CIRCUITO

Debora de Souza Mello conta como viviam os “primeiros mogianos”

Debora de Souza Mello. (Foto: Eisner Soares)
Debora de Souza Mello. (Foto: Eisner Soares)

Reconstituir características dos povos indígenas que viveram em Mogi das Cruzes é mais do que um hobby para a mogiana Debora de Souza Mello. Formada em Lazer e Turismo pela Universidade de São Paulo (USP), ela usa estas informações para promover o excursionismo local a partir de roteiros tanto para visitantes da capital como para os próprios moradores, já que são várias as opções deste setor por aqui. Sendo assim, no aniversário de 459 anos do município ela comenta, nesta entrevista, como viviam os primeiros habitantes da cidade, bem como mostra a amplitude do turismo de Mogi.

De onde vem o interesse em pesquisar as origens indígenas de Mogi?

Os livros de história que temos em Mogi enfatizam muito a história colonial, o descobrimento a partir do olhar dos portugueses, e sempre me incomodei muito com isso, pois sabemos que antes disso, há mais de 3 mil anos já existiam aqui povos indígenas. Inclusive foi nos livros que descobri uma curiosidade sobre o aniversário da cidade, que é contado a partir de 1560, quando o colonizador Brás Cubas veio para cá, mas foi recebido com muita hostilidade. Ele retornou à São Paulo e registrou o local, porém a colonização só aconteceu de fato em 1611, com Gaspar Vaz.

Como eram os povos que por aqui viviam naquele tempo?

Os restos de objetos encontrados indicam que eram povos que realmente gostavam da terra, divididos em aldeias pequenas. Pelas informações disponíveis sabe-se que não eram nômades, ou seja, viviam fixos aqui pela riqueza de água devido ao rio e também por conta das serras do mar e Itapeti, que tornavam o ambiente propício para o plantio, para o sustento.

Qual o nome deles?

Como não sou historiadora não me arrisco a confirmar esta informação, mas alguns dizem que eram os Tupinambás e já ouvi outros nomes também. Existiam mais de 200 etnias no Brasil, número muito maior que o da Europa. No país tínhamos três troncos linguísticos, ou seja, uma diversidade muito grande de cultura.

E onde estavam localizados?

Pela localização dos restos de objetos encontrados, pode-se dizer que ficavam no pé na Serra do Itapeti, onde hoje é o Parque Natural Municipal Francisco Affonso de Mello – Chiquinho Veríssimo, e também em regiões planas e próximas do rio, onde atualmente está o bairro Mogilar.

Que outras características os “primeiros mogianos” tinham?

A questão de viver unidos em família, mas não em grupos individuais, com pai, mãe e filhos. Eles viviam como uma grande família para toda a etnia. Os homens passavam o dia na caça, na agricultura; as mulheres tinham a responsabilidade do sustento da tribo toda; e as crianças geralmente ficavam com os avós, pois quanto mais idoso, mais maturidade e experiência se tinha.

Como você obtém estas informações?

Além das pesquisas tradicionais em livros e artigos, tenho feito vivências em aldeias indígenas e participado de rituais xamânicos com diferentes povos. É nestas mentorias espirituais também que tenho resgatado um pouco da história, através da minha memória ancestral. Procuro me conectar não só com os indígenas mas também com os japoneses, árabes e outras origens, que me contam um pouco da cidade por meio de sonhos, intuição e cerimônias espirituais.

Qual seu objetivo com este trabalho?

Tento resgatar os valores dos indígenas e dos outros povos que fazem parte de história da cidade. Meu papel, mais do que relatar o que aconteceu, é contar o que eles trouxeram de bom, o que deixaram de legado. E eles deixaram a preservação da natureza. De resquícios temos duas grandes serras, duas montanhas que estão em volta da cidade e um grande rio, como se fosse um grande jardim de flora e fauna, além toda a riqueza das águas, do reino mineral, principalmente na Serra do Itapeti.

E quando teve início o contato com a cultura indígena?

Quando eu era criança, achava que era indígena por conta de uma cicatriz que tenho na bochecha, por conta da qual me deram o apelido de “indiazinha”. Aliás eu tenho trisavó indígena, mas nunca tive contato. Foi só em 2012 que conheci esta cultura, no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

Como surgiu o interesse pelo passado local?

