Com pandemia, condomínios reduzem despesas e taxas em Mogi

Alguns empreendimentos buscam alternativas para reduzir a alta da inadimplência que chega até 30%. (Foto: Eisner Soares)
Alguns empreendimentos buscam alternativas para reduzir a alta da inadimplência que chega até 30%. (Foto: Eisner Soares)

A crise econômica mundial trazida pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) afetou milhares de famílias mogianas, que precisaram se organizar para conseguir manter as despesas da casa diante da redução de salários, desemprego, paralisação e até mesmo encerramento de atividades neste período. Por conta deste cenário, muitos tiveram que priorizar o acerto de algumas contas em detrimento de outras, como a taxa condominial, que registra inadimplência de 20% a 30% na cidade.

Segundo o diretor da Garder Gestão de Condomínios, Mohamad Omar Zeitoun, responsável pela administração e auditoria de imóveis de Mogi das Cruzes, a inadimplência no setor aumentou até 30% desde o início da pandemia até o momento. “Alguns síndicos permitiram reduzir a taxa ou mesmo retirar algumas despesas a mais que o condomínio tinha. O IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) também foi renegociado com a Prefeitura Municipal, assim como outras taxas do governo. Outros condomínios que decidiram por cobrá-las não estão conseguindo recebê-las totalmente por causa desta situação delicada”, explica.

Na avaliação de Zeitoun, por mais dois ou três meses, os condomínios podem direcionar o fundo de reserva para cobrir esta inadimplência e manter em dia suas contas, mas se o problema persistir por mais tempo, a tendência é entrar no vermelho. “Esta situação está igual em praticamente todas as cidades e, diferentemente da compra de bens, que é possível negociar com os fornecedores, isso não acontece com os contratos grandes, como os do pessoal da portaria e outros prestadores de serviços. Então fica ainda mais complicado”, diz.

A expectativa do presidente da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC), José Roberto Graiche Junior, é otimista a longo prazo. “A inadimplência está em um patamar tolerável, os condomínios souberam se adaptar bem e acredito que o pior já passou. Está havendo a flexibilização e quem tinha que demitir já fez isso. Agora é a hora da retomada, que vai ser gradual, com tendência de subir aos poucos. Acompanhamos o comportamento, que com o tempo vai se normalizar”, aposta.

De acordo ele, que também é vice-presidente da Graiche Administradora de Condomínios e Imóveis, com unidade em Mogi, foram adotados mecanismos para frear a inadimplência no setor, que geralmente já gira em média de 7,8% em tempos de normalidade.

“Agora, alguns condomínios ratearam o que era estritamente necessário para sobreviver naqueles serviços que precisam, a conta ordinária. Outro recurso muito utilizado foi mostrar ao condômino a importância do pagamento da taxa condominial, principalmente hoje, quando estão todos em casa e precisam que seja mantida a estrutura de limpeza e demais serviços, porque na verdade, o condomínio é como uma vaquinha entre os condôminos e, se alguém deixa de pagar, os outros têm que pagar por ele, ou então, corta-se o serviço e todos são prejudicados”, explica.

Graiche Junior destaca que a situação refletiu no mercado de São Paulo como um todo, mas alguns casos pontuais precisam ser analisados. “Se a pessoa não é devedora costumaz, tem um problema comprovado ou perdeu o emprego, cabe negociação com o síndico para parcelar o pagamento da taxa condominial, fazer acomodação da verba a fim de honrar o compromisso e não ser prejudicada. Agora não se pode privilegiar alguns em detrimento dos outros. Desconto da taxa, por exemplo, não existe, mas o pagamento tem condições de ser flexibilizado para evitar que o caso vá para a Justiça”, explica.

Ainda na avaliação de Graiche Junior, nos últimos dois anos, a taxa condominial e o orçamento mensal dos condomínios vêm sendo avaliados para eliminar gastos a fim de que possam caber no bolso dos condôminos. “Antes do coronavírus, já vínhamos de uma crise no Brasil. E não é possível cortar gordura, como os serviços, por exemplo. Mas para não aumentar a inadimplência e conseguir mantê-la nos níveis considerados normais no setor, alguns deixaram de ratear verbas de fundos de manutenção, que são recolhidos em aplicações financeiras para usar depois, e também o caixa de obras que seriam realizadas. Isso foi cortado”, conta.

