PATRIMÔNIO

Comphap inicia ação virtual em defesa do Casarão dos Duque, em Mogi

ABANDONO A retirada de telhas e queda de árvore compõem o quadro de degradação da antiga sede da fazenda de café, na rua Dr. Deodato Wertheimer. (Foto: arquivo)

O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Comphap) iniciou uma ação pela internet para colher assinaturas e comentários em defesa do Casarão dos Duque. O material será enviado à empresa Sotto Engenharia, hoje responsável pelo casario construído no século passado. Até ontem, mais de 3,4 mil pessoas haviam assinado a petição virtual. A ideia é chegar a 5 mil adesões para então se encaminhar o pedido aos proprietários do imóvel, localizado na Rua Dr. Deodato Wertheimer, no Mogi Moderno, e alvo de um processo de tombamento como patrimônio da história e da arquitetura da cidade.

A presidente do Comphap, a historiadora e professora Luci Bonini, diz que a instituição como representante da sociedade civil e acompanhando esse processo e o levante daqueles que defendem a preservação do casarão, resolveu abrir o espaço para que as pessoas interessadas nessa bandeira pudessem participar do movimento.

“Eu conversei com o prefeito (Marcus Melo) e o vice (Juliano Abe), e eles me ajudaram, encaminharam a nossa preocupação para a Procuradoria. O prefeito cobrou, inclusive, que adiantássemos o processo de tombamento do casarão como patrimônio municipal, mas para isso a gente depende de uma vistoria com um detalhamento técnico que faz parte do processo, e ainda precisamos de uma autorização dos donos. Vamos enviar este pedido junto ao abaixo-assinado e os comentários das pessoas que defendem a área”, detalhou.

PÚBLICO A presidente Luci Bonini fala sobre a participação popular na luta. (Foto: arquivo)

A luta pela preservação do Casarão dos Duques chegou à justiça. Em setembro do ano passado, a Vara da Fazenda Pública de Mogi das Cruzes deferiu uma liminar em caráter emergencial para que a empresa responsável pela área fizesse o isolamento e reparos no Casarão dos Duque. A empresa havia solicitado à Justiça autorização para demolir o imóvel, argumentando que a estrutura não tinha condições para ser reparada – o que é rechaçado pelos técnicos do Comphap.

Além disso, na semana entre o Natal e o Ano-Novo, a empresa foi notificada pela administração municipal sobre as intervenções que estavam fazendo na construção do século XIX. Pelo prazo de 30 dias, a empresa teria de apresentar um alvará para obras ou um projeto sobre o que está sendo feito no local.

Enquanto não inicia o processo de restauração do Casarão, a presidente do Comphap defende que o imóvel receba uma estrutura metálica em cima dele, a fim de preservar o que ainda resta da construção, isso porque a chuva acelera o processo de deterioração.

Luci conta que a construção foi a sede de uma fazenda de café do século XIX, época em que Mogi, apesar do clima, apostou no produto. No centro da cidade, o clima é mais frio, mas mesmo assim se produzia café de qualidade.

“Para se ter uma ideia, no auge do casarão, havia em torno de mil escravos em Mogi. A arquitetura é histórica porque é parede de taipa, e a construção tem um porão onde dormiam os escravos. Ele tem essa primeira história, depois ele tem a segunda trajetória em que ele passou a pertencer à família dos Duques. Existem lembranças históricas. As pessoas contam até que iam brincar lá. São coisas da história de Mogi”, afirma.

Vizinhos têm denunciado o processo de dilapidação do imóvel. Desde o início do ano passado, a antiga fazenda começou a perder ainda mais telhas e ser alvo de ações como focos de incêndio e a queda de uma árvore.

Já houve um processo de tombamento do Casarão dos Duque que foi suspenso quando o antigo proprietário, João Tadeu Machetti, se comprometeu em preservar o casarão no projeto de construção de três prédios residenciais na propriedade. O acordo não foi cumprido e o imóvel vendido à Soto Engenharia. Neste ano, o processo de tombamento foi reaberto.

Ao pedido de uma entrevista sobre o assunto, a empresa prometeu um posicionamento no decorrer desta semana.

Comunidade fala sobre os laços afetivos

A fim de popularizar a ação em defesa do Casarão dos Duque, em Mogi das Cruzes, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Comphap) vai encaminhar à empresa Sotto Engenharia os relatos daqueles que também torcem pela revitalização da antiga construção.

São os mais diversos tipos de manifestação. Jaques Jorge diz que “o povo que não tem passado, não tem história e não sabe como foi criado.”

Isis Alves dos Anjos Luciano também advertiu da necessidade de preservar parte da história da cidade. “Vamos contribuir para a conservação da história de Mogi! Muito já se perdeu mas ainda existem algumas obras que podem e devem ser preservadas”

Nilson Kitahara ponderou que uma forma de ajudar a preservar é também incentivar o proprietário: “isentando o IPTU ou algo assim…”

Para Marta Fontenelle, revitalizar o Casarão dos Duques garante o direito “de as futuras gerações terem acesso à memória e ao conhecimento histórico.”

Neiva Duque Pires diz assinar o documento com muito prazer pois conhece bem a história da chácara e do Casarão dos Duque. “Esse imóvel foi sede de uma fazenda que abrangia o bairro do Mogi Moderno e chegava até o Ribeirão Ipiranga, onde estavam os moinhos ativados por roda d’água e Monjolo. A área foi cortada pela abertura da estrada para Taiaçupeba. O ideal seria a Municipalidade desapropriar o imóvel, restaurar o casarão e ali implantar um Centro de Convivência para o bairro, pois o terreno tem 3.800m2″.

Prefeitura espera projeto

Desde a semana passada, a Secretaria Municipal de Planejamento não recebeu qualquer documento da Soto Engenharia sobre o projeto ou a concessão de um alvará para a realização de serviços de restauro no Casarão dos Duque, exigidos após uma notificação entregue m dezembro pelo Departamento de Fiscalização de Obras Particulares aos representantes da empresa responsável, agora, pelo imóvel.

De acordo com a Prefeitura, não foi aplicada multa ao proprietário do imóvel após as denúncias de novas intervenções que estariam sendo executadas no local porque, “em todas as ocasiões em que os agentes foram acionados e se deslocaram até o local para vistoriar o Casarão dos Duque, não foi constatado o descumprimento ao embargo da obra”.

Uma outra expectativa do Comphap é o cumprimento da medida judicial que impõe multa diária contra a falta de preservação do espaço.


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