CHICO ORNELLAS

CODIC – apenas um sonho

Imagine – é de graça e faz bem – uma entidade apolítica que reúna representantes de todos os segmentos da comunidade. Ou seja: de médico a advogado; de comerciante a industrial; de agricultor a professor. Todas elas estariam representadas no CODIC, sigla do “Comitê de Defesa dos Interesses da Cidade”. Pois a ideia, surgida em Mogi das Cruzes na segunda metade da década de 1970 e de pronto defendida por este jornal, chegou a ameaçar alguns passos. Não foi longe; infelizmente não foi longe.

Mas, sobreviveu o bastante para merecer notícia de alto de página, com título ocupando toda a largura do jornal O Estado de S. Paulo em sua edição do último domingo de 1975 (28/12/1975): “Mogi cria conselho comunitário” informava a manchete, introduzindo ao texto:

Há 10 anos, a cidade de Jacksonville, na Flórida, enfrentava problemas que iam desde o descrédito de suas escolas até a decadência de seu comércio e, segundo uma revista norte-americana, “funcionários públicos corruptos”. Hoje, as escolas locais atravessam um período de grande prestígio, o ar e a água são cuidados de forma a se prever uma recuperação rápida, o comércio passa por uma fase de franco desenvolvimento e o centro urbano, antes dilapidado, hoje tem uma estrutura considerada funcional e humana.

Toda essa alteração, que se processou simultaneamente a uma redução dos impostos municipais, começou a partir da formação de um conselho comunitário, convocado por um juiz aposentado, Hans G. Tanzler Jr., então no cargo de prefeito e integrado “não por políticos profissionais”, mas por membros da comunidade sem qualquer participação política.

Hoje, o centro urbano de Mogi das Cruzes passa por um processo de deterioração sem que haja qualquer planejamento visando a sua recuperação; o Plano Diretor da cidade, idealizado há mais de 10 anos, foi praticamente esquecido; os comerciantes mais antigos e tradicionais da cidade pouco a pouco vão deixando seus pontos para os grandes magazines da Capital e as opções de lazer para a população de menor renda simplesmente não existem. Enquanto isso, a administração local enfrenta graves problemas de relacionamento com a comunidade, que permanece à margem dos centros de decisão.

É com base na experiência de Jacksonville e de outras cidades norte-americanas, incluindo Kansas City, Indianapolis, Seattle, Lexington, Gainesville e mesmo Nova York – o ‘conselho comunitário’ de NY encerrou suas atividades há cinco anos e, hoje, a cidade está Às portas da falência – que Mogi das Cruzes acaba de fundar o Conselho de Defesa dos Interesses da Cidade – CODIC que, em sua primeira reunião congregou representantes de 26 entidades apolíticas da cidade, incluindo associações de profissionais liberais, clubes de serviço, sindicatos de classe, entidades religiosas e órgãos de imprensa.

A ideia da constituição de um órgão com essas características surgiu há cerca de três meses na cidade, a partir da constatação de que, nos últimos anos, a comunidade local tem permanecido sempre à margem dos debates e soluções dos problemas comuns. Na reunião realizada para a fundação do organismo, durante três horas foram discutidas as principais deficiências do relacionamento da comunidade com os centros de decisão. Insistindo sempre que “o CODIC deve permanecer totalmente alheio Às disputas político-partidárias”, um dos idealizadores do organismo lembrou que, “embora distante da política, a comunidade tem obrigação de participar das decisões apolíticas que digam respeito diretamente aos seus interesses”.

Discutindo exemplos específicos, os fundadores do CODIC lembraram casos ocorridos este ano em Mogi das Cruzes e que, embora intimamente ligados aos interesses da cidade, foram encaminhados à distância de qualquer consulta: a Companhia Siderúrgica de Mogi das Cruzes, subsidiária da Companhia Siderúrgica Nacional, por exemplo, ameaça implantar seu projeto de expansão em outra cidade do País, alegando para isso a negativa da Prefeitura Municipal em negociar os terrenos necessários à expansão. A COSIM emprega, hoje, quase dois mil operários e sua transferência fatalmente acarretaria um grande problema social na cidade. Outro caso levantado na reunião de fundação do Conselho: há alguns meses, a Prefeitura e a Companhia Telefônica da Borda do Campo iniciaram negociações para transferência de um imóvel reivindicado pela empresa telefônica para a expansão de seus serviços. As negociações foram interrompidas e nenhuma das partes, embora dos dois órgãos sejam de interesse público e o patrimônio em negociações seja municipal, divulgou a base financeira em que a questão estava sendo encaminhada.

