SITUAÇÃO

Catedral e igrejas do Carmo, em Mogi, não têm AVBC

Igrejas do Carmo, tombadas como patrimônio histórico, não possuem AVCB dos bombeiros. (Foto: arquivo)

O incêndio que destruiu a parte superior da Catedral de Notre Dame, em Paris, na França, construção de mais de 800 anos, levanta o debate sobre a adequação de prédios antigos às normas de segurança. Em Mogi das Cruzes, a Catedral de Santana e as igrejas do Carmo, essas últimas patrimônio histórico do município, não contam com o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que atesta as condições de segurança contra incêndio dos prédios.

O pároco da Catedral, padre Claudio Delfino, conta que quando assumiu a igreja se preocupou em obter o AVCB, mas que algumas adequações impostas são quase que impossíveis frente a arquitetura do prédio e os recursos financeiros. “Fizemos o que pudemos fazer, que foi trocar toda a fiação e colocar conduíte anti-incêndio, que custou cerca de R$ 90 mil. Também trocamos parte do telhado, colocamos extintores de incêndio na parte da cozinha e gás encanado, mas o AVCB vai além disso. Precisaria ter, por exemplo, uma caixa de água grande, mas não tenho onde colocá-la”, explica.

A presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Companha), Luci Bonini, reforça que existe uma preocupação do órgão com a Secretaria Municipal de Cultura sobre esse assunto e que, inclusive, motivou a instalação de hidrantes próximo à Catedral e ao Santuário do Senhor Bom Jesus.

“Mogi já tem uma dificuldade que são as ruas e calçadas estreitas, que quase inviabilizam a chegada de carros maiores do Corpo de Bombeiros em algumas regiões, até por isso temos uma escada Magirus aqui, mas o Semae e a Secretaria de Obras se uniram a nós em um estudo para instalação dos hidrantes”, pontuou.

Luci faz ainda um paradoxo de que hoje os conselhos discutem até quais os tipos de luz causam menos danos a alguns tipos de arte, enquanto há prédios que precisam ser preservados. No entanto, ela destaca que um não anula o outro, quando o objetivo é a preservação. “A Catedral de Notre Dame é um exemplo da dificuldade de adequar uma obra de 800 anos, que demorou mais de 180 anos para ficar pronta. Quantas gerações de pedreiros, pintores, arquitetos participaram da obra, com as técnicas que tinham à época? Então em meio a isso, são feitos os estudos de como prevenir esses espaços”, destaca.

Bombeiros

Neste mês, o Corpo de Bombeiros de Mogi das Cruzes deu início às vistorias técnicas a construções residenciais frequentadas por um grande número de pessoas, como casas noturnas, hotéis, hospitais, igrejas, indústrias, entre outros. A ação é a primeira na história da corporação paulista e os profissionais poderão realizar esse tipo de fiscalização espontaneamente, bem como multar e interditar os locais provisoriamente (até que a Prefeitura confirme o fechamento em definitivo) dos lugares que apresentarem riscos de incêndios.

O Diário solicitou à corporação uma entrevista com o comandante de Mogi das Cruzes para tratar da situação dos AVCBs na cidade, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Igreja Matriz foi construída em 1902

Em 1952, o vigário da Igreja Matriz de Mogi das Cruzes, Monsenhor Roque Pinto de Barros idealizou o que mais tarde seria a Catedral de Santana. O novo prédio foi erguido onde no passado era a Igreja Matriz, construída em 1902, mas que ruiu cerca de quatro décadas depois. O professor de música aposentado, João Torquato, hoje com 78 anos, lembra com detalhes de como tudo transcorreu naquela época. Ele conta que a igreja foi construída com taipa de pilão, assim como as igrejas do Carmo, mas uma infiltração no telhado começou a prejudicar a estrutura e levou à ruína da parede lateral da Rua José Bonifácio.

“Era uma igreja bem menor que a Catedral. Hoje são quatro fileiras de banco, antigamente eram só duas. Além disso, o cumprimento era menor também, porque nos fundos tinha ainda um pátio e a casa paroquial. Ao lado da Flaviano existia um jardim, que teve a área doada pela Prefeitura para a igreja”, relembra.

Nas lembranças de Torquato, uma reunião foi realizada pelo padre e os fiéis da cidade, que optaram pela derrubada da estrutura antiga, até mesmo para ampliar o templo, que àquela altura já não comportava todo mundo. “Para a Catedral ficar no ponto de voltar as imagens para lá e retomar as celebrações demorou por volta de uns 12 a 13 anos, mas a obra continuou, porque a igreja estava rebocada só por dentro. Então, com a igreja funcionando, foram voltando aos poucos e a construção foi acabando. Os fiéis doando vitrais, portas, que inclusive levam o nome das famílias até hoje”, relembra Torquato.

No ano de 1962, Mogi recebeu o seu primeiro bispo diocesano, dom Paulo Rolim Loureiro, e a Igreja Matriz passou para Catedral de Mogi das Cruzes.