EDITORIAL

“Coisas que acontecem”

Vale ser invocado o nome escolhido pela professora, poeta e escritora Botyra Camorim Gatti para identificar o espaço que ocupou nas páginas de O Diário, com suas crônicas, que muitas vezes provocou reflexões e a resolução de problemas sociais, a partir das cobranças lançadas por ela. Botyra denomina o parque localizado no Centro Cívico, ao lado dos principais prédios públicos da cidade.

São coisas que acontecem (mas não deveriam acontecer), o descuido com o centro esportivo identificado pelo nome da cronista que, entre outras coisas, ajudou a fundar a Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) e é autora de diversos livros, entre eles, Uma Vida no Magistério, considerado peça fundamental para se entender e conhecer como foi a implantação do ensino público no Estado.

De tempos em tempos, uma passada pelo equipamento inaugurado em 1992, projetado para abrigar propositalmente as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, mostra a negligência no trato desse espaço público. Um local que poderia ser muito melhor utilizado.

Reportagem deste jornal enumera falhas que explicam o distanciamento do público do lugar. Há equipamentos enferrujados e amassados, mato alto em quadras esportivas, justo no período de férias, sujeira nos bebedouros.

É um parque bonito, centralizado, emoldurado pela Serra do Itapeti e com excelente localização, ao lado dos terminais de trem e de ônibus, o que o diferencia de seus outros irmãos, o Centenário, o Leon Feffer e o da Cidade.

O que diria Botyra Camorim, em Coisas que acontecem, sobre a situação desse espaço público? Apostamos que ela defenderia os interesses dos usuários, uma parte formada pelo público jovem atraído pelas pistas de skate, responsáveis pela projeção e profissionalização de mogianos nessa modalidade esportiva.

Favorecer a presença de um público diversificado neste e em outros parques é uma maneira de preservá-los, de blindá-los, contra a insegurança e as depredações.

Quando as pessoas estabelecem uma relação afetiva com o espaço municipal, ele passa a ser defendido pelo usuário, pela opinião pública.

Esse conceito carece ser construído, com a execução constante de políticas de conservação, manutenção e investimentos. Tudo isso, no entanto, depende de quem ocupa os prédios ao lado do parque – a Prefeitura, a Câmara, o Ministério Público, o Fórum, a OAB, etc. Desafortunadamente, a cultura atual desses endereços é a de isolamento. A instalação de muros em parte dos prédios que abrigam essas instituições delimita bem o que anda valendo na cidade.