ENTREVISTA DE DOMINGO

Comandante da Patrulha Maria da Penha de Mogi defende leis mais rigorosas contra os agressores

TRAJETÓRIA Gabriela Maria Barbosa Avelar está à frente da Patrulha Maria da Penha. (Foto: Eisner Soares)

Em 2008, a 16ª e última candidata chamada para integrar o primeiro grupo de mulheres da Guarda Municipal conhecia apenas a região central de Mogi das Cruzes. Ela nasceu em Suzano. Quando ouvia alguém falar do Taboão, admite, pensava que o bairro era uma cidade. Foi o trabalho na rua, na cobertura de férias de agentes masculinos, que as áreas distantes, vulneráveis, rurais passaram a ser conhecidas. A segurança do cidadão, das ruas, sempre foi o objetivo da Gabriela Maria Barbosa Avelar, hoje comandante da Patrulha Maria da Penha de Mogi das Cruzes e defensora de leis mais rigorosas para a violência contra a mulher. A Lei Maria da Penha tinha dois anos quando Gabriela alcançou um sonho de criança: seguir os passos do pai, o policial militar rodoviário José de Cássio Barbosa. A legislação foi aprovada em 2006, após a impunidade do ex-marido da professora Maria Rosário da Penha não ser mais tolerada pela sociedade brasileira. Para deter a linha ascendente desse tipo de crime, Gabriela admite a complexidade da questão. “Quando você conversa mais com a vítima, descobre que há um círculo vicioso e eu vejo as crianças, em nossas abordagens, e me pergunto: no futuro, como elas serão? Serão agressores ou vítimas?”. Confira a entrevista de domingo com quem acompanha atualmente 400 mulheres que, para viver em paz e segurança, se valem da medida protetiva concedida pela Justiça para que os agressores não cheguem perto delas. Nesse grupo, há mulheres de todas as idades e classes sociais. Inclusive uma mãe, de 89 anos (você leu isso mesmo, 89 anos) que apanhou não de um homem, mas da filha. Confira:

Sempre quis ser policial?

Sim, desde pequena. Eu fiz o concurso para ser policial militar, mas acabei passando no concurso para a Guarda Municipal de Mogi das Cruzes em 2008.

Foi inspirada por quem?

Por meu pai, o policial militar José de Cássio Barbosa, que hoje tem 67 anos, e foi policial rodoviário durante anos na rodovia Ayrton Senna. Segui esse caminho por ver o trabalho e a dedicação. Comecei a trabalhar aos 11 anos, em uma avícola, e estudei nas escolas Comendador Brasilis Machado Neto e Davi Jorge Cury.

Como é a sua família?

Meu pai, José de Cássio, minha mãe, Marli, que faleceu aos 48 anos, e somos quatro irmãs (Rita de Cássia, Juliana e Adriana). Sou casada desde 2004 com Fábio Souza Avelar.

Como foi chegar a Mogi das Cruzes, nesse primeiro grupo de agentes mulheres da Guarda?

Havia certa desconfiança porque as pessoas sempre acham que essa é uma profissão de homem, mas as mulheres têm conquistado o espaço porque são competentes, e eu tenho de falar com tato, mas eu acredito mesmo que nós, mulheres, temos competência e até mais jeito e visão para solucionar conflitos. A Guarda feminina começou com 16 mulheres e hoje tem o dobro desse número.

Nesses 11 anos, quais foram os desafios?

No início era conhecer a cidade porque Mogi das Cruzes é extensa demais. Quando alguém falava do Taboão, eu achava que era uma cidade vizinha. E o trabalho da Guarda Municipal exige o conhecimento de toda a cidade, que tem locais que a maioria desconhece.

Nas ruas, como a Guarda Municipal atua?

Há uma ideia equivocada, que ela cuida apenas do patrimônio público municipal físico, escolas, postos de saúde. Não é bem assim, e a Guarda vai mudar ainda mais, quando estiver completamente armada.

E a Patrulha Maria da Penha, como age?

Nós asseguramos a proteção às vítimas que a Justiça considera mais vulneráveis e obtêm a medida protetiva. Hoje, são 400, as encaminhadas para a Patrulha, mas em Mogi, mais pessoas possuem a medida protetiva, porém, sem risco iminente. Em Suzano, a Patrulha Maria da Penha acompanha 3 mil medidas protetivas.

O que acontece quando a Patrulha recebe uma medida protetiva?

Nós cruzamos as informações do Fórum, da Delegacia da Mulher, e entramos em contato com a vítima, que, muitas vezes, por situações como a vergonha, dizem, em um primeiro momento, que não precisam de nossa proteção. Alguns dias depois, no entanto, o agressor volta a intimidá-la.