Governos

Financiamentos de programas governamentais têm posições distintas durante a pandemia. Os mutuários do programa federak Minha Casa, Minha Vida podem solicitar o benefício de não pagar as parcelas durante120 (veja matéria nesta página).

Já os que pagam o financiamento à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que possui conjuntos em Mogi das Cruzes, em bairros como a Vila Cleo, César de Souza e Cocuera, não contam com essa possibilidade.

Vale mais negociar do que adiar pagamento

A situação atípica vivida nos últimos três meses e meio exige organização do pagamento das contas de consumo, como energia elétrica e água, além da negociação de taxas condominiais e impostos, a exemplo do IPTU, e de mensalidades escolares, que devem ter prioridade no planejamento familiar, assim como os gastos com alimentação e outras despesas essenciais. Os economistas consultados por O Diário aconselham o corte de tudo o que é supérfluo neste período e nos próximos meses.

“Estamos em uma guerra contra um inimigo invisível. A renda das famílias caiu e muita gente perdeu o emprego. Deve-se manter a compra apenas dos alimentos essenciais e não deixar de pagar as contas, principalmente o cartão de crédito e o cheque especial. Adiamentos, como no caso do IPTU, são paliativos, porque uma hora isso terá que ser pago. Assim como as taxas do condomínio, o IPTU deve ser negociado, mas não deixar de ser pago”, orienta o economista Arcílio Ruzzi Filho.

Para definir prioridades, segundo ele, é preciso cortar tudo aquilo que é possível viver sem. “Todos devem evitar desperdícios, então é importante reduzir o tempo debaixo do chuveiro ligado, apagar as luzes quando não se está mais no ambiente, cortar a compra de alimentos supérfluos, como bolachas, doces, refrigerantes, etc, assim como a TV por assinatura. É necessário se adaptar a esta situação porque ainda pode vir mais desemprego e, se já estava complicado antes da pandemia, agora piorou”, enfatiza.

Seguir um planejamento, segundo ele, é essencial. “As despesas devem ser administradas da melhor maneira possível. Agora, se a renda caiu a zero, é possível se aguentar por um momento, mas depois ficará mais complicado. E não vejo a possibilidade de retomada da economia para este ano, que será totalmente perdido. Esta recuperação levará tempo e talvez possamos enxergar uma luz apenas no final de 2021. Veja o que está acontecendo na Educação. Perdendo matrículas, a rede particular perde receita e precisa cortar despesas, sendo que a folha salarial é a maior delas”, diz.

Planejamento também é palavra de ordem neste momento na opinião do economista Francisco Cláudio Tavares. “Primeiramente, deve-se pagar a conta maior, que é a mais difícil de se negociar. Em segundo lugar, ao parcelar um pagamento, a pessoa precisa verificar se no futuro terá como liquidar as prestações. E, em terceiro, é necessário fazer um orçamento mensal e atualizá-lo todos os dias, seguindo o que está nele”, ensina.

Caixa oferece 120 dias para pausar débito

Diante das dificuldades financeiras geradas pela pandemia, pagar as prestações da casa própria também se tornou um pesadelo para muitos mutuários da Caixa Econômica Federal. Uma das alternativas foi oferecer a possibilidade de pausa de 120 dias no pagamento das parcelas do financiamento habitacional, que pode ser solicitada por clientes com contrato adimplente ou com até dois encargos em atraso, por meio do Aplicativo Habitação Caixa ou pelo Telesserviço (telefones 3004-1105 para capitais ou 0800-726 0505 para demais cidades, opção 7 da URA).

O atendimento acontece de segunda à sexta feira, das 8 às 20 horas, e já foram registrados cerca de 2,3 milhões destes pedidos desde o início da crise até o momento em todo o país – não há informações regionalizadas.

Segundo a assessoria de imprensa da Caixa, ainda é possível fazer o pedido de pausa no pagamento para os contratos com atraso entre 61 e 180 dias, por meio do aplicativo Habitação Caixa ou pelo telefone 0800-726-8068.

“Durante o período de pausa, o contrato não está isento da incidência dos juros (remuneratórios), seguros e taxas, previstos contratualmente. As prestações pausadas são incorporadas ao saldo devedor e diluídas no prazo remanescente, respeitando-se as taxas de juros e o prazo contratados originalmente”, trouxe a nota enviada pela assessoria a O Diário, que não informou os dados regionalizados do índice de inadimplência da carteira habitacional.


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