PROJETO CULTURAL

Cecap está a um passo de fechar as portas em Mogi das Cruzes

Casarão de estilo colonial foi construído na esquina das ruas Boa Vista e Rio Grande. (Foto: Elton Ishikawa)
Casarão de estilo colonial foi construído na esquina das ruas Boa Vista e Rio Grande. (Foto: Elton Ishikawa)

Estava decidido o fechamento do Centro Cultural Antonio do Pinhal (Cecap) instalado em um casarão colonial de Mogi das Cruzes, sustentado por paredes em taipas de pilão e de pau a pique entre as ruas Boa Vista e a antiga Rio Grande, como consta na escritura.

A ideia inicial do arquiteto Paulo Pinhal que o abriu há 13 anos era encerrar as atividades até o final deste ano. Porém, a reação de frequentadores e a realização de eventos (bingo, bazar e um ‘treinão solidário’) podem postergar ou alterar a decisão de desativar mais um território cultural de Mogi das Cruzes em menos de um ano.

Os dois últimos a acabar foram o Casarão da Mariquinha e o Galpão Arthur Netto, e há outras perdas, como o fim da Corporação Musical Santa Cecília, uma das mais antigas do estado.

O escritor, dramaturgo e frequentador assíduo Nelson Albissu [1948-2016] dizia que não havia nada em Mogi parecido com o Cecap, endereço focado na promoção da arte e do encontro de pessoas de diferentes gerações no acolhimento a expressões multiculturais como exposições de guardanapo, pinga, cartão de natal e pipas, e na abertura do espaço a artistas e candidatos a artistas.

A memória do que já se fez ali certifica esse grande balaio. Pessoas que cantavam, de verdade, apenas no banheiro, começaram soltar a voz nos saraus de música e poesia onde não entra bebida, toda última sexta-feira do mês. É um lugar de dança, confraternização, troca de ideias e experiências.

A trilha sonora com bolero, samba, sertanejo, pop e rock atrai pessoas de todas as idades, segundo Paulo Pinhal, que fala sobre o destino do Cecap emocionado.

Foi dele a ideia de convidar o irmão, Roberto, médico que reside no Rio de Janeiro, para a compra da casa que pertenceu ao avô dele, Antonio do Pinhal, mestre de obras que viveu na casa do século XIX . O casarão foi teto familiar na maior parte de seus 170 verões e invernos.

No início, após a compra e restauro, o casario antigo seria usado como um salão de festas para a grande família formada por Antonio do Pinhal, que teve 13 filhos (e estes também tiveram grandes proles). Isso durou pouco. Algum tempo depois, os cafés com bolo de fubá passaram a servir menos pessoas às sextas-feiras. Até que ficaram Pinhal, e a mulher, Ana.

Daí então o arquiteto vislumbrou a criação de um centro cultural, em uma época que Mogi das Cruzes não tinha espaços semelhantes – não havia ainda o Centro Cultural no prédio da Telefônica gerido, aliás, por uma iniciativa gestada por Pinhal, no Cecap, muito menos a Pinacoteca.

“Endereços para exposição de artes plásticas eram o saguão de lugares como O Diário, o D’avó, o Ciarte e algum tempo depois, o Mercadão”, lembra.

Aberto o Cecap, aulas de dança, música, violão e viola, mangá, e até pouco tempo de capoeira, ocuparam os calendários anuais, com o recebimento de cerca de 20 mil. Tudo fora do guarda-chuva público. O espaço também abriga o Colégio dos Arquitetos, uma empresa de Pinhal.

Durante os 13 anos a serem fechados em 15 de dezembro próximo, a manutenção (limpeza, água, luz, etc.) do centro cultural correu por conta de Pinhal e uma parte do dinheiro pago por alunos dos cursos a preços simbólicos.

O peso do caixa, a descentralização dos espaços públicos com cursos semelhantes gratuitos ao encontrados ali, os compromissos familiares e profissionais, com o Colégio dos Arquitetos e outros projetos, ancoram a ameaça de fechamento.

Após notificar os frequentadores sobre o fim desse território cultural, Pinhal se diz surpreendido com a reação deles. As pessoas começaram a doar compotas e utilitários para os bingos e eventos. Isso moveu algo no responsável pelo Cecap e poderá recuperar o fôlego financeiro como os resultados do bazar, de um bingo mensal e um evento esportivo que acontecerá no Distrito de Taiaçupeba (veja retranca).

O apoio fraquejou a intenção inicial, ainda em destaque em um comunicado no site do Cecap (WWW.pinhal.org) e pode postergar a medida e, quem sabe, direcionar o endereço a outras saídas para o futuro do casarão.

Entre as ideias está o uso do Centro Cultural em atividades virtuais como a manutenção do curso de História da Arte já oferecido pela internet.

Outro ideia, no papel, é a criação de um leilão de obras de artistas mogianos a ser realizado pela entidade, sem fins lucrativos, mas visando a manutenção do projeto.

Nas próximas semanas, a avaliação dos resultados das ações que começaram a ser feitas para salvar o Cecap poderá escrever outro final para essa matéria, digo, essa história. Até lá, no entanto, Pinhal diz que o que está valendo é a decisão pelo encerramento das atividades.

Falta atrativo à lei de fomento à cultura

O uso de incentivos públicos, uma resposta para os períodos de dificuldades financeiras para a manutenção do Cecap, tem sido rejeitada por Paulo Pinhal. “Há leis municipais, para a busca de um ‘Profac’, mas a responsabilidade pela prestação de contas fica nas costas de quem cuida da ação cultural com resultados públicos. Esse modelo não é eficaz porque o parceiro do poder público acaba respondendo sozinho, legalmente, na prestação de contas. No meu caso, diferente de outros gestores cultuais, eu tenho outros compromissos profissionais”, sustenta o arquiteto Paulo Pinhal.

Outro fecho para a trajetória do Cecap diz respeito ao crescimento pessoal do arquiteto e professor universitário mogiano que integra frentes sociais como a participação no Comphap (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Artístico e Paisagístico) e em entidades civis.

“Conhecer pessoas que se encontraram na arte ou em relacionamentos amorosos nos saraus e encontros é algo que não tem valor”, atesta, agradecendo ainda, a comunidade e a imprensa, na figura do jornal O Diário, que respaldaram o projeto cultural desenvolvido na Rua Boa Vista.

Pinhal, o avô, foi mestre de muitas obras

Pai de 10 filhos naturais e três adotivos, Antonio do Pinhal foi construtor e mestre de obras com atuação em diversas obras icônicas de Mogi das Cruzes como a execução do prédio da Escola Coronel Almeida, hoje patrimônio histórico, o antigo Cine Parque, a Igreja da Yayá (que foi demolida), e as igrejas de São Sebastião, de Taiaçupeba, Vargem Grande, entre outras.

Ele residiu no casarão colonial onde está instalado o Cecap. Ali criou a família ao lado da mulher, Adelaide Izaltina. Viveu 79 anos, no período compreendido entre 1887 e 1966, quando Mogi das Cruzes inicia o processo de ocupação urbana e expansão industrial.

Boa parte de suas obras está no Distrito de Taiaçupeba e na região central da cidade.


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