CHICO ORNELLAS

Chico Torres, o eterno acadêmico

Nem tente. Nem tente perguntar, por esta Cidade, se alguém conheceu Francisco de Paulo Moraes Torres. Perguntem por Chico Torres e talvez alguém se lembre deste mogiano nascido em 1913. Morreu em 1972, tinha 59 anos.

Um dos poucos amigos que se lembrará dele e de suas muitas histórias é o professor Tuta Silveira, dos mogianos de agora um dos de memória mais prodigiosa. Pois são dele os subsídios para esta reminiscência.

Chico Torres era um predestinado, dominava vários idiomas e algumas vezes até ganhou dinheiro com traduções. Não gostava de jornais, rádios, televisão; mas não regateava um livro que fosse. Já não era adolescente quando ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1942: tinha 29 anos. De sua “turma inicial” faziam parte personalidades como Jânio Quadros (vereador, deputado, senador, prefeito, governador e presidente da República), Esther de Figueiredo Ferraz (secretária de Educação de São Paulo e reitora da Universidade Mackenzie), Luís Gama e Silva (ministro da Justiça no regime militar).

MOGIANO Chico Torres
(1913-1972).

A ressalva “turma inicial” tem razão de ser: Chico Torres entrou na Faculdade de Direito em 1942 e nunca mais saiu, até a sua morte, 30 anos depois. Dos muitos mogianos que passaram por lá, é o que mais história deixou nas Arcadas.

Chegou a ter uma vida acadêmica convencional por um tempo. Durou até o 3º ano, quando deu de cara com o professor Cesarino Junior, na cadeira de Direito do Trabalho. Culto, severo, Cesarino era preto. Reprovou Chico Torres uma vez, duas, três. Até que, na quarta, disse ao aluno: “Melhor voltar o ano que vem”, ao que o mogiano retrucou: “Maldita princesa Isabel”. Em seguida, por brincadeira, começou, com colegas, uma campanha para revogação da Lei Áurea.

Não teve jeito: nunca passou em Direito do Trabalho e desistiu, deixou de renovar a matrícula. Mas não abandonou seu quarto na Casa do Estudante, tradicional instituição que abriga alunos pobres da São Francisco em um prédio da Avenida São João. Dizem que, tempos depois, Cesarino mandou-lhe recado dizendo que podia voltar às aulas, que o aprovaria. Chico Torres mandou de volta: “Quero morrer acadêmico”.

E assim viveu este mogiano recebendo ajutórios de vizinhos da Casa do Estudante, fosse um prato de comida ou goles de pinga, muitos goles. Ele próprio dizia que jamais havia atravessado a Avenida São João sem estar embriagado. “E a primeira vez que o fiz fui atropelado”.

MOGIANO – Chico Torres (1913-1972).

CARTA A UM AMIGO
As bruxas estão soltas

Meu caro leitor

Não havia ainda o costume do Hallowe’en, o Dia das Bruxas, que nossas crianças importaram dos Estados Unidos e transformaram numa grande noite a de 31 de outubro. Que, neste ano, quase coincidiu com o segundo turno das eleições presidenciais. Mas, em meados dos anos 60, havia o Maxuxéia, uma confraria de jovens estudantes que, nos meses de agosto, aquele de cachorro louco, fazia do Baile das Bruxas no Itapeti Clube um grande acontecimento. E que acontecimento!

MAXUXÉIA – O corpo de Conde Drácula ingressa triunfante nos salões do Itapeti Clube.

Os preparativos duravam de dois a três meses. Começavam antes das férias escolares de julho e comiam quase todo o período de descanso no inverno. É verdade que todos os anos, quando o baile terminava, pileque de cuba libre na cabeça, muita gente prometia que faria, do baile seguinte, o definitivo. Como em escola de samba hoje: quem ganha – ou quem perde – garante que passará o ano preparando a próxima terça-feira gorda. E só vai se lembrar dela quando o ano começar.

Com o Baile das Bruxas era assim. Com o Maxuxéia também.

