MOGIANOS PELO MUNDO

Da Suíça, mogiana Erika destaca a solidariedade

Professora mogiana de inglês defende o acerto do isolamento para combater a Covid-19. (Foto: Divulgação)
Professora mogiana de inglês defende o acerto do isolamento para combater a Covid-19. (Foto: Divulgação)

À pergunta, “quando você vem para Mogi?”, a expressão da mogiana Erika Gonçalves muda na conversa por vídeo. Ela vive na Suíça. Tem passagens aéreas compradas para julho e não sabe a resposta para o que depende da evolução da Covid-19 no Brasil e no mundo, e as determinações do governo brasileiro a quem chega de outros países. “Eu posso não ter problemas para viajar, mas se tiver de ficar em quarentena, quando chegar a Mogi, não valerá a pena”, diz. Ela vive a milhares de quilômetros da família há oito anos, após ter se casado com Eric Iol, hipnoterapeuta, radialista e profissional que atua na área de tecnologia em escolas.

Professora de inglês e de espanhol, estudante do último ano da Faculdade de Letras, em Lausanne, onde reside, ela criou e mantém o canal Viva + Suíça, no Youtube, irrigado por vídeos sobre educação, turismo, cultura e gastronomia daquele país. Nesta semana, a região onde mora se prepara para abrandar as regras do confinamento. Erika comenta sobre os desafios lançados ao mundo e teme que, assim como nas últimas pandemia e guerras mundiais, não aconteçam grandes mudanças sociais e comportamentais como a redução do consumo, o freio na degradação ambiental, responsável pelas mudanças climáticas, e a diminuição da desigualdade. De positivo, assinala o despertar da solidariedade, em algumas pessoas. Confira a entrevista que integra a série “Mogianos pelo Mundo”:

Por que vive na Suíça?

Eu me casei há oito anos com um suíço, e me mudei. Leciono inglês a alunos do Ensino Médio e adultos, e estou estudando Letras, que aqui tem currículo diferenciado do que conhecemos no Brasil. É mais ligado voltado a temas específicos como artes, ciências humanas, história. No ano que vem, pretendo começar o mestrado.

É a sua segunda faculdade…

Sim, no Brasil, fiz Comunicação Social, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

Como surgiu o canal no Youtube?

A partir de conversas e os pedidos de informações de amigos que nos visitavam na Suíça, sobre as belezas do país, os pontos turísticos. Aos poucos, ele foi mudando, e fui acrescentando outros temas, como a gastronomia, uma de minhas paixões, e agora, a educação.

Você postou um vídeo, semana passada, sobre o confinamento. E fala sobre as reações dos alunos às aulas online. Como estão os estudantes, nessa quarentena?

Divididos: há os que gostam, e até apresentaram uma melhora na participação das aulas, e os que precisam de um professor presencial. Eu acho que essa experiência da quarentena irá acelerar, em alguns pontos, o ensino a distância, que, aqui, começou logo depois da quarentena, porque já existia um treinamento e um sistema pronto para isso. E, ainda assim, há dificuldades por parte de alunos e também de professores, especialmente dos que não estavam muito acostumados à linguagem das redes sociais e da internet.

Nesse segmento, da educação, o desemprego é preocupação?

Ao contrário, houve uma demanda por mais professores e conteúdo. Eu, particularmente, senti isso, porque já estava atuando nesse meio digital. E aqui também, mesmo com o preparo anterior, houve diferenças nas aulas nas escolas particulares que, em geral, recebem alunos que não se adequaram à escola pública (essa é uma grande diferença com o Brasil, onde ocorre o inverso). O ensino privado começou as aulas online na frente, das públicas, que também estão oferecendo esse conteúdo, mas demoraram um pouco mais nesse processo.

E o acesso às aulas, é igual para todos os alunos? Aqui, no Brasil, há muita disparidade entre quem possui o acesso à internet, e os demais, que são a maioria.

Aqui também há essa questão, que preocupa. Há relatos de alunos que não conseguem se concentrar, porque vivem com a família, e também há diferenças de acordo com as séries e idades dos alunos. Os mais novos precisam de uma orientação dos pais. Nem todos dispõem de uma rápida conexão.

