ENTREVISTA DE DOMINGO

Castro Alves, uma voz nos bairros mogianos

TRAJETÓRIA Castro Alves Bruno relembra histórias vividas na antiga Rádio Diário e na Prefeitura de Mogi. (Foto: Eisner Soares)

A paixão pela comunicação acompanha Castro Alves Bruno desde a juventude. Aos 14 anos, ele adquiriu o primeiro rádio para ouvir os jogos do Corinthians, time do qual é torcedor, e passou a visitar as sedes das emissoras de São Paulo. Mas bem antes do contato profissional com o radialismo, ele trabalhou na roça, em Biritiba Ussu, onde chegou aos 11 anos com a mãe, Lourdes Alves Bruno, e os irmãos Eliana, Bruno e Débora, para morar na casa dos avós maternos Sebastião e Maria Aparecida Lemes, após a morte do pai, Dival. Em 1986, quando ainda trabalhava na Elgin Máquinas, no São João, e cursava o sétimo semestre da faculdade de Comunicação Social – Jornalismo na então Universidade Braz Cubas (UBC), iniciou as coberturas esportivas aos finais de semana na antiga Rádio Diário. Logo, passou a fazer locução em um programa musical das noites de domingo, que ganhou seu nome, onde recebia ligações e interagia com os ouvintes. No ano de 1991, começou a carreira como repórter do jornal O Diário e a coordenação de pesquisas de opinião, na mesma época em que seu programa conquistou espaço de segunda a sexta-feira e assim permaneceu 14 anos, até a venda da emissora, em 2000. No ano seguinte, Castro foi convidado para ser locutor de eventos da Prefeitura de Mogi pelo então prefeito Junji Abe, prosseguindo na gestão de Marco Bertaiolli e no atual governo de Marcus Melo. Atualmente, é mestre de cerimônias e coordenador do programa Bairro Feliz, que já soma mais de 500 edições desde sua primeira versão, denominada Rua Feliz, e cerca de 1 milhão de pessoas atendidas. Na entrevista a O Diário, Castro relembra suas histórias na cidade e fala do crescimento, principalmente, dos bairros, que acompanha de perto:

Você nasceu em São Paulo e viveu parte da infância lá. Por que a vinda para Mogi das Cruzes?

Minha mãe é mogiana, mas foi trabalhar em São Paulo e lá conheceu meu pai, que era paraibano. Eles se casaram e ficaram morando na Capital. Nasci no antigo Hospital Matarazzo, na Bela Vista, e na época nossa casa era no bairro do Limão. Mas depois nos mudamos para a Vila Nova Cachoeirinha, onde passei a infância. Quando tinha 11 anos, meu pai morreu, com apenas 32, e minha mãe ficou viúva com quatro filhos (Eliana, Castro, Bruno e Débora). Foi um período difícil e meus avós maternos Sebastião e Maria Aparecida Lemes, hoje já falecidos, nos trouxeram para morar com eles, no bairro Manoel Ferreira, em Biritiba Ussu, no km 25 da estrada Mogi-Taiaçupeba. Ficamos lá até 1977, quando alugamos uma casa no próprio bairro, no km 27, perto do ponto final do ônibus.

Qual foi seu primeiro emprego na cidade?

Dos 11 aos 17 anos, trabalhei na roça, na plantação de batata e de outros hortifrútis, além de flores, principalmente crisântemos. Meu avô também trabalhava na lavoura. Não era fácil, acordávamos muito cedo, mas nunca deixei de estudar. Havia feito três anos do primário em escolas de São Paulo e aqui estudei o quarto ano na escola emergencial do bairro do Itapanhaú, hoje Paulo Tapajós. O ginásio foi na João Cardoso dos Santos, em Biritiba Ussu e depois fiz o colegial na Washington Luís, seguido pela Faculdade de Comunicação Social – Jornalismo, na Universidade Braz Cubas.

Quando você iniciou o trabalho no jornalismo?

