EDITORIAL

Crime e desesperança

Em Jundiapeba, neste ano, duas pessoas foram assaltadas ou furtadas por dia

Aos poucos as grades de proteção instaladas por comerciantes na região central do Distrito de Jundiapeba foram abandonadas. Quando o número de assaltos e furtos passou da medida, muitos deles pensaram que estariam mais seguros com a presença das barreiras físicas na porta dos estabelecimentos. Foi num efeito dominó: muitos recorreram ao que parecia a solução para os riscos de vida deles próprios, de funcionários e clientes.

O tempo passou. Os crimes continuaram. Ao invés de inibir os criminosos, os gradis afastaram mesmo foram os consumidores – que eram obrigados a esperar pela abertura das grades e cadeados para serem atendidos ou até mesmo se sentiam desconfortados com a situação. A insegurança segue dando as cartas no lugar que registrou um dos mais altos índices de crescimento populacional a partir da década passada, com a construção de novos núcleos habitacionais.

Uma comparação sobre o comportamento dos crimes mostra que o número de furtos e roubos aumentou sensivelmente entre o primeiro trimestre de 2018 e o deste ano. No ano passado, mais de uma pessoa por dia foi vítima desse tipo de delito (1.6). Neste 2019, mais de dois moradores foram alvo de ladrões (2.3).

A insegurança e a desesperança são características da vida no distrito. Comerciantes ouvidos por esse jornal em entrevista publicada no domingo contaram terem sido vítimas de assaltantes. Alguns, diversas vezes. “O negócio é cada um aceitar o prejuízo e seguir porque o governo não se importata com isso que está acontecendo aqui”, disse um comerciante assaltado seis vezes. Ele nunca chamou a Polícia – o que confirma algo sempre lembrado por este jornal quando autoridades governamentais defendem o sucesso das políticas de segurança pública. Muitas vítimas não registram as ocorrências, o que desmantela a percepção mensurada pelos registros policiais.

Está no relato dos moradores do tamanho de um problema social que não é exclusividade de Jundiapeba, mas ali ganha contornos reveladores quando se olha para o passado do lugar. Ao invés de crescer, o distrito inchou, transformando a rotina das pessoas em um jogo de sorte, quando o assunto é segurança.

O mais desafiador não apenas para as famílias e a sociedade civil organizada da cidade que, no futuro, será cuidada pelas gerações que formar agora – jovens são vítimas e algozes, ao mesmo tempo, nessa onda de crimes.

“Não adianta a Prefeitura vir inaugurar uma praça aqui porque logo é tomada pelo tráfico, por vandalismo. É necessário investir no jovem”, indica uma moradora, de 36 anos, mãe de filhos.