ENFRENTAMENTO DO MACHISMO

Comissão do Laço Branco, formada por homens do Creas de Mogi, age contra a violência à mulher

O psicólogo Roberto Kowano e o assistente social Marcos Souza integram a comissão. (Foto: Natan Lira)
O psicólogo Roberto Kowano e o assistente social Marcos Souza integram a comissão. (Foto: Natan Lira)

Quando o assunto é a violência contra a mulher, existe uma rede capacitada para atendê-las e também fazer orientações sobre como denunciar. Mas um grupo do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, criou um movimento mais preventivo e a fim de trabalhar em um âmbito que é tão importante no enfrentamento do assunto: a cultura do homem machista. Para isso, o trabalho é voltado a eles.

Para isso, a pasta criou a Comissão Laço Branco (leia mais nesta página) formada por um advogado, dois psicólogos e dois assistentes sociais, que fazem uma programação de ações para levar até os homens a ideia de que as desavenças podem ser resolvidas por meio da conversa.

A ideia surgiu após a equipe participar de uma capacitação durante seis meses sobre o tema violência de gênero e masculinidades, em Itaquaquecetuba.

A maior parte dos homens alcançados pela equipe ocorre durante as abordagens nas ruas, palestras e outras ações realizadas. Ainda há uma dificuldade em acessar o homem agressor que a mulher também recebe algum tipo de assistência do Creas.

“Esse homem se acha dono da mulher e, no contexto dele, ele não tem que participar dessas atividades. Ele acredita que deve estar trabalhando, ou no bar, mas não em um equipamento para tratar a questão de masculinidade e violência doméstica. Existe até uma estatística qualitativa que mostra um bom resultado, mas pouquíssimos acabam se sensibilizando”, conta o assistente social e coordenador do Creas, Marcos Carvalho de Souza.

Apesar de ir atrás de homens agressores, a comissão não trabalha com os agressores já apenados. Neste caso, a Lei Maria da Penha prevê que estes homens recebam orientação. “Existe uma lei na Câmara que tenta tornar obrigatório este tipo de equipamento nas cidades. Esta semana, o ‘Jornal Nacional’ mostrou a primeira sessão de tratamento desses homens agressores, chamada “E agora, José?”, em Santo André. É um equipamento importante para a região também”, pontuou o psicólogo Roberto Batista Kawano.

O trabalho da comissão consiste em desconstruir toda a ideia do “ser homem”. A equipe ressalta que desde pequeno o homem é ensinado para ser o provedor, o forte, que não chora e até opressor. A dificuldade, segundo eles, está em fazê-lo ressignificar tudo isso e olhar que existem outras formas de masculinidade.

“É indiscutível que o machismo oferece muitas vantagens aos homens, mas há também uma parte ruim e está ligada diretamente a essa imagem do homem impressa na sociedade. Um homem que fica sem emprego, por exemplo, ele é visto como um imprestável. Ele realmente se sente assim, na maior parte dos casos, e aí recorre para a bebida, drogas, e esse ciclo termina com a agressão em casa”, conta Kawano.

Vida Maria

Nos atendimentos a mulheres vítimas de violência, o assistente social percebeu que existe um ciclo muito parecido entre a maior parte das histórias. Ele analisou que não é uma regra, mas é comum uma menina que morava em uma residência em que o pai praticava violência contra a mãe. “Quando ela entra na idade de 14, 15 anos, ela encontra um príncipe que vai virar sapo. Ele promete para ela sair do contexto para viver com ele. Quando isso acontece, geralmente, ela passa a viver sob a violência doméstica”, destaca Souza.

Ainda, segundo o conselheiro, um estudo mostra que quando a mulher chega a denunciar o agressor, geralmente nos casos de agressão física, ela já sofreu por anos de repressão e violência psicológica. “É semelhante a um vazamento de água, quando você percebe já correu muita água, chão e paredes já estão mofados. A falta de perspectiva de grande parte das vítimas faz elas aceitarem algumas situações, como ‘hoje ele me bate duas vezes na semana, antes era três’”, pontua.

O homem e o sentimento de superioridade frente à mulher

Ao menos oito mulheres foram vítimas de feminicídio no Alto Tietê em 2018. Os números podem ser ainda maiores, já que o crime é um agravante do homicídio simples, e casos como o da jovem Rayane Paulino Alves, de 16 anos, assassinada após a saída de uma festa, em Mogi das Cruzes, não recebem essa classificação já que a vítima não tinha um relacionamento com o suspeito.

Além do feminicídio consumado, existe a tentativa do crime, que os registros ultrapassam o de mortes. Só neste início de ano, o marido tentou matar a esposa com golpes de faca no Distrito de Jundiapeba, em Mogi das Cruzes. Em Santa Isabel, a vítima não resistiu após o companheiro  utilizar um revólver e atirar várias vezes contra o tórax dela. Ele foi preso.

Para o psicólogo do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) Roberto Batista Kawano, os casos ocorrem pelos mais diversos motivos, mas o principal deles é do homem se sentir superior à mulher. “Existem, sim, casos em que o homem é também agressivo na rua, mas a gente observa que uma maioria faz isso apenas dentro de casa, porque se sente o mais forte”, pontuou.

Dia do Laço Braço no calendário oficial

A Secretaria Municipal de Assistência Social quer inserir o Dia do Laço Branco no calendário oficial de Mogi das Cruzes. O objetivo é fixar a data para criar mais uma forma de conscientizar os homens sobre a violência contra a mulher.

No ano passado, a pasta realizou 16 dias de ativismo. A mobilização começou em 25 de novembro, no Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher e seguiu até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Em 6 de dezembro, Dia do Laço Branco, a ação foi no Largo do Rosário, com entrega de material informativo.

A campanha Laço Branco foi criada por um grupo de homens canadenses que se indignaram com o massacre na Escola Politécnica de Montreal. Na ocasião, 6 de dezembro de 1989, Marc Lepine, de 25 anos, invadiu a sala de aula e assassinou 14 mulheres e se suicidou em seguida. Ele não aceitava a ideia de mulheres em um curso de engenharia, à época, mais direcionado ao público masculino.