CIRCUITO

Conhecimento, amizade e cooperação

Raquel Precioso Miralis. (Foto: Eisner Soares)

Há dois anos, a mogiana Raquel Precioso Miralis, que é formada em Direito e Administração e trabalha num escritório de advocacia como analista na área previdenciária, se encantou pelo escotismo. O que começou como curiosidade se transformou em trabalho voluntário, primeiro na secretaria, e depois como dirigente do Grupo Escoteiro Ubirajara, localizado na Rua Major Arouche de Toledo, no Centro de Mogi das Cruzes. Com dois filhos matriculados na instituição, ela afirma ter “mergulhado de cabeça” nesse universo, e por isso, conta, a O Diário como é trabalhar conceitos tradicionais com uma geração tão digital e também quais são os valores ensinados pelo grupo.

Como é passar conhecimentos antigos e “analógicos” para uma geração é “digital” e tem acesso a celulares e outros dispositivos a todo tempo?

Celular todos os escoteiros têm, ainda mais a partir dos 11 anos. Claro que não dá para dizer que não utilizam, mas são tantas dinâmicas com o conceito de “aprender fazendo” que eles acabam esquecendo. Os adolescentes, nas últimas semanas, tiveram uma atividade que consistia em trocar mensagens pelo Whatsapp, por exemplo, mas apesar de ter sido incorporada – a exemplo das nossas páginas no Facebook e Instagram-, a tecnologia não é primordial do movimento, pois chamamos a atenção para atividades lúdicas. Existem crianças que não conseguem ficar um minuto longe dos celulares, mas essas acabam não permanecendo no grupo.

Qual é então o maior desafio de trabalhar com jovens?

É preciso saber falar com o jovem. Não podemos agregar palavras duras e imperativas, por exemplo. Temos que chamar as crianças e adolescentes à atividade, e quando eles não querem participar é preciso cativar, mostrando que, já que está conosco, pode aproveitar o tempo da melhor forma possível. Há casos de pais que ficam frustrados porque queriam muito que os filhos se interessassem, mas as vezes isso não acontece. Mas como respeitamos a individualidade de todos, o Ubirajara acaba sendo uma grande família.

Quando o escotismo entrou em sua vida?

Meu marido sempre quis ser escoteiro, então quando tivemos filhos (os gêmeos Thales e Giovanni), buscamos conhecer melhor o movimento para inscrevê-los. Morávamos em Barueri, e lá não tinha grupos escoteiros, então quando voltamos à Mogi procuramos o Ubirajara. Os meninos ainda eram muito novos para entrar, então esperamos até 2017, para eles terem a idade mínima, e depois assistimos uma palestra introdutória sobre o escotismo, gostamos e ficamos.

Como foi esse período inicial?

Nós, brasileiros, sempre assistimos filmes norte-americanos com escoteiros, e por isso há por aqui o conceito de que o escoteiro só vende biscoitos, o que não é verdade, já que aqui essa prática nem é adotada. É necessário que a criança passe por quatro semanas de adaptação para que seja possível identificar se ela realmente está à vontade nas atividades. E o grupo pede o apoio dos pais, que ajudam a cozinhar, limpar e outras atividades, já que o grupo, apartidário e sem fins lucrativos, não recebe verba do governo ou de entidades. De cara comecei a ajudar na secretaria, e em 2018 comecei a atuar com o ramo Lobinho.

Aproveitando o gancho, como é feita a divisão dos escoteiros?

O escotismo é uma irmandade mundial que agrega conhecimento, amizade, cooperação e trabalho em equipe. Para que tudo isso seja possível, existem quatro ramos principais: os “Lobinhos”, de 6 anos e meio à 11 anos, que ainda estão conhecendo as coisas; a “Tropa Escoteira”, dos 11 aos 15 anos, fase em que o jovem desenvolve mais habilidades, como fazer a própria comida e a “se virar” com a supervisão de adultos; o “Sênior”, dos 15 aos 18 anos, quando os adolescentes são preparados para o mundo do vestibular, do trabalho e para a vida adulta; e os “Pioneiros”, dos 18 aos 21, que fazem trabalhos voltado para a comunidade em que vivem, como uma biblioteca infantil realizada no Jardim São Pedro, recentemente. Depois dos 21 anos os escoteiros deixam de ser jovens no movimento, e se quiserem continuar podem se tornar voluntários.

