FIM DE UMA ERA

Casarão da Mariquinha fecha as portas depois do Carnaval

Proprietário pediu o casarão centenário, que dá nome à entidade vencedora do Prêmio Governador do Estado em 2017 como território cultural. (Foto: Divulgação)
Proprietário pediu o casarão centenário, que dá nome à entidade vencedora do Prêmio Governador do Estado em 2017 como território cultural. (Foto: Divulgação)

De 1 a 5 de março, o Carnaval da Mariquinha será o último evento realizado pela Associação do Casarão da Mariquinha no prédio centenário da esquina das ruas Alfredo Cardoso e Ricardo Vilela, no Largo Bom Jesus. Desde o ano passado, o proprietário do imóvel, João Camargo, vinha solicitando a desocupação do espaço, gerido pela entidade.

Dentro de um mês portanto termina nesse endereço a ancoragem de coletivos e 30 músicos residentes, mantida durante quatro anos, desde a primeira roda de samba, numa tarde de sábado, com cadeiras e microfones emprestados.

A Associação do Casarão da Mariquinha busca um novo teto para abrigar o centro de cultura independente vencedor, em 2017, do Prêmio Governador do Estado como um dos territórios culturais de São Paulo, e cumprir a execução do Profac, um programa de fomento popular que prevê a realização de 16 oficinas e eventos culturais neste ano.

O compositor e gestor cultural José Luis de Souza, o Rabicho, procura uma nova sede para a Associação, criada em parceria com João Camargo, que cedeu o casarão para a fundação da entidade. O nome do projeto homenageia a mãe de Camargo, a professora Maria de Souza Mello, a dona Mariquinha.

Há mais de um ano, Rabicho e Camargo tratavam da desocupação do espaço, inicialmente prevista para 2020. Esse prazo encurtou-se.

Procurado, Camargo se limitou a dizer que recebeu uma proposta de aluguel para o imóvel.

Os primeiros quatro anos de atividades do Casarão da Mariquinha surtiram um balanço potente, na opinião de Rabicho. Além dos números fechados de shows (250), saraus (33), apresentações teatrais (40), exposições (25), festas juninas (5) e carnavais (5), o lugar rendeu a Mogi das Cruzes, pela primeira vez, o reconhecimento do Governo do Estado, como um território cultural. O prêmio Governador do Estado foi retomado em 2010, porém é bem mais antigo. Foi criado em 1950. Pela primeira vez, a Cidade foi ao palco para ser reconhecida pela cultura que produz.

“Valeu”, aglutina Rabicho, um tanto abatido. Para ele, o Casarão da Mariquinha foi “um espaço importante para a cultura popular nesse período”, com o engajamento político e social, a abertura de um espaço para artistas e coletivos, e o exercício da cultura imaterial, sobretudo para dar voz à juventude, e inclusive, servir de um ponto de referência e de diversidade.

Apesar de reunir outros artistas e atores culturais, que auxiliaram administrativa e financeiramente a manutenção do projeto, Rabicho é a figura central do Casarão. O futuro do projeto dependerá do seu poder de reação e de articulação.

De pronto, Rabicho conta que vai procurar apoio do governo municipal e de outras entidades, para cumprir o Profac, que destinou R$ 50 mil em recursos financeiros ao Casarão (e também ao Galpão Arthur Netto e Associação JPS, de César de Souza, neste ano). A atual gestão da entidade acaba de ser redefinida. E, no futuro, o nome atual poderá ser substituído.

O gestor terá de desenvolver o acordado com a Secretaria Municipal de Cultura em outros espaços. Das 16 intervenções previstas, três foram realizadas.

O acervo da associação – biblioteca, duas cozinhas, material de trabalho como aparelhagem de som, e objetos e obras de arte doados por artistas como Nerival, Claudio Assis, Mauricio Chaer, e outros bens – será levado para outro local, ainda não sabido.

A entidade possui dívidas, que foram negociadas com o poder público. Os problemas financeiros deixam outra lição, admite Rabicho. “Trabalhamos de forma independente e somente agora conseguimos o primeiro Profac. Precisamos aprender com isso. Nós tivemos a parceria com grupos, principalmente da música, e pessoas que nos ajudaram em reformas, mas temos de aprender a sobreviver economicamente”, diz.

Da primeira fase de vida da Associação Casarão da Mariquinha ficarão os registros de um território aberto para a articulação cultural e social. “Tivemos discussões sobre muitas questões de interesse social, sem o cunho político-partidário, e que resultaram na mobilização de movimentos como o Fórum das Mulheres, o Núcleo Estadual da População de Rua, o Fórum LGBT, o Axé Mogi, das Mães Mogianas, Associação Loucos pela Vida, a apresentação dos candidatos ao Conselho Tutelar, shows nacionais e internacionais e a formação de músicos e grupos”, enumerou.

O que virá pela frente? Deixa o tempo dizer.

Saia com Nós, no dia 4, uma das despedidas

Ainda está sendo fechada a programação de despedida do Casarão da Mariquinha. Das 14 às 19 horas, aos sábados, o lugar abre para o samba, uma das identidades do espaço, mantido em um dos mais antigos casarões da região central, que possui 12 cômodos e um quintal.

A agenda do Carnaval começa a ser divulgada pelas redes sociais. Na segunda-feira, dia 4, destaque para o Bloco Saia Com Nós, às 20 horas.