ARTIGO

Corrosão da política

Gaudêncio Torquato

A degradação política se espraia pelo mundo e a representação não está passando pelo teste de qualidade. A política não corresponde aos anseios das sociedades nem é representa­da pelos melhores cidadãos, como pregava o ideário aristotélico. Norberto Bobbio já descrevia as promessas não cumpridas pela democracia: educação para a cidadania, combate ao poder invisível, transparência, poder das oligarquias.

A estampa dos homens públicos se apaga. Veja-se o espalhafatoso primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson; os rompantes de Donald Trump; a expressão tosca e radical do presidente Bolsonaro; o estilo ditatorial de Erdogan, na Turquia, etc.

A tradição da democracia liberal se degrada. Estamos vivendo o paradigma do “puro caos”. Que Samuel Huntington explica como um fenômeno que abarca a quebra da lei e da ordem, a onda de criminalidade, a desconfiança na política, que deixa o patamar de missão para se tornar profissão.

Os eleitores execram representantes e elegem perfis que expressam inovação e até virada de mesa. O de­sinteresse pela política se explica pela baixa escolaridade e ignorância sobre o papel das instituições e pelo relaxamento dos políticos em causas sociais.

Na Grécia antiga, o cidadão se escudava na esfera pública contra a futilidade da vida individual. O território era o da seguran­ça e da permanência. Até o final da Idade Média, público e privado se imbricavam.

Nesse momento, os produtores de mercadorias (capitalistas) invadiram o espaço público e começou a decadência. Na primeira década do século 20 acen­tuou-se com o declínio moral da classe governante. O conceito aristotélico – a procura do bem comum – abrigou o desentendimento.

Com a transformação dos estamentos, as corporações se multiplicaram. O espaço público virou arena de interesses, suplantada pela atividade econômica. Os eleitores, distantes de partidos, juntaram-se em núcleos ligados ao trabalho e à vida corporativa – sindicatos, associações, movimentos criados para fazer face ao novo modus operandi da política. O discurso de atores individuais e partidos já não provoca tanto eco.

Mas as emboscadas da política remanescem com agressões nas tribunas, encontros mafiosos, doações suspeitas, dólares na cueca, ovos atirados em autoridades etc.

Como limpar a sujeira? Primeira regra: o homem público deve cumprir rigorosamente seu papel. Segunda: punir quem sai da linha. Terceiro: revogam-se as disposições em contrário.

Gaudêncio Torquato é jornalista e professor titular da USP