ARTIGO

Contra o consumismo idiotizado

Álvaro Rodrigues dos Santos 
santosalvaro@uol.com.br

Hoje vivemos em todas as áreas da atividade humana a síndrome da preguiça de pensar. É o resultado de anos e anos de massacrante propaganda voltada à idiotização do cidadão, entendido como consumidor. O que mais interessa aos produtores e vendedores de todos os tipos de produtos, materiais e imaterias, é um consumidor idiotizado, que não pense, que tome suas decisões de comprar isso ou aquilo apenas no embalo do que lhe é passado como idéia já pronta e acabada. Paralelamente, e articuladamente, valores e símbolos de ascensão social, de profundo viés egoísta, vão sendo diuturnamente inculcados na população, o que acaba gerando o ambiente propício a mais compras e aquisições automáticas. De tal forma que esses consumidores, já devidamente idiotizados, alimentem a ilusão de ostentarem símbolos de sucesso social e assim serem admirados e invejados pela vizinhança e por seus círculos sociais. Até igrejas pentecostais, mesmo afrontando e jogando no lixo o que pregou Cristo, aderiram à moda, e prometem a certeza da ascensão social como moeda de troca de colaborações financeiras com a “obra”. E milhões de idiotizados, achando-se espertos, entram de cabeça nessa cantilena.

E assim roda a Lusitana, mesmo todos intimamente sabendo que essa espiral maluca de consumo não trás satisfação e felicidade a ninguém, somente produz almas frustradas e permanentemente insatisfeitas. Uma lição para que não se subestime nunca o poder da preguiça de pensar. Mais vale a informação que chega pronta e acabada pelos meios de comunicação da vida. É o que os psicólogos chamam de “efeito manada”.

Vai assim o ser humano perdendo o atributo natural que tão fortemente lhe distinguiu das outras espécies animais: a capacidade de pensar, de conjecturar, de avaliar criticamente, ponderar e, por fim, decidir o que lhe seja melhor ou pior.

Também na política, e nessas eleições em particular, esse mesmo triste fenômeno se fez presente, e de forma ostensiva. A elaborada máquina de propaganda de uma das campanhas, sabendo que se dirigia a um universo de eleitores já marcadamente idiotizados, simplificou, passou e martelou sua receita: “o PT é o diabo que está acabando com o Brasil e Bolsonaro é o Salvador que vai por ordem no boteco”. Pronto, pra que pensar? De nada valeram os apelos para que não se decidisse o voto em função de simplificações tão grosseiras com essa. Mas não pensar e apenas reagir emocionalmente já apresentava-se como opção muito mais atraente. Deu no que deu.

Qual o apelo que nos resta fazer? O único que cabe nessas circunstâncias: independentemente de suas simpatias políticas, reaja, não se deixe transformar em um consumidor idiota, seja de produtos supérfluos, seja de atitudes políticas. Você ainda tem um pouco de orgulho próprio? Pois então pense, use seu cérebro, informe-se, pondere sobre as coisas, e construa sua própria opinião.

Álvaro Rodrigues dos Santos é geólogo e pesquisador