com tripulantes que pegaram o coronavírus, fizeram quarentena e, quando pioravam, desciam para tratamento em hospitais. É um momento triste.

Um local sagrado para vários povos

A Terra Santa é a área localizada entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, atualmente dividida entre Israel (com 16,6 mil casos de Covid-19 e 279 mortes), Cisjordânia – Palestina (423 infectados e 2 óbitos) e Jordânia (700 confirmados e 9 mortos). Recebe este nome devido a seu valor histórico para o cristianismo, judaísmo e islamismo.

Para os judeus, a Terra Santa é a Terra Prometida por Deus à Abraão. Já os cristãos acreditam que o local é sagrado, pois segundo os Evangelhos, lá nasceu, viveu, morreu e ressuscitou Jesus Cristo. No Islamismo, a Terra Santa também é um local sagrado para os muçulmanos porque, além das menções da região no Alcorão, foi onde ocorreu a ascensão de Maomé aos céus.

Entre os principais pontos turísticos estão o Muro das Lamentações, Gruta da Anunciação, Basílica da Natividade, Via Dolorosa e Santo Sepulcro.


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