ARTIGO

De olho no futuro

Vale a pena observar a movimentação do mercado de trabalho com a valorização de profissões antigas, não apenas como resultado da crise econômica, mas também como um norte para o futuro, como disseram entrevistados deste jornal, na nossa edição de domingo. Cresce a procura por sapatarias, oficinas de costura, de tintura de roupas e consertos de equipamentos.

O interesse pelas profissões antigas ganha força pelo viés econômico e sustentável, componente que muito interessa à luta pela preservação do planeta, ameaçado pela poluição do ar, da terra e das águas, o fim de espécies de fauna e flora, as alterações climáticas e a finitude dos recursos naturais.

É uma mudança em estágio inicial, mas que começa a se tornar visível pela maneira como muitas pessoas começam a usar e descartar os bens de consumo. Isso pode começar pela pressão econômica, para muitos, mas há quem faça isso por uma consciência sobre o consumo e a proteção do meio ambiente.

O reaproveitamento de sapato, roupa, do fogão usado, e ainda a venda daquilo que não serve mais, mas tem valor para outra pessoa, inverte um conceito de consumo e da longevidade das coisas. Favorece o que parecia antigo e tradicional demais e dinamiza um nicho de mercado de trabalho que poderá incluir quem está ameaçado pela quarta revolução industrial, caracterizada pela robotização dos processos fabris, que reduzirá brutalmente o uso da mão de obra humana e elevará a qualificação profissional, restrita a uma parcela da população.

O aumento da procura por cursos profissionalizantes do Crescer, destinados a itens, por exemplo, como a costura da própria roupa ou para a abertura de pequenos negócios, é reflexo desse panorama, medido pela expansão da rede de sapatarias e oficinas de costura e de outros serviços que pareciam fadados ao desaparecimento.

Os ganhos serão econômicos, ambientais e sociais, segundo prevê o economista Claudio Costa, em nossa reportagem de domingo. Ele explica que essas transformações ditadas pelas novas gerações.

A geração Z, nascida entre 1990 e 2010, defende Costa, está muito mais ligada à preservação do meio ambiente e à ética, do que as gerações passadas. Não é um cidadão radical, “mas ele está preocupado com o futuro” e “pensa na compra e no descarte” dos produtos, diferente de quem nasceu antes, que se caracterizou pelo consumismo extremo. “A geração de agora está mais focada no critério da sustentabilidade, da economia social e ambiental”.

Tudo isso indica que as velhas profissões estão, na verdade, bem atuais.