Cia. do Escândalo estreia “Inimigo”

Peça mostra a relação de vingança e morte envolvendo duas famílias e se passa na Albânia dos anos 1930   / Foto: Divulgação
Peça mostra a relação de vingança e morte envolvendo duas famílias e se passa na Albânia dos anos 1930 / Foto: Divulgação

A partir deste sábado até o dia 8 do próximo mês, de sexta a domingo, sempre às 20 horas, a Cia. do Escândalo, fundadora do Galpão Arthur Netto, apresenta por lá seu novo espetáculo “Inimigo”, baseado na obra do escritor Ismail Kadaré. Os ingressos são em forma de contribuição livre, ou seja, o público paga quanto pode e/ou quer. A peça é a 10ª da Cia. do Escândalo, grupo que esse ano completa 21 anos de atividade na Cidade. No palco, as cenas buscam uma reflexão sobre a facilidade quase que natural de se fazer inimigos no dia a dia.
“É interessante como, sem perceber, agimos com um padrão que se inclina ao desentendimento. Embora todo mundo fale em amor, em fraternidade e tolerância, nossas ações, em sociedade são instintivamente reguladas à disputa e à eliminação da razão do outro”, reflete o ator e um dos gestores do Galpão Manoel Mesquita Junior. “Quando encontramos a história do Ismail Kadaré, no livro ‘Abril Despedaçado’ percebemos que era perfeita para a reflexão que queríamos fazer. Queremos falar sobre uma tradição que todos estamos construindo: fazer inimigos”, completa o também ator Vitor Gonçalves.
No elenco estão Isabela Zandoná, Manoel Mesquita Junior, Ricardo Caffé, Thiago Costa e Vitor Gonçalves. A direção é de Danilo Meirelles.

Sinopse
Baseado na obra do escritor albanês Ismail Kadaré, o espetáculo narra a história de Gjorg Berisha, um rapaz que faz parte de uma família envolvida numa relação de vingança e morte há mais de 70 anos com uma outra família, os Kryeqiq. A trama se passa na Albânia dos anos 1930 e todas as relações sociais são reguladas por um código moral chamado Kanun, onde é formalmente previsto o direito de cada família, na sua vez, matar o inimigo com arma de fogo.

O processo
Após uma trajetória de nove espetáculos, em quase 21 anos, a Cia. do Escândalo, pela primeira vez, se aventura a trabalhar sobre uma obra já consolidada. “Normalmente construímos nossa própria dramaturgia, a partir de temas e reflexões em que estamos interessados no momento. Mas dessa vez a referência chegou até, de certa forma, por acaso”, explica Manoel. Segundo ele, o livro “Abril Despedaçado” chegou até às mãos do grupo sem maiores pretensões. Mas caiu como uma luva no processo que vinha sendo desenvolvido. “Estávamos mergulhados num processo de pesquisa e treinamento físicos para o ator e já havíamos desenvolvido uma sequência de trabalho inteira. Aí veio o livro. E percebemos o quanto queríamos falar sobre esse tema do inimigo nosso de cada dia”, diz Ricardo Caffé, um dos atores do grupo.
A Cia. esteve próximo de grandes mestres do teatro nos últimos três anos e foi muito influenciado pelos respectivos trabalhos e lições. Foi assim com o contato com o Workcenter of Jerzy Grotowski (Itália), com o diretor Eugênio Barba (Dinamarca), com O Contraelviento Teatro (Equador), com o diretor colombiano Jorge Romero Mora e com o ator e diretor brasileiro Donizeti Mazonas. “Aprendemos muito e precisávamos praticar tudo isso e ver o que nos servia e o que não nos servia. E a sala de trabalho é o melhor lugar para isso”, conclui Danilo Meirelles, diretor do espetáculo.
Assim a junção da pesquisa física com o tema e a dramaturgia trazida pela obra do escritor albanês Ismail Kadaré resultou num espetáculo em que o público é conduzido a refletir sobre o quanto reproduz comportamentos e “mata o outro” por estar refém de tradições que não construiu.


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