CIRCUITO

Como identificar os sintomas do “mal do século”

Marly de Albuquerque. (Foto: Eisner Soares)

Médica neurologista com pós-graduação em epilepsia, Marly de Albuquerque se dedica desde a década de 1970 a compreensão e tratamento das questões da mente humana. Por muito tempo esteve envolvida em pesquisas acadêmicas e científicas, e também lecionou para diferentes turmas da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Nos últimos anos tem se dedicado exclusivamente aos atendimentos em seu consultório particular, onde registra muitas queixas ligadas à depressão, doença tida por ela como “o mal do século”. Marly acredita, porém, que a doença não é invisível, e ensina nesta entrevista como perceber os sintomas do transtorno que cada vez acomete mais pessoas.

Como perceber sintomas depressivos em familiares, amigos e conhecidos de nosso círculo social?

Hoje, principalmente com smartphones, as pessoas não enxergam umas as outras, mas é possível detectar sintomas depressivos a partir de dificuldades de relacionamento, fácil irritabilidade, pouca paciência, do descuido consigo, com os outros e com o ambiente, choros sem motivo, apatia, desinteresse. Esses indicativos já dão um bom indício para ir ao médico e pesquisar sobre o assunto.

Ao perceber isso, como abordar a pessoa?

A abordagem não pode ser agressiva, então é preciso pontuar as situações no momento em que elas acontecem e dizer “eu acho que você não está bem”, “preste atenção em você” e perguntar “o que você está sentindo?”. É como diz o ditado, não dá para “maldizer a escuridão e não acender a luz”, e é preciso observar que o primeiro passo é convencer a pessoa a fazer uma avaliação clínica inicialmente, para afastar doenças como o hipotireoidismo, em que o paciente fica apático, sonolento e desinteressado, sintomas iguais aos da depressão. Então o melhor é fazer é ir ao clínico e depois ao psiquiatra ou neurologista, pois estes profissionais vão fazer uma bateria de exames e encaminharão para o que for necessário.

E quem são as pessoas que tem depressão?

Todos. Meus pacientes, por exemplo são de todas as idades, todos os cleros, todas as classes sociais. É difícil traçar um perfil único, mas tenho atendido muitos idosos e mulheres entre os 30 e 40 anos. Atendo muitas pessoas com quadros demenciais de Alzheimer, Parkinson e também dor de cabeça e enxaquecas, que são o carro-chefe de qualquer consultório de neurologia. Vale ressaltar que a depressão do idoso é diferente, porque a mulher jovem chora, fica infeliz, acaba engordando, deixa de dormir e fala muito sobre tudo isso, enquanto quem é mais velho fica apático e introvertido, ficando mais difícil o diagnóstico, pontuado por queixas de falta de memória ou de “não dou conta das minhas coisas”.

Em que momento uma tristeza deixa de ser comum e se torna depressão?

Quando a tristeza interfere com a qualidade de vida e não deixa a pessoa viver plenamente, o que pode ser percebido na alimentação, no sono ou em qualquer outro aspecto. Costumo dizer que a depressão é o mal do século mas não é invisível. É que ela muitas vezes não é vista, é mal diagnosticada e tratada incorretamente.

Existem diferentes tipos de transtornos depressivos?

Sim. A primeira grande diferenciação é a depressão reativa, ocasionada pela perda, seja de emprego, de um ente querido, ou qualquer outra situação que traga dor. Claro que isso tem uma magnitude e uma duração, como o luto, que dura três meses, e se passar desse tempo é porque se tornou algo patológico. É preciso saber que saudade é uma coisa e luto é outra, e que cada um reage de uma maneira, mas fingir que o problema não existe não é uma opção. É preciso encarar e vivenciar a dor para poder superá-la. Depois fica a saudade, que não vai tomar conta da vida como a depressão.

Também há a depressão “doença”, com seus vários tipos. O transtorno depressivo maior é quando a pessoa tem, sem causa e/ou motivo, um quadro de tristeza que dure mais do que duas semanas. Associadamente a isso é possível ter alterações do sono, de apetite, de memória e ganho ou perda de peso. Há ainda a distimia, que é o mal-humorado crônico, alguém com humor rebaixado e que também decorre de alteração química cerebral.

