DIFÍCIL

Crianças sentem os efeitos do isolamento

CONVIVÊNCIA Cristiane e Rodrigo perceberam diferenças no comportamento dos filhos Mateus e Valentina; Davi e Mônica observam mudanças em Otávio. (Fotos: divulgação)

A ciência diz que a infância é o período de formação do psiquismo humano. Nela ocorrem os primeiros contatos com o mundo externo e as experiências da vida, com destaque para as relações interpessoais. Com a quarentena de prevenção ao novo coronavírus, os pequenos também precisaram se isolar de forma abrupta. Pais ouvidos por O Diário relatam estranhamento de outras pessoas, nervosismo e mais choros como reflexos sofridos pelos filhos no convívio intenso dentro de casa.

A assistente administrativo de Mogi das Cruzes, Cristiane Correia Moreira, de 39 anos, tem dois filhos em idades diferentes. O Mateus com quatro anos e meio e a Valentina com um ano. Ela verificou que os dois reagem de formas diferentes ao isolamento. A menor não tem tantas alterações porque, mesmo já estando na creche antes da quarentena, a rotina dela sofreu menos alterações de atividades que a do Mateus, que tem estranhado os dias preso em casa com a mãe, irmã e o pai Rodrigo.

A mãe acredita que o filho entende o que está acontecendo, porém sem a dimensão da letalidade da Covid-19. Ela conversou com ele sobre o assunto, a escola fez uma atividade e também os desenhos já estão com personagens com máscara e retratam a importância de ficar em casa e de lavar as mãos para se prevenir da doença.

“Ele dizia que não estava sentindo falta da escola, mas estava com saudade dos amigos. Ele ficou com aula uma vez por semana online. No começo, não queria fazer, porque pensava que em casa não tinha essa responsabilidade, que era lugar de brincar. Agora, ele entende que precisa fazer as atividades e isso já está na rotina dele, então senta, assiste à aula e faz as atividades”, conta a mãe.

Cristiane acredita que, por ele ainda não saber definir os sentimentos, como o da falta dos amigos, está mais irritado e sentimental. Já na Valentina, ela percebeu um estranhamento de ver as pessoas com as máscaras. A filha aceitou de forma positiva a primeira vez que foi à creche, lidou bem com os “desconhecidos”, mas ela teme que o retorno pós-pandemia seja diferente. “Dizem que nessa idade, ela estará mais apegada aos pais, quer ficar perto, então acho que quebrou o ciclo dela e a gente vai precisar fazer outra adaptação”, relata.

A partir de amanhã, Cristiane volta a trabalhar presencialmente. O filho mais velho vai ficar com os avós, enquanto Valentina estará sob os cuidados do pai. Durante dois meses, eles permaneceram apenas em casa, e há alguns dias, ela os levou até os avós. Mateus aproveitou para correr, enquanto Valentina estranhou as pessoas com máscara.

“Eu amo ser mãe, mas ficar 24 horas com uma criança é desgastante neste momento, porque tinha que dividir a minha obrigação com o trabalho, e também a gente fica com muito medo de se contaminar, contaminar os filhos. Mas também é muito bom ver que eles estão com saúde. Não são só coisas ruins”, diz a mãe.

Retrocesso

Após o período de adaptação na creche, Otávio de 10 meses já estava mais solto, brincando, gesticulando para as outras pessoas, mas veio a pandemia e ele voltou a ficar só com a mãe e o pai dentro de casa. Mônica Tenório de Aquino, 33 anos, engenheira de segurança do trabalho, acredita que o processo de relacionar-se com as outras pessoas vai sofrer retrocesso, porque ele passou a estranhar os outros. “Quando vou na casa da minha bisavó, ele chora, fica mais nervoso e acho que é reflexo. O lugar ele não estranha, porque já ia antes da pandemia. Mas se for a um shopping ou restaurante em que tem mais gente, ele pode estranhar, sim”, conta Mônica.

Apesar de trabalhar home office em alguns dias da semana, ela levava o filho para a escolinha, em jornada reduzida, para cumprir a jornada de trabalho. Com o isolamento, além do marido Davi Allan, ela precisou da ajuda da sogra e da mãe. “Eu não tinha a preocupação de dar almoço, mamadeira e, hoje, não. Tenho que trabalhar e ficar toda hora vendo o que ele está fazendo. Quando tenho uma reunião, preciso que alguém esteja em casa, para ficar com o bebê”, conta.

Psicólogo alerta para o comportamento

A pandemia do novo coronavírus obriga as crianças a também se adaptarem ao isolamento no momento em que muitas ainda estão formando e organizando o seu “HD interno”. Por conta disso, têm menos recursos e bagagens para lidar com o momento. A avaliação é do psicólogo David Sergio Hornblas, especialista em desenvolvimento humano e psicopatologia, mestre em psicologia da educação, doutorando em saúde coletiva e professor de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas.

O professor explica que para as crianças mais novas, toda experiência social é nova, algo que não conhecem e muitos adultos não compreendem isso, como por exemplo, querer que o filho vá ao colo de um amigo de longa data ou parente dos pais, ainda na primeira vez que a criança o vê. Nesse caso é preciso entender que para a criança não havia relação anterior, então ela poderá agir de forma diferente do esperado.

Hornblas pontua também que, no caso de uma criança de 10 meses, ela está no período de construção da relação com o mundo. Até um ano e dois meses de vida, ela está aprendendo a se diferenciar do outro, passando da relação eu-eu para eu-mundo. “Se ela está no meio desse processo e passa horas na creche, a relação vai ter um significado para essa criança, mas quando deixa de ir à creche agora, continua nessa jornada de aprender a diferenciar-se do outro. Quando voltar para a creche, acredito que vai ser mais fácil do que tem sido agora, porque o processo pode já ter terminado. Não vejo que isso traga questões problemática à criança. Ela não tem muita noção de tempo e espaço como a gente”, explica.

Apesar de as crianças de mais idade, como acima de 4 anos, saberem se expressar melhor, falar, elas tê menos recursos para se adaptar e lidar com as diferentes sensações e ter de alterar a rotina. Ele faz uma analogia de um casal que gostaria de sair para ir ao cinema e comer e pode pedir um jantar em casa e assistir ao filme, ainda que não seja a mesma coisa. “Já as crianças têm menos recursos para encontrar alternativas e se irritam mesmo. À medida que vão ficando irritadas, irritam também os adultos. Por isso sempre digo que o adulto precisa ouvir as crianças. Quando elas estão chorando em demasiado, estão em sofrimento, e isso fica mais evidente do que para as outras pessoas”, pontua.


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