Estava no sétimo semestre do curso na faculdade, em 1986, quando trabalhava na Elgin Máquinas, no São João, e um amigo, o Ivan, que conhecia o jornalista Airton Sponda, da Rádio Diário e do jornal O Diário, e me apresentou a ele. Foi no dia 13 de abril deste ano que tive a primeira oportunidade, cobrindo uma pauta esportiva, pela manhã, onde fiz entrevistas com técnicos e jogadores de uma partida do futebol amador da Segunda Divisão entre Vila Santista e Ponte Preta, que era um time de Braz Cubas. No mesmo dia, à tarde, acompanhei o aniversário da Associação Atlética Comercial. Lembro que saí com o gravador e só tinha o dinheiro para comer alguma coisa, mas como era preciso comprar pilhas, fiz isso e fiquei sem almoço. Ao final, deixei a gravação na rádio e no dia seguinte ouvi a primeira entrevista feita por mim no ar. Continuei na Elgin, onde comecei como ajudante de produção e passei para operador de máquinas e programador de ferramentaria. Todos os dias, saía de lá às 18 horas e ia para a rádio participar do programa Diário nos Esportes, além de fazer as coberturas aos finais de semana. Nesta época, tive muito apoio do Walter Rodrigues, que era o chefe da equipe de Esportes e do gerente da rádio, Nivaldo Marangoni.

Como você conseguiu mais participações na emissora?

Havia o programa Domingo na Diário, que só tinha músicas e, em outubro daquele ano, pedi a oportunidade de apresentá-lo. Meu primeiro patrocinador foi o Alfredo’s Bar, que ficava na avenida Fernando Costa, e o segundo foi a Elgin, graças ao Ângelo Albiero. Logo o nome virou Programa Castro Alves e passou para as noites de sábado. Fui conseguindo mais anunciantes, como o antigo Supermercado Imigrante, que sorteava vale-compras aos finais de semana no programa. Chegamos a acumular mais de 300 mil cupons e a audiência nos bairros levou o programa para o horário nobre, de segunda a sexta-feira, das 9 às 11 horas.

Vários artistas participaram de seu programa…

Lá recebi artistas como Gian & Giovani, João Paulo & Daniel, Royce do Cavaco, Bezerra da Silva, Anderson do Grupo Molejo, Sula Miranda, Chrystian & Ralf, Sereno e José Roberto do Fundo de Quintal, Demônios da Garoa, Patrick Dimon, Roberto Leal, entre muitos outros. E o programa também revelou talentos, como o Luiz Fernando Bacci, hoje chamado de Menino de Ouro, que começou a participar da rádio aos 11 anos de idade, atendendo telefonemas e falando sobre curiosidades. Uma vez, seu pai, o médico Luiz Carlos Bacci, que também participava de programa na rádio, me convidou para conhecer o estúdio que o filho tinha em casa. Era uma caixa de papelão e fax, onde ficava imitando locutores da Rádio Diário, como eu e o Toninho Andari. Logo ele conseguiu horário próprio e foi fazendo a carreira, mas sem esquecer suas origens. Sempre fala da passagem pela rádio, das pessoas que o ajudaram e ninguém até hoje tem a comunicação tão parecida com a do Sílvio Santos como ele.

E o trabalho no jornal?

Em 1991, o Spartaco (Da San Biagio, diretor responsável de O Diário), me chamou para fazer pesquisas de opinião no jornal. Os assuntos eram os mais variados, incluindo condições do transporte público, praças da cidade, preços de produtos nos supermercados e de materiais escolares, entre outros temas da atualidade, mas principalmente eleições, onde meu mestre foi o Darwin Valente (editor chefe), que me lapidou e me ensinou a fazer sempre o melhor, com apoio do Seu Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário), que sempre se preocupou muito com a opinião dos leitores e suas necessidades, além das demandas da cidade.

Quais histórias ficaram desta época?

Muitas, mas a principal foi a pesquisa sobre o segundo turno das eleições de 2000, quando na véspera, distribuímos pessoas em praticamente todos os colégios eleitorais da cidade. Eu e o Darwin ficamos na discoteca com o computador, anotando o que a equipe nos passava da rua. Deste trabalho saiu a manchete do jornal, dizendo que o Junji seria eleito no dia seguinte, segundo nossa pesquisa. A rádio não cobriu esta eleição porque já tinha sido vendida e, às 17 horas de domingo, a Rádio Metropolitana disse que na pesquisa de boca de urna feita por eles o Chico Bezerra tinha vencido as eleições. Entrei em pânico e perdi o rumo. Tínhamos feito tudo muito corretamente e isso não era possível. Pensei que seria o fim da minha carreira. Mas quando a apuração começou, o Junji já saiu na frente e acabou sendo eleito como mostrava a nossa pesquisa. Às 22 horas, o Darwin me ligou e o Seu Tote me parabenizou pelo trabalho. Foi algo inesquecível, assim como as coberturas de jogos, festas da cidade, desfiles de Carnaval, copas do mundo e de fatos jornalísticos feitas pela rádio, que me marcaram muito e também fizeram parte da história na cidade, já que chegamos a ter 25 mil ouvintes por minuto, segundo o Ibope.

Como foi o início do trabalho na Prefeitura?