A não participação da comunidade nos problemas que lhe interessam diretamente leva à suposição de que as questões estão sendo levadas de forma a beneficiar interesses particulares, embora muitas vezes isto não ocorra”, disse Jamil Karam Nassri, um dos idealizadores do organismo.

METAS – Reunindo pessoas apolíticas que representem entidades apolíticas de Mogi das Cruzes, o Conselho de Defesa dos Interesses da Cidade deverá ser dirigido por um Conselho Executivo sem divisões hierárquicas. O organismo será integrado por representantes de todos os organismos locais, que serão obrigatoriamente afastados do CODIC no caso de virem a ter qualquer participação política, seja em cargo eletivo, ou de nomeação de confiança.

Mantendo em sua estrutura comissões técnicas compostas por profissionais de comprovada experiência em seus campos de atuação, o CODIC elaborará planos e soluções para os principais problemas da cidade, principalmente aqueles ligados ao desenvolvimento urbano, comercial e industrial e os proporá – como colaboração – aos organismos de administração pública ligados a esses setores.”

Carta a um amigo

Jornalismo na sua mais pura essência

Atenção, atenção Mogi das Cruzes.

Atenção, atenção ouvintes da Rádio Diário de Mogi.

São 17 horas e 1 minuto.

O Sr. Waldemar Costa Filho acaba de ser eleito prefeito de Mogi das Cruzes.

Meu caro leitor

O 15 de novembro de 1988 foi uma quinta-feira, dia de eleições municipais em todo o País. Por aqui, para suceder ao prefeito Antônio Carlos Machado Teixeira, Waldemar Costa Filho candidatou-se uma vez mais. Já havia exercido o cargo por duas vezes, entre 1969 e 1972 e entre 1977 e 1982. Em tempos de comunicação analógica, para a qual ligações digitais, via telefone celular e internet, eram ainda temas de ficção científica, a informação circulava por trilhas carpidas a foice. A apuração dos votos, em cédulas de papel – feitas no ginásio de esportes do União FC, na Rua Casarejos – demorava no mínimo três dias. E qualquer resultado preliminar não chegava em menos de 12 horas.

Pois foi um acinte o que este jornal se dispôs a fazer: anunciar o resultado da eleição majoritária exatamente um minuto após o encerramento da votação. E utilizando, como porta voz, a mais antiga emissora de rádio da Cidade, então sob o guarda-chuva deste Diário.

A ideia surgiu cerca de um mês antes das eleições. Com apoio de professores da Universidade São Marcos, de São Paulo, uma equipe de pesquisadores percorreu os locais de votação e colheu o que, hoje, se denomina “boca de urna”. Entre 8 e 16 horas houve o trabalho de campo; entre 16 horas e 16h30 a tabulação, entre 16h30 e 17 horas, a conferência na busca de eventuais erros. Cinco minutos antes do fechamento das urnas, a prévia estava concluída e era possível redigir o texto de apresentação aos eleitores.

Na edição seguinte – 16 de novembro – do jornal, lá estava a manchete: “Waldemar é o prefeito”.

A bem da verdade, este não foi o primeiro exercício de furo jornalístico em se tratando do resultado de disputas. No carnaval de 1976 – 12 anos antes –, duas escolas polemizavam por aqui. Eram as agremiações do São João e do Comercial, cada uma apadrinhada por um dos grupos políticos que imperavam: o São João tinha o aval de Valdemar Boy Costa Neto, filho de Waldemar e o Comercial, de Eduardo Edu Lopes, filho de Jacob Lopes.

Boy tinha presença, nessa época, em um jornal de circulação bissemanal, com tiragem as quintas e domingos. Usando a influência que seu grupo exercia sobre o prefeito de então, Sebastião Cascardo, organizador do carnaval, marcou-se a apuração do resultado para a Quarta-feira de Cinzas. Com isto, o seu jornal não seria ‘furado’ na apresentação da escola campeã.

Precisamos resolver isso” disse, na segunda-feira pela manhã, o diretor Tote Da San Biagio. Missão dada para a Redação tem de ser missão cumprida. Na terça-feira de carnaval, 24 horas antes da apuração, a manchete chegava às bancas e assinantes:

São João é campeão”. Foi um trabalho pautado, sobretudo, pela credibilidade: repórteres saíram a campo para falar com os juízes, naquele tempo de identidade revelada. As entrevistas conduziram à certeza do resultado e custaram, para os julgadores, algumas reprimendas.