Em 1996 eu estudava na escola Coronel Almeida, que na época completava 100 anos. Por conta disso a professora pediu para os alunos fazerem um trabalho sobre a história de Mogi e me apaixonei pelo tema. Comecei a pesquisar bastante, ficava na biblioteca (que era no Casarão do Carmo) lendo todos os livros, isso com 9 e 10 anos. Mais tarde participei da inauguração da Ilha Marabá e acabei entrando num projeto de multiplicadores socioculturais. Depois disso decidi cursar a faculdade de Lazer e Turismo.

Falando em turismo, quais são as principais opções em Mogi?

São muitas opções na cidade, mas principalmente o turismo histórico cultural, baseado no centro histórico, que inclui praças, igrejas, museus, estabelecimentos comerciais e o Parque Centenário; o turismo ecológico, que pode passar pela Ilha Marabá, o Parque Municipal e o Pico do Urubu; o turismo de aventura/natureza que envolve a caminhada, principalmente na Serra do Itapeti; o ecumênico, que passa por cinco religiões diferentes; e outros mais específicos, como de observação de aves, flores e espécies animais. Tudo depende do objetivo dos visitantes e do tempo que eles têm em Mogi.

Existem atividades diferentes, ainda não muito conhecidas?

Há na cidade um circuito muito grande de retiros espirituais, rodas de cura e programação neurolinguística, muito por conta do nosso clima, da proximidade com as serras, com fontes de água, com lagos e cachoeiras. Também há sítios especializados em criação de abelhas, como um em Sabaúna, onde é possível aprender sobre o trabalho destes que são alguns dos seres mais importantes do planeta. Tem também um rancho que mantém quase 100 cavalos vivendo livres e faz um trabalho de cura por meio da relação do homem com os animais, além da experiência colhe e pague em muitos locais, que consiste em comer a fruta direto do pé, na plantação, chamando a atenção para a diferença dos frutos frescos e os que são vendidos nas quitandas, feiras e supermercados. Ou seja, temos muitas outras opções.

Então boa parte da experiência turística em Mogi se dá em propriedades particulares?

Sim, e é aí que eu falo que entra a valorização local, no sentido de pagar por isso. Quando se vai numa propriedade rural não se pode esperar que a entrada seja gratuita, pois existe todo um cuidado, mão de obra e recursos sendo gastos para que estes locais se mantenham. Os proprietários destas terras e os comerciantes do município são os anfitriões e estão buscando se qualificar, entendendo que o turismo tem importância não só de crescimento mas também de distribuição econômica.

O mogiano conhece os atrativos que aqui estão?

Eu penso que não, porque trabalho tanto com pessoas de fora, principalmente de São Paulo, mas também atendo muitos mogianos que querem conhecer mais a cidade, e toda vez que levo alguém daqui as pessoas falam que nunca tinham imaginado tantas opções. Ou quando conhecem, não tinham entrado nos locais, só ouvido falar ou passado em frente. Por isso é preciso ir com olhar novo, de visitante, mas também de pertencimento.

Em 2017 Mogi se tornou um Município de Interesse Turístico (MIT) reconhecido pelo Governo do Estado, porém ainda não “emplacou” como destino turístico. Na sua visão, o que falta para que isso aconteça?

Dois principais pontos. O primeiro é o endomarketing, ou seja, trabalhar a hospitalidade mogiana, de modo a ter moradores cientes do que a cidade oferece, para que qualquer pessoa esteja apta a conversar e explicar as opções para os visitantes. E o segundo é trabalhar melhor a marca da cidade, o marketing do destino Mogi.

Você enxerga alguma tendência para o turismo da cidade?

Acredito que o turismo de natureza, pois temos diversidade e extensão territorial muito grande, então é necessário vender a natureza de Mogi, mostrar que a cidade é rica nesse sentido, o que pode ser aproveitado tanto para a espiritualidade como para mountain bike e atividades radicais. Pensando nisso, vejo que a Serra do Itapeti deveria ser mais valorizada e preservada. Existe um embate para que se criem novas indústrias por ali devido ao retorno financeiro trazido por elas, mas é preciso enxergar o turismo como importante fator para desenvolvimento social, cultural, de preservação do meio ambiente e econômico, a partir da distribuição de renda.