Como foi a quarentena?

O governo tomou as medidas, e as pessoas cumpriram as normas, que são parecidas com as do Brasil, com o funcionamento apenas dos serviços essenciais, como supermercados e farmácias. No inicio, houve a corrida às compras e a falta de materiais. Mas, isso foi se adaptando com o tempo. Agora, nos preparamos para a saída gradual do isolamento, primeiro com as escolas de nível fundamental, e mais tarde, com as demais.

E o desemprego? Quando se pensa em Suíça, ninguém imagina em discrepâncias sociais. Isso existe?

O governo liberou recursos financeiros para pessoas sem contrato de trabalho, os que fazem freelancer ou são horistas, principalmente no turismo, restaurantes, e nas artes, em geral. Houve burocracia no acesso, e na confirmação do que essas pessoas realmente faziam e ganhavam. Há algumas dificuldades para os imigrantes ilegais, mães solteiras. Não é uma desigualdade como a brasileira, mas ela existe em outra medida. Porém, não há como comparar. E todos estão receosos com o que irá acontecer, daqui a dois meses, quando uma nova onda de casos da doença poderá surgir.

No início do ano, você foi entrevistada pela TV Diário, sobre a pandemia, e dizia que o surto era algo mais pontual, na China. Como isso mudou rápido, não é?

Sim, isso rapidamente mudou, com o avanço dos casos. Antes, acompanhávamos as notícias da China, como se fosse algo distante. Mas, isso mudou, e eu tenho de dizer que me sinto, de certa forma, com um orgulho de ser uma “cidadã” na Suiça, porque o governo agiu muito firmemente no combate à doença. Eu senti uma confiança muito grande porque o confinamento é um meio de preservar vidas, e de se reduzir o tempo de espera para que o isolamento perdure um menor tempo.

Como é acompanhar as notícias do Brasil, tão diferentes dessa realidade no que se refere à unidade quanto às decisões governamentais?

É muito difícil porque tenho minha família, que se cuida, e se cuida muito, mas só isso não garante a proteção de todos. Quando vejo realidade política e social brasileira, fico muito deprimida, e sinto a incapacidade de reação a tudo isso. Aqui, temos uma extrema direita representativa, cerca de 37% do governo, mas isso não vai influenciar nos caminhos que foram adotados. Porque a população é ativa. Houve também a defesa por alavancar a economia, por uma parte das pessoas, e, embora, isso também seja importante, prevaleceu o cuidado com as pessoas.

Você educa jovens. Como eles sairão dessa pandemia?

Olha, serei sincera, ando muito descrente, porque essa geração é individualista. Nós, professores, provocamos o pensamento sobre a coletividade, o outro, mas as respostas não são como gostaríamos que fossem. Eu não prevejo grandes mudanças. Há uma parte dos alunos, interessada, inclusive, na campanha de defesa climática, lançada pela Greta Thunberg (ativista social sueca que foi reconhecida como a personalidade do ano pela Revista Time pela luta pela preservação climática), mas ainda é algo muito pequeno diante de desafios como o da desigualdade, por exemplo.

Um ponto positivo, percebido por você, nessa pandemia?

Vi, pela primeira vez, um lado solidário do povo suíço que ainda não tinha percebido, e talvez até existisse antes, mas não era visível, ao menos, para mim. Vi pessoas ajudando as outras. Vejo, por exemplo, um esforço grande para se estimular as compras do açougueiro do bairro, do comerciante mais próximo de casa, que antes não existia. São pequenas ações.

E em você, algo vai mudar?

Sou muito ansiosa. Nesses dias, em casa, pode ter nascido um pouco mais de paciência e calma para esperar pelos resultados. Viver mais o presente, talvez seja a principal mudança.

E o mundo, muda?

Não sei, tivemos outra grande pandemia (a espanhola, em 1918) e as guerras mundiais, e ainda vemos pessoas divulgando mentiras, falsas notícias, vivendo como se nada estivesse acontecendo. Vemos um fortalecimento da extrema direita, no mundo, líderes questionáveis. Só o tempo responderá essa pergunta.


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