PREJUÍZO

Com maior movimento nos centros de compras, golpes aumentam no final do ano

ALERTA Ruas cheias se transformam em paraíso para golpistas que se valem da boa fé das vítimas. (Foto: arquivo)

Estelionatários criam novas modalidades de golpes diariamente. A arma destes criminosos é o poder de convencimento e persuasão. Mais do que promessas de ganho fácil, práticas como o “falso sequestro”, ainda comuns em Mogi das Cruzes, têm sucesso, já que, por vezes, os autores envolvem as vítimas a ponto destas perderem a capacidade de reflexão e raciocínio. Em dezembro, durante o período de festas, quando o fluxo nos centros comercias costuma aumentar, os registros se elevam.

Durante o ano, em média, segundo a Polícia Civil, dez casos de fraudes são registrados por dia. Esse número é subnotificado já que parte das pessoas, por vergonha dos prejuízos sofridos ou por não ter esperanças em recuperar os bens perdidos, não denunciam as ocorrências.

Mesmo quando a polícia consegue identificar e prender o estelionatário, o prejuízo financeiro da vítima dificilmente é ressarcido. Portanto, estas são situações em que, como diz o ditado popular, “vale mais prevenir de que remediar”. De acordo com o especialista em segurança pública e ex-delegado de polícia Jorge Lordello, o registro do boletim de ocorrências “deve ser feito sempre, e é peça fundamental para evitar a propagação destes crimes”.

Lordello alerta: os casos de estelionato chegam a triplicar no final de ano. A época rotineiramente registra alto fluxo de pessoas nos centros comerciais – potencializado por fatores como as vendas de Natal e Ano Novo e o pagamento do 13º salário. Golpistas aproveitam o clima de festas para enganar os incautos.

Outro fator que contribui para o crescimento nos casos de golpe é o crescimento das vendas virtuais. Assim como a internet facilita as compras, ela representa riscos aos usuários pela facilidade em criar mensagens e sites fraudulentos idênticos aos verdadeiros.

Uma das ferramentas preferidas dos golpistas é o Whatsapp. O aplicativo de mensagens é o mais utilizado no mundo, com cerca de 1,5 bilhão de usuários, e se tornou um meio para aplicar crimes pela internet. De acordo com a própria empresa, mais de oito milhões de usuários brasileiros tiveram a conta clonada. São em média 23 vítimas por dia.

Golpes como o do bilhete premiado, a saidinha de banco e a venda de produtos falsos – como panelas e filtros de água, são alguns dos mais comuns aplicados na cidade. O Diário mostra como funcionam fraudes aplicadas no município.

Vítimas enfrentam prejuízos

A esteticista Viviane Cristina, de 33 anos, residente da Vila Nova União, em Mogi, procurou a Polícia Civil após ter o seu número de celular clonado no início deste mês. Criminosos se passaram por ela para solicitar dinheiro para amigos e familiares através do aplicativo de mensagens Whatsapp. Alegando ser uma situação de “vida ou morte”, criminosos enganaram um tio da vítima a depositar R$ 2,5 mil em uma conta bancária. O dinheiro não foi ressarcido.

Viviane relata que recebeu uma mensagem pelo aplicativo a convidando a realizar o cadastro em uma loja para receber descontos e que, para isto, precisaria informar um código enviado por SMS. “Depois disso, ela não consegui mais ter acesso ao Whatsapp e, na tela do celular, apareceu mensagem dizendo que o número estava sendo transferido”, relata a mulher. “Parece tão bobo, nunca acreditei muito nisso, acho que foi muito azar”, conta.

Depois do ocorrido, familiares e amigos da agenda da esteticista passaram a receber mensagens solicitando transferências bancárias, sempre se passando por ela. Diante da situação, Viviane avisou nas redes sociais que teve o aplicativo clonado e procurou a Delegacia Central da cidade, onde o caso foi registrado como preservação de direito.

A ação é rápida e quadrilhas trabalham sempre da mesma forma: enviando códigos por mensagem de texto se passando pela empresa do aplicativo. Assim que o usuário digita o código no campo do Whatsapp, imediatamente o dispositivo trava e a pessoa perde a conta e não consegue mais utilizar o serviço. A partir daí, o bandido tem acesso a conta, troca o código e opera com a agenda inteira da vítima nas mãos.

