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Despoluição do Rio Tietê segue ritmo lento em Mogi das Cruzes

ESFORÇO Mogi tem projetos para reduzir o volume de esgoto in natura jogado no Rio Tietê e em seus córregos e ribeirões todos os dias, mas faltam recursos e tempo. (Foto: arquivo)
ESFORÇO Mogi tem projetos para reduzir o volume de esgoto in natura jogado no Rio Tietê e em seus córregos e ribeirões todos os dias, mas faltam recursos e tempo. (Foto: arquivo)

O Rio Tietê recebe cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto em Mogi das Cruzes por mês. Num exercício matemático e surreal, a título de comparação, imagine uma cena proposta por alguém como o cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983), onde um sujeito abrisse os registros para drenar a água de 520 piscinas olímpicas e despejasse os 2,5 milhões de litros de cada uma delas no manancial que percorre 43 quilômetros do território mogiano. Mas, coloque freio na imaginação, dentro destas piscinas não há aquela água azul inspiradora e refrescante aos olhos de quem acompanha as competições esportivas, saudáveis. As 520 piscinas reservam dejetos de vasos sanitários, pias de cozinha e tanques, ralos dos banheiros e quintais de casas e estabelecimentos comerciais.

No passado, essa sujeira toda jogada diariamente no rio já foi bem mais agressiva no ecossistema vulnerável que passa por Mogi das Cruzes respirando muito mal, com índices sofríveis de oxigênio e poucos peixes, o que lhe confere a qualidade ruim de vida, segundo análises tantos governamentais como não governamentais, feitas por entidades ambientalistas. A notícia neste dia do Rio Tietê: essa poluição está longe de ser estancada.

O Plano Municipal de Esgotos estima que a despoluição plena para o uso das águas em atividades como o abastecimento para o consumo humano, pesca e recreação, etc, acontecerá até 2048.

Hoje é um dia dedicado ao principal manancial paulista, que dá nome ao território geográfico formado pelo encadeamento das cidades banhadas a partir dos primeiros filetes límpidos de água surgidos em Salesópolis. Pouco mudou no teor das notícias sobre o futuro do Rio Tietê divulgado um ano atrás.

A principal obra em andamento para o avanço do tratamento de esgoto está atrasada quatro anos. Trata-se do esgotamento sanitário do Botujuru, que deveria ter sido entregue em 2016 e agora tem previsão final para em 2020. A coleta e o tratamento de dejetos do Botujuru e outros projetos em fase de licitação ou de aprovação para o financiamento, com prazos de execução para 24 meses ou mais, são apostas para se reduzir a quantidade de esgoto in natura jogado no Rio Tietê e seus córregos e ribeirões todos os dias.

Com o conjunto de obras, que inclui o sistema do Ribeirão Ipiranga, e parte da Bacia do Rio Jundiaí, em Jundiapeba, o Serviço Municipal de Águas e Esgotos pretende alcançar 67,9% do tratamento e 96% da coleta dos dejetos domiciliares até 2020. Hoje, esses índices oficiais são 61% e 95%, respectivamente (veja quadro e matéria nesta página).

Há um gargalo na ofensiva governamental para melhorar a vida do Rio Tietê: desde 1982, quando o Governo do Estado construiu o Interceptor Tietê (ITi-10) para levar os dejetos de grande parte da região central para a Estação de Tratamento de Suzano, as interligações entre a rede de esgoto municipal e o canal, obras de responsabilidade da autarquia municipal, permaneceram praticamente paradas.

Mesmo assim é na ETE de Suzano que são tratados 236 litros/segundo do esgoto de Jundiapeba e outras partes menores da região oeste da cidade, ao custo médio de R$ 900 mil por mês, pagos pelo Semae à Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). A capacidade do tratamento da unidade de Suzano é de 1,5 mil l/s. Nem todo o esgoto de Jundiapeba, que está mais próxima de Suzano, é tratado hoje.

Prazo

A Prefeitura terá prazo a cumprir para o tratamento do esgoto de córregos e ribeirões que descem para o Rio Tietê. Os parâmetros de um novo acordo a ser firmado entre a Prefeitura, o Governo do Estado e o Ministério Público, resultante de uma denúncia aberta em 2013 pelo Grupo de Ação Especial do Meio Ambiente (Gaema) está em processo de revisão (veja matéria à página 3).

Em 2013, sobre essa denúncia de prática danosa ao meio ambiente, em uma reportagem publicada por O Diário, o Semae, então conduzido por Marcus Melo, agora prefeito, previa tratar plenamente o esgoto até 2035, e até 2021, alcançar a ousada meta de chegar aos 83,69%. Nesta semana, a Prefeitura voltou a afirmar que espera atingir essa marca daqui a dois anos.

Terá de correr para isso. É o que demonstra o recorte dado por obras em andamento como a do esgotamento do Botujuru, que está com atraso de quatro anos.

O primeiro Plano Municipal de Esgotos foi revisado e alterou a meta de tratamento pleno para 2048.

Hoje, para atingir os 6,9% a mais da despoluição, o Semae espera a conclusão de processos de financiamento junto ao governo federal. Alguns em andamento há seis anos.

Essa demora trai as expectativas lançadas e mantém o Rio Tietê em estado de quase morte, como demonstrou nesta semana, a mais nova pesquisa Observando o Tietê 2019, da Fundação SOS Mata Atlântica. A pesquisa se mantém inalterada, com a classificação ruim das águas do manancial em Mogi das Cruzes, e regular nas cidades de Biritiba Mirim e Salesópolis.

Apesar disso, poderia ser ainda pior. Em especial, quando se nota quanto a cidade cresceu nos últimos 10 anos. O Semae conta com a modernização da legislação, que impede a expansão imobiliária sem o tratamento da rede de esgoto. Todo novo empreendimento nasce com o sistema de tratamento próprio. Esse fato, e a ampliação da coleta e o tratamento, com o aumento do conjunto de estações elevatórias para o bombeamento do esgoto para o tratamento de 9 para 35 e outras obras são destacados pelo diretor do Semae, Glauco Luiz Silva. “Houve uma melhora grande desde 2000, quando apenas 0,5% do tratamento acontecia”, diz, elegendo as duas principais dificuldades existentes para se atingir o tratamento pleno: a falta de recursos financeiros e o tempo para a elaboração, aprovação e execução dos projetos.


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