EDITORIAL

Convivência que cura

Ainda que de maneira precoce, o legado desses dias de isolamento social vai construindo novas realidades que, logo mais, no futuro, deverão nortear a vida humana. Por mais que a futurologia nos alcance, a história e a tradição oral e científica nos plantam quase sempre no chão. Revoluções concretas aconteceram depois das duas grandes guerras e da gripe espanhola. É certo. Mas não ao ponto que a humanidade precisa para deter os colapsos sociais e ambientais, em setores nevrálgicos, como a desigualdade social e a exaustão dos recursos naturais e do clima.

Tudo isso levado em consideração, no último domingo, uma constatação feita pelo experiente médico legista Zeno Morrone, responsável pelo Instituto Médico Legal (IML) de Mogi das Cruzes, mais do que um alento, confirma o que estudiosos defendem para se reduzir as mortes por suicídio.

Segundo Zeno Morrone, desde o início do combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus, o número de mortes por causa do suicídio zerou na cidade. Esse índice vem aumentando sensivelmente, especialmente entre parcelas da população jovem e adulta. Há décadas atuando no IML, o médico acompanhou a expansão dos casos, com um registro por semana, em média, de uma morte provocada pela própria vítima.

Será importante, no futuro, se pesquisar mais a fundo esse fenômeno. Porém, algumas mudanças provocadas pelo isolamento social contêm dicas para os profissionais da saúde e a sociedade, como um todo, tratar esse assunto que não pode ser um tabu.

As pessoas estão mais unidas em torno de um desafio comum – a saúde da maioria, os cuidados com os vulneráveis, a blindagem do sistema de saúde e do emprego.

Dentro de casa, por causa da quarentena, todos estão mais próximos e atentos àqueles que por situações como a depressão e doenças ligadas à saúde mental são potenciais vítimas desse tipo de morte. A empatia é uma condição para o combate ao suicídio. Sobretudo entre os jovens, que ainda estão formando a personalidade.

Esse sentimento, de se colocar no lugar do outro, está presente em boa parcela das pessoas no mundo inteiro – embora, no Brasil, lamentavelmente se encontre vozes dissonantes inclusive nas ruas, num macabro e indefensável espetáculo de desrespeito à vida, à saúde e à ciência


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