A vergonha é uma situação sempre lembrada por quem atende na rede de proteção à mulher. Por quê?

Há uma situação cultural, porque o veículo da Guarda Municipal vai até a casa da vítima, os vizinhos e familiares ficam sabendo de que algo não vai bem, e a mulher sente vergonha. Nesses casos, nós conversamos muito com ela. O que está em risco é a vida dela. Um dia, o agressor bate no rosto, no outro dia, pode usar uma faca.

Qual é o perfil da família que enfrenta essa situação de violência?

São mulheres de todas as classes sociais e de todos os bairros. Temos médicas, dentistas, advogadas, professoras…

Por que há homens tão violentos?

É uma pergunta difícil de responder. A maioria dos casos tem alguma ligação com a dependência de drogas e álcool, envolvendo o agressor e também a vítima. E também há casos que os homens são apresentados como trabalhadores, bons pais, e, entretanto, cometem a violência moral e física contra a companheira.

Por quanto tempo a vítima é acompanhada?

Depende muito, mas o período mais tenso, após uma denúncia, leva de três a seis meses. É um tempo que o homem volta para a casa e a mulher pode acionar a Patrulha Maria da Penha para mantê-lo afastado. Muitas vezes, quando conversamos com esse homem, mostramos a ele a gravidade da situação, ele entende e não volta mais. E há também casos em que a própria mulher pede no Fórum a revogação da medida protetiva.

Em geral, como é o agressor?

Entre 40% a 50% ele já foi preso por algum motivo, ou já agrediu outras pessoas e companheiras anteriormente. O uso de drogas é o traço mais presente.

Por que os casos crescem tanto?

Eu sinceramente não sei responder. Os números são assustadores e há sempre sentimento de posse, de dominação desses homens sobre as mulheres. Eles chegam a dizer, ou fica comigo ou não fica com mais ninguém. E há uma desculpa colocada na droga. Elas dizem, “ele é bom trabalhador, mas quando bebe…” e eu penso que a maldade, a crueldade não pode ser justificada pela dependência química.

O que poderia mudar esse quadro?

Penso que uma mudança na lei. Seis meses de pena é um período muito curto. E muitos detidos sequer vão presos. A punição teria de ser exemplar. Faltam programas para atender vítima e agressor.

Muito se fala sobre o ciclo de violência vivido pela vítima. Como romper isso?

Quando você conhece melhor os casos, acaba descobrindo isso, que a vítima viveu isso na infância. Então, penso, que é preciso conscientizar a população, tratar as causas dessa violência, investir mais nas casas de atendimento.

Há casos que a surpreendem?

Sim, porque somos humanos e ver as crianças, na abordagem, dizendo que o pai espancou a mãe, é difícil. Eu me pergunto o que essa criança será no futuro? Vai viver o mesmo que a mãe, que o pai?

É automático julgar o outro. Por exemplo, a mulher que vive com um agressor. Como é lidar com esses momentos?

É difícil porque não acreditamos no que vemos. Eu sempre digo para os integrantes da nossa Patrulha que não estamos ali para julgar ninguém, o que nos interessa é a proteção à vítima.

Como é formada a Patrulha?

São agentes mulheres e seis homens.

Idosos têm medidas protetivas?

Infelizmente sim. Atendemos agora mesmo uma senhora, de 89 anos, que obteve uma medida protetiva contra a filha, que a agredia. E quando disse a ela, que a qualquer hora, a senhora pode revogar a medida, ela respondeu que não, que não poderia mais aceitar a filha.

Em briga de marido e mulher, é para meter a colher?

Sim, é. Porque tanta coisa mudou e hoje ninguém pode admitir a violação dos direitos do ser humano. E noto uma mudança, vizinhos nos procuram e há meios de fazer uma denúncia, no 153 ou no 180. Uma denúncia pode salvar vidas.

O que mais gosta em Mogi?

Mogi é maravilhosa, possui lugares lindos, o Parque Centenário, o Pico do Urubu, tem história, pessoas de diferentes culturas, belezas naturais.

O que poderia ser melhor em Mogi?

Olha, nas ruas, nós vemos muitas pessoas que vêm para Mogi por causa da educação, da saúde, veja o Pró-Criança, poucas cidades têm essa estrutura. Mas, algo importante seria um centro de atendimento à mulher vítima de violência. Nós temos ONGs, como a Recomeçar, mas a demanda é crescente e elas sozinhas não conseguem atender a todas.

A senhora está licenciada?

Sim, mas volto logo. Trato um câncer de mama, que descobri em um exame sobre um tumor benigno que apareceu na cabeça. Só tenho a agradecer. Tenho a proteção de Deus, da minha família e dos meus amigos da Guarda Municipal, que estão me encorajando muito nesse momento.


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