PERDA

Corpo de Albertina Ferreira, rezadeira do Divino, é sepultado em Mogi

DESPEDIDA Albertina foi sepultada no Cemitério da Saudade. (Foto: arquivo)
DESPEDIDA Albertina foi sepultada no Cemitério da Saudade. (Foto: arquivo)

Familiares e amigos sepultaram a rezadeira Albertina Maria Ferreira ontem, no Cemitério da Saudade. Na tarde de terça-feira, poucas horas antes de falecer, ela acompanhou em silêncio o terço entoado por rezadeiras que a visitaram na Santa Casa de Misericórdia. Dona Albertina é uma das antigas rezadeiras da região da estrada da Moralogia. Ela mantinha um pequeno sítio em um dos pontos mais altos da Serra do Itapeti e era conhecida por ser a proprietária do único carro de boi de Mogi das Cruzes, que engrossava o cortejo da Entrada dos Palmitos, um ritual antigo do qual moradores da zona rural eram os protagonistas – nos dias de festas católicas, Santana, Semana Santa e Divino, quem morava no sertão vinha para a cidade em carros de bois ou com os burros de carga e traziam, nos cestos, os produtos da terra.

Em uma Entrevista de Domingo, em agosto de 2003, dona Albertina compartilhou essas e outras histórias de quem viu os tratores rasgarem o Itapeti para fazer nascer a estrada Mogi-Dutra, ainda de terra, e viveu no miolo da serra, quando o lugar não tinha escola, o transporte era a pé ou a cavalo. Ela era do tempo em que, antes do acesso aberto pelo prefeito Waldemar Costa Filho, Mogi se conectava à malha rodoviária estadual pela São Paulo-Rio, a SP-66.

Fazia lembrar, um pouco, outra mogiana com estreita ligação com a Festa do Divino, e a Mogi do passado, Josephina Franco de Camargo (1901-1991), a Nhá Zefa Onça, um apelido nascido da fama de valentia e personalidade marcante. Albertina foi uma mulher batalhadora.

Criada na Serra do Itapeti, ela não estudou, mas aprendeu a ler e ensinou os filhos a ler, numa liturgia que foi modificada nos anos 2000, quando o ensino para adultos chegou a uma escola do bairro da Moralogia. Ela se matriculou para aprender também a escrever. Tinha 59 anos quando cursou o terceiro ano primário.

Integrava o grupo das rezadeiras desde a década de 1990. Na festa deste ano, já um pouco debilitada, ela surpreendeu as companheiras ao cumprir o turno de três horas de reza no Império do Divino. A rezadeira faleceu aos 76 anos, deixou 4 filhos, 10 netos e dois bisnetos. Será lembrada pelo amor ao Itapeti. Sobre uma possível troca da serra pelo asfalto, disse a este jornal: “Na cidade não moro. Pra mim, a cidade é coisa muito difícil porque as pessoas ficam presas e eu não sou de ficar presa. Se fico um dia inteiro presa dentro de casa, eu fico louca. Não sirvo para morar na cidade não, sou do mato mesmo”.