Como você percebe essas várias nuances?

“Bom médico é aquele que melhor vê”, então é preciso estar atento a todos s sinais, ao que o paciente te diz, mas também enxergá-lo além do que te diz. Qualquer diagnóstico médico é feito a partir da anamnese, com a história clínica do paciente, considerando se ele tem algum fator reativo ou se já passou deste tempo. Já nos casos em que não aconteceu absolutamente nada e a pessoa tem alterações de humor eu começo a pensar num transtorno depressivo maior, o que pode estar associado à manias, como quando o paciente se percebe ou se sente poderoso, que consegue dar conta de todas as coisas, que consegue ficar bem dormindo muito pouco. Isto se alterna com quadros depressivos, falta de ânimo e de vontade, às vezes com ideação suicida e bipolaridade.

Como é o tratamento?

O tratamento consiste em três etapas de medidas psicoeducativas: fazer atividades físicas, fazer terapia e usar medicamentos. São três caminhos que devem ser feitos juntos. Mas se alguém está muito deprimido não será possível fazê-lo se exercitar, primeiro será preciso estabilizar com medicamentos que podem ser de diferentes classes. Em geral a depressão é tratada por até um ano e meio, e depois vamos diminuindo gradativamente a medicação, que não causa dependência. Mas se o paciente voltar a apresentar sintomas a medicação retorna por tempo indefinido, e em casos de bipolaridade deve ser mantida ao longo da vida.

Então existe recaída na depressão?

Depois de tratado com modo e pelo tempo adequado a maioria dos pacientes fica bem, mas se o tratamento for interrompido e/ou não cumprido corretamente, as pessoas podem retornar sim, e até mesmo com quadros piores.

De que maneiras as pessoas chegam até seu consultório?

De todos os jeitos possíveis. Ora são os colegas médicos que encaminham, ora via familiares, quando estes percebem que alguma coisa não vai bem. Mas a maioria vem por conta própria, com consciência de que tem depressão. Claro que as pessoas podem ir por outros motivos, já que a depressão pode acompanhar várias outras doenças neurológicas, e de uma maneira geral as pessoas têm preconceito com relação ao psiquiatra e não o procuram num primeiro momento. Mas a depressão é sim uma doença psiquiátrica, que deve ser tratada como tal.

Muitos pacientes pensam em suicídio?

Sim, há muitos pensamentos deste tipo em todas as faixas etárias. No entanto, quando há ideação ou se já teve tentativa anterior eu encaminho para a psiquiatria. Nem sempre é fácil descobrir isso, e é papel do médico avisar a família. Vale lembrar que não é falta de dinheiro que causa depressão, então há muitos ricos e famosos sofrendo disso. Tem quem se abra e tem quem não fale tudo da primeira vez. Por isso a coisa mais importante na medicina é a relação entre médico e paciente, pois se houver uma conexão ele vai falar.

Os medicamentos são os mesmos para todos os casos?

Não. Mas existem alguns guidelines (guias de tratamento), como para transtorno depressivos maiores, em que posso utilizar medicamentos chamados inibidores seletivos de recaptação de serotonina, isso se eu tiver certeza que o paciente não tem bipolaridade. E tem muitos outros remédios, mais ou menos com o mesmo mecanismo de ação, então vai depender de cada pessoa, do poder aquisitivo, do peso dela, das queixas mais específicas. Se o paciente tiver muita anedonia, ou seja, falta de prazer, de iniciativa, podemos usar inibidores seletivos de recaptação de noradrenalina, mas isso pode piorar a ansiedade, então é algo muito complexo. E para a bipolaridade são utilizados medicamentos chamados estabilizadores de humor.

Depois da medicação, como conduzir o paciente às outras etapas do tratamento?

Eu converso a respeito, pois tem pessoas que são absolutamente resistentes a terapia. Eu não obrigo, porque não tenho como, assim como o médico orienta sobre a importância de tomar os medicamentos com regularidade, sem interrupções e sem alterações na dose. A mesma situação para com a atividade física, que somente cerca de 15% da população faz. Eu estimulo tudo isso, sempre respeitando a hora certa para o fazer.


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