Não havia sede própria, estatutos ou carteira social. Menos ainda contribuição obrigatória. Esta, ficava por conta do beneplácito de pais dispostos a bancar as estripulias de adolescentes que, em contrapartida, davam-lhes apenas notas sofríveis nas salas do Instituto de Educação Dr. Washington Luís ou do Liceu Braz Cubas. Dois dos mais dispostos eram Orlando e Rosinha Signorini. Haviam acabado de se mudar para a Rua Rosário Eboli quando as filhas Malena e Madalena chegaram com a proposta do grupo: fazer da garagem da casa a sede provisória do Maxuxéia e dali, tudo pronto, partirem em procissão pela Rua Braz Cubas até a Avenida Pinheiro Franco, caminho rumo às escadarias do Itapeti Clube na Praça Firmina Santana. E assim foi feito.

Nesse ano, um dos seus últimos, o Maxuxéia arrasou. Tinha um caixão sem muito reparo, coberto por um pano preto ababadado de branco. Tudo muito mal costurado, com alças nada confiáveis. O caixão deveria conduzir o Conde Drácula. E aí surgiu o quadragésimo – e não último – dos impasses que costumam marcar toda confraria que se quer democrática: quem seria o Drácula do ano? Havia dois candidatos que chegaram devidamente paramentados para a festa: Carlinhos Clery que, jovem, conseguia ainda ser mais magro do que está hoje. Eu mesmo lhe dizia, nessa época tão magro quanto ele, que “nós dois quando estamos de frente, parece que estamos de lado e, quando ficamos de lado, parece que já fomos embora”.

O outro era Álvaro Granado, que sempre foi patoludo. Sabe-se lá por quais cargas d’água, cismaram que Álvaro seria o Drácula. Abriram mão dos cinquenta e poucos quilos de Carlinhos e se dispuseram a carregar, naquele caixão capenga, os 80 quilos de Álvaro. Bem que alguém avisou: a alça não vai aguentar e tem gente que não vai se dispor a carregar esse peso todo.

Mas a eleição estava feita; tapetão era coisa que sequer se admitia pensar em termos de Maxuxéia. Álvaro foi mesmo o Drácula da noite. Chegou andando, caninos expostos e manchados de mercúrio cromo; orelhas de abano ampliadas por uma maquilagem barata. Só deitou no caixão para entrar nos salões do Itapeti Clube. Tudo escuro, ambiente alumiado por algumas tochas que Zumbis carregavam. Nos alto-falantes ressoavam ruídos estranhos, desses que dizem barulhar os cemitérios, mas que nunca ninguém ouviu.

Por falar em cemitério, onde estão aqueles do grupo que disseram ir até o de São Salvador buscar inspiração para a grande noite? Eram seis, que chegaram tarde ao baile, depois de passar quase duas horas explicando ao delegado da época, Rodrigo Junqueira, o que faziam dentro do cemitério.

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
RIO NEGRO – A Praça da Bandeira, na segunda metade da década de 1960, era ainda um pedaço totalmente residencial da Cidade, quando o mogiano Aécio Arouche de Toledo, em conjunto com o amigo Joaquim Magalhães (que depois se elegeria prefeito de Guaxupé, em Minas Gerais), empreendeu a construção do Edifício Rio Negro.

GENTE DE MOGI
SORRISO – Dalmo Faria de Almeida era um professor discreto. Fluminense de Rio das Flores, veio bater em Mogi por conta da carreira no magistério. No contato com os alunos, marcava presença pelo domínio da especialização (Geografia) e pelo sorriso. Em 1967 começou, com um curso supletivo noturno, o que é hoje o Colégio Santa Mônica. Morreu em maio de 1989, tinha 56 anos.

O melhor de Mogi

A Casa da Banda, sede da Corporação Musical Santa Cecília, em frente ao Teatro Municipal. É um monumento à história da Cidade e de suas manifestações comunitárias. Pergunta não ofende: que destino a Secretaria de Cultura, que não conseguiu preservar a banda, pretende dar ao prédio?

O pior de Mogi

A distribuição de panfletos promocionais nos semáforos da Cidade. Além de sujar as ruas, que outra vantagem traz para a Cidade. Emprego? Então estamos todos muito mal. Não esqueçamos: a uma lei que proíbe essa atividade.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter disputado campeonato de bocha na cancha do Cine Parque. Fica na área hoje ocupada por um supermercado na Rua Ricardo Vilela>