A recomendação da empresa para evitar estes casos, além de desconfiar de links que prometem “ganhos fáceis”, é ativar a verificação de duas etapas, na área de configurações do próprio aplicativo.

Saidinha de banco

Já o professor Willian Carneiro, de 46 anos, residente Do Shangai, teve prejuízo de R$2,2 mil ao ser vítima de uma “saidinha de banco”, na avenida Voluntário Ferreiro Franco no início do mês.

No 1º Distrito Policial, o professor relatou que assim que saiu do banco e chegou na calçada da avenida, ele foi abordado por um homem encapuzado, que parecia esconder uma arma por baixo da blusa.

Willian conta que havia avistado o homem antes de realizar o saque, e chegou a desconfiar. “Mas é uma rua bem movimentada e com câmeras, dificilmente acreditava que aconteceria algo assim”, lamenta. Segundo ele, ao entregar o envelope com o dinheiro, o homem fugiu correndo.

“Essa infelizmente é a segunda vez que acontece isso comigo, em ambas, eu saquei o dinheiro no final da tarde, algo que vou evitar sempre daqui para frente”, afirma o professor.

Modo de atuar dificulta a localização de quadrilhas

DICA Jorge Lordello afirma que não se deve falar com pessoas desconhecidas. (Foto: divulgação)

“Eu posso garantir que a quantidade de golpes, incluindo saidinhas de banco, bilhete premiado, meios de pagamento falsos, é maior do que assaltos e furtos na rua. O prejuízo também é muito maior”, alerta o especialista em segurança pública Jorge Lordello. Segundo ele, há uma grande variedade de oportunidades para golpes reais, presenciais ou virtuais. “Sempre há uma dificuldade da polícia localizar esses criminosos, e, no caso do crime virtual, complica mais ainda”, acrescenta.

Segundo ele, os idosos são as principais vítimas dos estelionatários. “Infelizmente os mais velhos, por terem vivido numa época onde as pessoas tinham mais honestidade com o próximo, acabam aceitando ajuda de estranhos nas ruas, e sendo mais vulneráveis”, lamenta.

Além disso, na maioria das vezes é difícil localizar os autores destes crimes. “As mesmas quadrilhas atacam nos centros de Mogi, Itaquá, Poá e Arujá, e daqui a alguns meses voltam novamente às mesmas cidades”, explica. A transição entre cidades visa despistar as investigações policiais.

Ele alerta para a necessidade de se registrar o boletim de ocorrências para facilitar a investigação e o encontro dos estelionatários. “Pessoas envergonhadas em registrar, acabam assumindo o prejuízo e as outras vítimas acreditam que não vai recuperar o dinheiro e acabam aceitando o problema”. Esse ciclo favorece os golpistas.

Segundo o perito, é importante que a polícia tenha acesso a dados criminais para poder analisar, tratar desses casos e buscar soluções. “Se as pessoas não registram as autoridades não ficam sabendo o que está acontecendo”, diz.

O especialista aponta soluções para evitar cair em golpes. “Sempre desconfiar, dinheiro nunca vem fácil, mas pode ir embora fácil”, indica, destacando que as pessoas “jamais” devem aceitar ajuda de pessoas estranhas.

“Em relação a banco, nós recomendamos que o indivíduo procure a agência só no horário de funcionamento, onde você tenha outras pessoas, os vigilantes. As dúvidas devem ser sanadas apenas com o funcionário identificado, e nunca a pessoa deve conversar com estranhos”, adverte, lembrando que os criminosos costumam agir em dupla ou grupo.

A todos ele recomenda: “Qualquer pessoa que te abordar dentro ou fora do banco deve ser encarada como suspeito. A pessoa começa com uma história qualquer, ou pedindo alguma coisa, normalmente uma orientação ou prometendo alguma coisa. Porém, na verdade, são golpistas e quem vê cara não vê coração”, alerta. “Seja um idoso, mulher ou jovem, falar com estranhos já é perigoso, agora dentro do banco ou saindo é pior ainda”.

Uma outra lição dada pelo ex-delegado de Polícia e apresentador de um programa sobre segurança, lembra que muitas vezes, as pessoas se esquecem que “no banco, não é para passear, é para fazer operação que se lida com dinheiro. A pessoa deve fazer a operação e ir embora”. Outra dica importante: idosos em idade avançada devem ser acompanhados de familiares. “São eles os alvos preferidos pelos golpistas”.

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