Qual o objetivo dessa formação?

O escotismo é um movimento de integrar o jovem, principalmente hoje, quando a tecnologia o afasta da família. Por isso agregamos conhecimento e desenvolvemos habilidades das crianças, que as vezes sabem fazer alguma coisa diferente mas não conseguem mostrar para os pais. Há um manual de habilidades e as crianças vão se descobrindo cidadãos melhores, sempre com orientação dos mais velhos. Por exemplo, um dos meus filhos fez a campanha e vai receber insígnia da Boa Ação, pois arrecadou livros por dois meses para distribuir na Estação Estudantes. Já o outro filho fez confeitaria, aprendeu a fazer cupcakes.

De que maneira acontece essa formação de cidadãos melhores?

Sempre a partir do conceito do “aprender fazendo”. Não temos atividades apenas para entreter, mas sim para instruir, respeitando o tempo de cada criança. Os “Lobinhos”, por exemplo, desenvolvem tarefas simples, como cuidar de uma bexiga cheia d’água por uma semana, para que ela não estoure, aprendendo a olhar pelo próximo e caminhadas para ouvir o canto dos pássaros ou recolher lixo das ruas da cidade, observando a importância de preservar a natureza. Os integrantes da “Tropa” aprendem, entre outras coisas, a cozinhar, acampar, fazer fogo, e os “Sêniors” vão para a mata, sempre com equipe de apoio, já montando estruturas com bambus para não ter que dormir no chão. Temos também atividades maiores, como uma feira do conhecimento, realizada na Braz Cubas Educação, com a presença de professores, policiais e bombeiros que ensinam técnicas de socorrismo, robótica, higiene bucal, informática, finanças e outras áreas. Enfim, todos os conceitos dão base para que os escoteiros lidem com quaisquer situações da vida, inclusive no meio urbano, já que eles têm que produzir relatórios de tudo o que fazem.

Como funcionam as insígnias que os escoteiros carregam em seus uniformes?

Pelo método escoteiro fundado em 1907, na Inglaterra, por Robert Baden-Powell, premiamos as habilidades que os escoteiros desenvolvem. As insígnias não são obrigatórias, e é possível avançar nos ramos sem ter desenvolvido nada, mas elas servem como incentivo para o aprendizado, desde coisas mais simples, como aprender a usar o termômetro ou o que fazer em casos de pequenos cortes na pele, à pesquisas mais complexas, como uma sobre a Lusofonia, comunidade formada por todos os povos e nações que compartilham a língua portuguesa.

E há inclusão dentre os escoteiros?

Sim, pois pensamos primeiro no próximo. Temos escoteiros cadeirantes, e também os que apresentam o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em diferentes níveis. Essas crianças mostram alegria muito grande quanto estão conosco, e sentem faltam quando estão em casa. O mesmo vale para os outros integrantes, e todos costumam ser respeitados pela cidade. Mesmo assim o grupo Ubirajara tem 73 anos e ainda tem gente que não sabe da existência dele. O ideal é que o escotismo fosse inserido na Educação…

O que é preciso para se tornar um escoteiro?

Os requisitos são: ter idade a partir de 6 anos e meio e mostrar interesse. Caso depois das quatro semanas de adaptação a criança queira ficar mesmo, faremos o registro dela na União dos Escoteiros do Brasil (UEB), procedimento para o qual há uma taxa anual que inclui um seguro de vida. E depois disso há o valor da mensalidade, que é simbólica, para pagar materiais de limpeza e outros itens, além do custo do uniforme, que não é obrigatório.

E quem são os voluntários que fazem isso tudo acontecer?

São dentistas, advogados, engenheiros, manicures, cabeleireiros… Assim como para os escoteiros, não importa o nível social, raça, credo, religião ou identidade de gênero. Vivemos em comunidade e criamos os escoteiros para o mundo, dando a base e reforçando a amizade, já que somos reconhecidos como “irmãos de lenço” em qualquer comunidade escoteira do mundo.