Casarão do Chá exibe obras de Nakatani

Ceramista expõe pela primeira vez na antiga fábrica de chá que ajudou a restaurar no bairro do Cocuera e que completa cinco anos como espaço de arte e cultura

Pela primeira vez, o artista Akinori Nakatani abre  uma exposição no Casarãodo Chá, prédio tombado como patrimônio histórico paulista e nacional na década de 1980, localizado no bairro do Cocuera. A mostra faz parte das comemorações dos cinco anos da abertura do espaço considerado uma obra de valor singular pela complexidade da restauração do prédio e a preservação da história da imigração japonesa no Brasil. A retrospectiva da obra do artista será aberta hoje e pode ser visitada até 24 de novembro. A exposição de Akinori Nakatani faz parte das comemorações deste aniversário e também integra o projeto de incentivo cultural do Governo do Estado de São Paulo, o ProAC-ICMS, que contará ainda com uma palestra e o lançamento de um livro.

O evento abre uma boa oportunidade a quem não conhece o artista responsável pela restauração do Casarão do Chá. Nakatani nasceu em 1943, em Osaka, e está no Brasil desde 1974. A opção por aqui viver surgiu após uma viagem de intercâmbio pelo Jica (Agência Internacional de Cooperação do Japão) por países da América Latina alguns anos após a conclusão da formação em Educação Artística na Faculdade Pedagógica de Kioto (1966).

Nessa viagem, o jovem Nakatani conheceu as culturas maia e inca e conviveu com índios mesoamericanos, o que seria decisivo para o desenvolvimento de sua arte e criação, já torneadas por vivências com mestres e ceramistas japoneses. Em 1974, após passagens por países como El Salvador, Nakatani chega ao Brasil já interessado em fixar pouso em uma cidade que oferece facilidades para a produção de cerâmica e a proximidade com São Paulo, polo difusor de artes no Brasil.

Quatro anos mais tarde, ele chega a Mogi das Cruzes, já com a mulher, Mary, com quem constrói a casa da família e o ateliê que atrai pesquisadores e especializar por contar com um forno no estilo japonês, o noborigama. De acordo com o artista, sua criação usa processos de produção tradicionais japoneses e a estética mesoamericana, que o influenciou. As peças refletem “o espírito de adaptação e renovação” de quem “trabalha no desenvolvimento de materiais como massa cerâmica e esmaltye vidrado seguindo a tradição japonesa, porém, produzido com matéria-prima brasileira”. Assim, nesta mescla, “as receitas são adaptadas e novas fórmulas são descobertas, com a finalidade de manter a relação da cerâmica com a natureza”. A casa-ateliê de Natakani está localizada na Estrada do Capixinga, ao lado da represa do Rio Biritiba. É ali que ele produziu um acervo que contribui para ressignificação da tradição japonesa por meio da preservação da qualidade e a significação das peças ao assimilar um novo ambiente. Peças do artista estão em coleções particulares e espaços públicos em locais como São Paulo. A retrospectiva apresenta um recorte dessa trajetória com 50 peças do ceramista. Poderá ser vista aos domingos, quando o Casarão do Chá abre das 9 às 17 horas.

Uma outra oportunidade para conhecer mais sobre a cerâmica e a obra do artista será uma palestra em forma de mesa-redonda que ele comandará no dia 26 de outubro, às 14 horas, ao lado da pesquisadora da história da arte Giovana Delagracia. O evento acontecerá no Centro Cultural, na Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, 360, Centro. Já o lançamento do livro do artista está programado para o pró ximo dia 13. Artista comandou obra de restauro O Casarão do Chá foi reaberto em 2004 após longa jornada cumprida por Akinori Nakatani, o idealizador da obra de restauro da antiga fábrica de chá Tokyo, construída em 1948 pelo arquiteto e carpinteiro Kazuo Hanaoka. A técnica de construção do prédio é sofisticada, pouco conhecida, porque se baseia no encaixe da madeira, sem a utilização de pregos.

Hanaoka usou troncos de eucaliptos roliços e as ramificações, conservando os galhos como apoios secundários em várias partes da obra como o pórtico de entrada, a porta do escritório e o corrimão da escada que une o térreo ao primeiro andar, usado, no passado, para a secagem das folhas do chá. O desenho do prédio se assemelha ao dos antigos palácios japoneses. Com um diferencial: ele utilizou as treliças, uma técnica que, naquele momento, na década de 1940, ainda não era usada no Japão. O que acentua, segundo pesquisadores, a genialidade do construtor ao casar técnicas japonesas às brasileiras, que têm origem europeia.

Essa união de estilos construtivos sedimenta a importância desse registro arquitetônico da integração entre as culturas do Japão e do Brasil. Após o fim do ciclo do chá, o prédio pertencente à família Namie teve outros usos, até ser desapropriado pela Prefeitura Municipal em 1987. Só que o poder público não moveu nenhuma palha para restaurar o imóvel que corria riscos de ruir pela danificação do telhado e os processos de infiltração de água nas paredes.

O restauro se deve à força de vontade de Nakatani. Um ano antes disso, resoluto sobre a pérola histórica e cultural que ali existia, ele fundou a Associação do Casarão do Chá. E passou a articular pessoas e defensores da cultura japonesa em busca da captação de recursos financeiros e de ajuda para vencer batalhas burocráticas e técnicas que se seguiram durante quase 18 anos – tempo de execução do projeto de restauro.

É essa história que os cinco anos de reabertura do Casarão do Chá relembram a partir de hoje. E num momento de decisão sobre o futuro da gestão do lugar – uma decisão do Tribunal de Justiça de Estado considerou inconstitucional a legislação municipal que renovou a concessão do uso do prédio à Associação. A Prefeitura ainda estuda o fará sobre a questão.

Para Higussa Nakatani, que está hoje à frente da entidade, uma saída seria uma parceria público-privada (PPP). É importante saber: a propriedade que circunda o prédio do Casarão do Chá pertence à Associação, que a adquiriu com o objetivo de preservar o entorno da antiga fábrica, hoje um polo de cultura que já recebeu milhares de visitantes. O lugar abre sempre aos domingos, com uma feira de artesanato e produtos rurais. Sabia mais em www.casarãodocha.org.br

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