Após esta eleição, a jornalista Mel Tominaga me ligou dizendo que o Junji Abe queria que eu trabalhasse para ele. Comecei na Prefeitura em 2001, como assessor de imprensa, passei a encarregado de setor e chefe da divisoão de comunicação. Hoje sou mestre de cerimônias e coordenador do programa Bairro Feliz. Participo desde a primeira edição deste projeto, na Vila Nova Jundiapeba, quando ainda tinha o nome de Rua Feliz, como apresentador, ao lado do Totó (Otaviano Augusto Malta Moreira) e do Simei Baldani. Fazíamos concurso de dança e embaixadinhas para divertir a garotada. Em 2006, passei a coordenador do programa, que na gestão do Bertaiolli (Marco Bertaiolli, ex-prefeito) se chamava Rua+Feliz Cidadão, porque passou a agregar serviços.

E hoje?

Em 2017, quando o prefeito Marcus Melo assumiu, reforçamos os serviços e hoje são cerca de 80 atrações, entre corte de cabelo, emissão de RG e de carteira de trabalho, orientação jurídica, de direito do consumidor, sobre programas habitacionais e assistenciais, exames de saúde, vacinação, entre muitos outros. Já fizemos mais de 500 edições e atendemos cerca de 1 milhão de pessoas, além de reunir centenas de funcionários, voluntários e alunos de escolas da cidade nos ajudando a cada evento. O Bairro Feliz agregou, ainda, outros programas, como o mutirão de serviços do Cuida+Mogi e o Ilumina Mogi, que acontecem simultaneamente nos bairros atendidos.

Nestas passagens pelos bairros, o que mudou de 2000 para cá?

A cidade cresceu muito, principalmente os bairros. O Bairro Feliz é um dos projetos mais populares da Prefeitura, que vai ao encontro das pessoas levando diversão e serviços aos mais diferentes pontos da cidade. Acompanho o programa há quase 20 anos e neste tempo, onde hoje recebemos a mãe, que naquela época era criança e hoje traz seus filhos, tudo mudou. O comércio se desenvolveu nos bairros, assim como aumentou o número de casas e moradores. E apesar da infraestrutura e os serviços disponíveis também aumentarem, as demandas cresceram. Desde a região da divisa, com a Chácara Guanabara, no limite de Mogi com Santa Isabel e Guararema, na região nordeste da cidade, até Quatinga, na divisa com Santo André e Suzano, passando por todos os bairros, é possível constatar como a cidade é grandiosa e tem grande potencial. Claro que ainda há problemas, pessoas com dificuldades, mas sinto que a cidade, desde 2000, vem progredindo em um processo constante em várias áreas, oferecendo melhor qualidade de vida. Percebo nestas andanças, que cada ponto tem suas características peculiares, suas demandas, dificuldades e avanços, mas que existe uma continuidade no desenvolvimento de tudo isso.

O que representa a cidade em sua vida?

Sou apaixonado por Mogi, que me deu tudo o que tenho. Cheguei aqui órfão de pai, aos 11 anos, com minha mãe e irmãos, para morar com meus avós. Consegui trabalhar, dar continuidade aos estudos e, principalmente, fazer o que gosto. Apesar de não estar mais na rádio, consigo desenvolver este trabalho de contato direto com o público nas edições do Bairro Feliz, inaugurações de escolas, postos de saúde, obras, formaturas, comemorações, entre outras atividades da Prefeitura. Já são mais de 1,5 mil eventos. Desta forma, com o microfone nas mãos, faço o meu melhor e vivo cada vez uma emoção diferente, porque ver o sorriso de uma criança ou o alívio de um pai ou mãe tendo um problema resolvido não tem preço.

Ficaram saudades da rádio e do jornal?

A experiência na rádio e no jornal me ajudou muito no trabalho de hoje. Nas coberturas e pesquisas, percorríamos todos os cantos da cidade e éramos recebidos por milhares de pessoas, que também nos diziam muito sobre a cidade. Tudo isso foi aprendizado, por isso, além de Mogi, sou grato a todos os lugares e empresas por onde passei e às pessoas com quem convivi e me ajudaram a chegar onde estou. Valorizo desde o emprego na roça até o trabalho na Prefeitura, porque fazer o que gosto, ao lado das pessoas que gosto e na cidade que gosto é gratificante. Outro grande orgulho foi receber o título de Cidadão Mogiano na Câmara de Mogi, a realização de um sonho e o reconhecimento de um trabalho feito sempre com muito amor, porque a felicidade das pessoas sempre é a minha felicidade em dobro.