Cleptocracia

Eis que acabo de chegar, mas não tenha medo, não tema, vim para conversar com o Trema.- Olá meu rapaz, como é que vai essa sua força?
– Não vai nada bem, até estou indo embora, pois não há mais espaço para mim por aqui. Fui intempestivamente exonerado da função que, ao longo de muitos anos, vinha exercendo na Ortografia da Língua Portuguesa.
– E qual era exatamente a sua função?
Antes do malfadado Acordo Ortográfico de janeiro de 2008, emprestava meu charme ao “U” da Anhanguera e não havia linguiça, onde não me fizesse presente. Mas o que mais me entristeceu foi ver que os meus colegas de ortografia e as letras do alfabeto não se importaram nenhum pouco com a minha dor, muito pelo contrário, até zombaram de mim, dizendo coisas.
– E o que falaram de você?
– Por estar sempre deitado, houve quem afirmasse que a preguiça era minha amiga. Quem se esborrachou de rir com a minha exclusão foi aquela letra que leva uma pequena vírgula embaixo, dá uma de “S”, mas não passa dum fundilho frouxo que não é capaz, nem ao menos de começar uma palavra.
– Meu caro amigo Trema, caso isso sirva de consolo, quero que saiba que sentia profunda admiração por você. Era um prazer enorme poder colocá-lo no cocuruto do “U” do liquidificador, da eloquência, da frequência e de tantas outras palavras que, sem a sua presença perderam muito do seu encanto e beleza.
– Fazer o quê? Mas de uma coisa sei; fui defenestrado da portuguesa, mas cai nos braços da alemã. É verdade! Aqui na Alemanha eles me adoram, sou tratado como um verdadeiro rei. Marco presença em tudo quanto é lugar da moda e me sinto prestigiado por tudo e por todos e, creio que jamais serei abolido, como banido fui da terra que tanto amo. Mas não há de ser nada, meu amigo Gê, se ninguém mais houver que se lembre de mim, sempre vou me lembrar que você era meu fã de carteirinha.
– Prezado amigo, muito me alegro em saber que você está feliz da vida aí na terra de Ângela Dorothea Merkel, onde todos lhe dispensam um tratamento com pompa e circunstancia, ou seja, cercado de todo o requinte, enquanto aqui vou fazendo das tripas coração para viver o dia a dia da nossa Cleptocracia: regime político-social em que práticas corruptas, especialmente com o dinheiro público, são implicitamente admitidas ou mesmo consagradas. Até quando vão durar tantas lambanças e presepadas?

Gê Moraes é cronista


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