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Casarão da Mariquinha volta com atividades online

O carnaval de 2019 marcou o fim do Casarão da Mariquinha, ou, pelo menos, de sua “era de ouro”, quando ocupava o prédio centenário da esquina das ruas Alfredo Cardoso e Ricardo Vilela, no Largo Bom Jesus. Agora, pouco mais de um ano depois, a associação volta a agir com a programação ‘O Casarão Voltou’, que consiste em lives nostálgicas com saraus, samba e forró. O projeto se inicia nesta sexta-feira, dia 12, e os shows começam na semana seguinte, com apresentações às sextas, sábados e domingos.

A descrição oficial trata a iniciativa como uma oportunidade de reviver as “marcas principais” do espaço, que fez história na cidade entre dezembro de 2014 e março de 2019 com sua “relevância cultural” e pela “diversidade”. Portanto, a abertura oficial do evento digital, no Instagram da casa, será repleta de “memórias”.

O anfitrião será o ainda líder da Associação do Casarão da Mariquinha, José Luiz da Silva, o Rabicho, que contará toda a história de resistência cultural da casa, que “contribuiu muito para a cena cultural de Mogi e refião, atingindo questões também no Estado e até além do país”.

Na sequência, Rabicho convidará à fala os responsáveis de cada um dos três pilares da agenda: Tiago Sabiá e Angela Caetano representarão o Forró da Mariquinha e o Forró das Mulheres; William Ferro e Swan Prado os Saraus da Mariquinha das Mulheres; e Guilherme Bandeira e Lívia Barros os Sambas da Mariquinha e das Mulheres.

A ideia, como conta Lívia Barros, “é que todo o projeto seja apresentado no início da live” e que os demais coordenadores entrem “para falar cada um da sua parte, contando algumas histórias vividas no Casarão”.

No caso dela, que sob chuva ou sob sol estava na sede da associação aos domingos, comandando a tradicional roda de samba, serão relembradas passagens como quando a violonista de sete cordas Helô Ferreira foi recebida pelos mogianos, ou então a agenda ‘21 dias de ativismo pelo fim do racismo e da violência contra a mulher’, realizada em março de 2018.

“Nossa expectativa é reencontrar muita gente e dar conforto a essas pessoas, bem como prestar homenagem a algumas pessoas que passaram pelo Casarão e nos deixaram. Além de, claro, relembrar e ainda apresentar nosso trabalho para as novas gerações, que não tiveram tempo de nos conhecer”, explica Rabicho.

Há, no entanto, mais um belo motivo para que a agenda ‘O Casarão Voltou’ seja realizada agora. Muitos dos artistas que já se apresentaram pelos cômodos e pelo quintal do casario de paredes de taipa e grandes janelões, não conseguiram o auxílio emergencial do governo, e longe dos palcos, precisam de recursos financeiros.

Logo, todos os anfitriões já citados aqui se voluntariaram para que os musicistas, atores e outros artistas convidados possam usufruir das doações do público, que serão destinadas a um fundo único, que será dividido igualmente entre os participantes.

O interessante é que existe data para o início, 19 de junho, mas “não tem prazo para terminar”, como explica Lívia. “Precisamos promover essa arrecadação. Temos percebido que vários músicos e musicistas não conseguiram nenhum tipo de auxílio e estão em situação urgente. Então a cada live chamaremos duplas, trios, pessoas que possam cantar, tocar, declamar poesias, e pagaremos um cachê a eles”.

Sendo portanto uma causa nobre e válida por tempo indeterminado, Rabicho diz que a ideia pode seguir “mesmo depois da pandemia”. Agora será assim: a dupla de apresentadores de cada live se revezará, ou seja, na primeira semana o forró será liderado por Tiago Sabiá, enquanto Angela Caetano comandará a segunda. Mas, no futuro, “outros amigos podem entrar”.

“É uma porteira aberta, e a gente vai muito além, com parceiros que fazem samba na Holanda, por exemplo, além dos vários nomes do Rio de Janeiro, onde estou, que naturalmente vão entrar”, afirma o gestor, que hoje reconhece o formato como uma possibilidade, visão que não existia na sociedade há apenas um ano, quando o fechamento do Casarão da Mariquinha foi anunciado.

Rabicho: no Rio, mas também em Mogi

Desde que deixou Mogi das Cruzes, em outubro do ano passado, Rabicho está no Rio de Janeiro, onde continua sendo gestor de uma casa cultural. Mesmo mais de 400 quilômetros distante da cidade, ele diz manter contato com os artistas, com os amigos daqui.

As transmissões de vídeo em tempo real têm ajudado a preencher o “vazio”, conta ele. “As pessoas se manifestam, dizendo estar com saudade de abraçar, de tomar cerveja, de ouvir um samba. Assim, fui motivado por alguns amigos na semana retrasada a fazer uma ‘live’, de 15 minutos. Não esperava, mas apareceu muita gente”, conta, para então definir o formato como um “alento”, tanto para ele, como para quem ficou órfão de um espaço cultural de peso na cidade após o fechamento não só do Casarão da Mariquinha mas como do Galpão Arthur Netto, em 2019.


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