E vieram as eleições de 1993, disputadas no sábado, 3 de outubro. Uma vez mais o jornalista Darwin Valente ocupou os microfones da Rádio Diário de Mogi para anunciar:

Atenção, atenção Mogi das Cruzes.

Atenção, atenção ouvintes da Rádio Diário de Mogi.

São 17 horas e 1 minuto.

O Sr. Francisco Ribeiro Nogueira acaba de ser eleito prefeito de Mogi das Cruzes.

Outra vez a Cidade, ao tempo de cédulas em papel e turno único de votação, ficou sabendo muitas horas antes quem seria o prefeito para o mandato entre 1993 e 1996. Desenhou o destino que Chico Nogueira não o cumpriria: morreu ao início do segundo ano, cedendo lugar ao vice Manoel Bezerra de Melo. E estas eleições acabaram por gerar efeitos no pleito seguinte.

Pois quatro anos depois, no 3 de outubro de 1996, mais uma vez O Diário de Mogi e sua rádio anunciavam, no final da tarde daquela quinta-feira:

Atenção, atenção Mogi das Cruzes.

Atenção, atenção ouvintes da Rádio Diário de Mogi.

São 17 horas e 1 minuto.

O Sr. Waldemar Costa Filho acaba de ser eleito prefeito de Mogi das Cruzes.

E um repórter foi destacado para entrevistar Waldemar Costa Filho. Com apoio de um técnico de som, apresentou-se no apartamento do Edifício Portinari, onde ainda hoje reside a família de Waldemar. Mas, orientado por um advogado, o candidato eleito negou-se a conceder entrevista. Temia por um processo semelhante àquele que envolveu Chico Nogueira e Edu Lopes, quatro anos antes, decorrente de entrevista concedida a uma emissora local. Em seu lugar falou o filho, Valdemar Costa Neto.

Por um link estabelecido pela rádio, Boy Costa e o segundo colocado nas eleições, Chico Bezerra, acabaram celebrando, ao vivo, uma pesada discussão, na qual afloraram ressentimentos passados e atuais, surgidos no decorrer da campanha.

A partir das eleições de 2000, com o advento das urnas eletrônicas, que propiciaram apurações imediatas e das comunicações digitais, o anúncio deixou de ser feito pela rádio. Em seu lugar, o jornal passou a publicar com exclusividade, na edição seguinte às eleições, as primeiras entrevistas do prefeito eleito. Muito antes de divulgado o resultado final.

Abraços do

Chico

Flagrante do Século XX 

ANIVERSÁRIO DA BANDA – No dia 22 de novembro de 1949, reúnem-se dignitários de Mogi das Cruzes para comemorar o 23º aniversário de fundação da Banda Santa Cecília. Discursa Bijurico Gomes, tendo à sua esquerda o jornalista Isaac Grinberg. Na mesa, de terno claro, o então prefeito Zico Freire; Heitor Cardoso, de cabeça baixa, faz anotações (era o secretário da corporação e fez a dedicatória da foto a João Jungers); à direita do prefeito está Paulo Pereira Passos e, ao lado deste, Galdino Alves. Sentado, de braços cruzados, Chico Averaldo e, atrás dele, Antônio Guimarães, o temido “Lobo Mau”, inspetor de alunos do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz, O fotógrafo Fittipaldi está sentado à direita de um clérigo e João Jungers, de pé, é o primeiro da esquerda para a direita. (Arquivo João Jungers)

GENTE DE MOGI

TRAGÉDIA – A vida é feita de muitas alegrias e algumas tragédias. Uma das que mais marcou a minha foi no dia 8 de fevereiro de 1964, quando nos chegou, na casa que habitávamos na Rua Isabel de Bragança, a notícia de um acidente de carro na reta de Poá, da Estrada Velha São Paulo-Rio. Ali ficaram dois irmãos: José Carlos e Maria Elizabete Antunes Limongi; tinham em torno de 20 anos. José Carlos, o “Piu Piu”, está na foto.

O melhor de Mogi

Alguns alambiques artesanais que resistem nos confins da área rural de Mogi. Produzem cachaça que, para quem gosta, são definidas como um verdadeiro “néctar”.

O pior de Mogi

Leitor da coluna inclui aqui os motoristas da cidade que insistem em trafegar pelo centro das ruas estreitas, “quando seria possível dirigir em fila dupla, favorecendo o trânsito”.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… lembrar da Sorveteria Santa Helena, ao tempo em que estava na Rua Coronel Souza Franco, em frente ao salão de barbeiros de Roberto Escobar.

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