FÁBIO FERREIRA FIGUEIREDO

Diretor de Planejamento da Cruzeiro do Sul fala sobre o futuro do Centro Universitário Braz Cubas

META Fábio Ferraz Figueiredo, Diretor de Planejamento da Cruzeiro do Sul Educacional, destaca proximidade com a comunidade
META Fábio Ferreira Figueiredo, Diretor de Planejamento da Cruzeiro do Sul Educacional, destaca proximidade com a comunidade

CHICO ORNELLAS / DARWIN VALENTE / SILVIA CHIMELLO

Exceção a temas com sigilo previsto em contrato (valor da transação e alcance a patrimônio imobiliário), o diretor de Planejamento da Cruzeiro do Sul Educacional, Fábio Ferreira Figueiredo, não se negou a responder a nenhuma das perguntas que lhe foram apresentadas, em entrevista exclusiva a O Diário. Nova controladora do Centro Universitário Braz Cubas, a Cruzeiro do Sul aguarda apenas a aprovação do negócio pelo Cade, órgão federal responsável por acompanhar fusões, visando controlar eventuais danos à concorrência econômica no País, para assumir a gestão da escola mogiana.

Segundo ele, histórico de ações do Cade, em processos semelhantes, permite prever em 3 ou 4 meses a conclusão do processo. Fábio Figueiredo não confirma o valor de R$ 150 milhões dado por jornais para o negócio, tampouco se a transação envolveu o patrimônio imobiliário da Braz Cubas.

De resto, garantiu que a denominação (Centro Universitário Braz Cubas) será mantida e que será nomeado um reitor para a instituição, que tenha proximidade com a comunidade. “A valorização da identidade comunitária nos é uma prática constante”, disse ele.

TRADICIONAI Centro Universitário Braz Cubas, com campus no Mogilar, foi adquirido semana passada pela Cruzeiro do Sul Educacional. (Foto: arquivo)

A Cruzeiro do Sul tem planos de requalificar a Braz Cubas como universidade, status que perdeu no final de 2017, quando passou para centro universitário?

Esse não é um objetivo. Mas pode ser que ocorra em consequência do desenvolvimento de pesquisas na unidade para estabelecimento de programas de mestrados e doutorados, requisitos para uma universidade. Porém, não é o objetivo em si. Se eventualmente essa massa crítica de pesquisa começar a se desenvolver lá, se tiver cultura e potencial de desenvolvimento de pesquisa é possível que se torne universidade em algum momento, mas não é um objetivo pré-determinado. É uma maturação natural. O requisito legal é ter excelência de ensino de graduação. Vamos focar nisso, remanejar portfólio, oferecer novos cursos, reequipar a Braz Cubas e se isso florescer pode ser uma consequência, mas não é um objetivo fixo.

A transação feita pela Cruzeiro incluiu todo o patrimônio imobiliário da Braz Cubas?

Estou impedido de falar sobre essas questões por força de sigilo a tudo que remete ao mérito contratual. A Braz Cubas tinha uma situação específica. A gente procurou atender todos os interesses. O fato é que a operação continuará naquele campus, que será melhorado, reequipado e revitalizado.

O negócio foi maturado ao longo de 24 meses. Nesse meio tempo houve o descredenciamento da Braz Cubas como universidade. Isso causou algum transtorno?

Nenhum transtorno porque isso não tem muita importância. De fato a gente veio em uma negociação longa. Normalmente essas negociações são assim mesmo, mas essa especificamente foi um pouco mais do que o usual. Isso é normal. Uma hora esfria, outra esquenta. O processo anda e depois para. São muitos sócios, muitos interesses. Demorou um pouco para alinhar o objetivo de todo mundo. Quando a gente começou a negociar, essa mudança tinha acabado de acontecer, mas não alterou em nada o nosso objetivo para melhorar o ensino de graduação.

O que mais despertou a atenção do grupo Cruzeiro do Sul pela Braz Cubas?

A nossa estratégia para aquisições e incorporação de novas unidades tem alguns filtros, dentre eles, diria que as instituições têm que ter uma marca de valor, um share de mercado relevante. Tem que ter uma tradição local e ser forte regionalmente. A Braz Cubas preenchia com folga todos esses requisitos e filtros, e nos chamou atenção por isso. A gente já vinha de um relacionamento até pessoal entre meu pai e o professor Mauricio Chermann de muitos anos de cumplicidade no setor e de mãos dadas durante os últimos 40, 50 anos. Foi uma aproximação relativamente fácil e de identidade de valores.

A Cruzeiro do Sul manterá a gestão local ou será centralizada em São Paulo?

A gestão das instituições da Cruzeiro do Sul é sempre local. A administração terá um reitor e os coordenadores de curso da Braz Cubas. Esse tipo de gestão acadêmica é local. Apesar de passar a fazer parte de um grupo grande, ela mantém a sua identidade local e os valores serão potencializados. A gente vai respeitar a cultura, porque isso para nós é um dos principais ativos da instituição.

Então a denominação Braz Cubas será preservada?

Sim, com certeza. O nome Braz Cubas é uma das principais forças que atraíram a Cruzeiro com relação a esse ativo. A Braz Cubas é muito forte e isso foi bastante valorizado nas negociações

O que os atuais funcionários e professores da Braz Cubas podem esperar nos primeiros meses depois que a Cruzeiro assumir o centro universitário?

A curto prazo há sempre um período de adaptação após a transmissão, que ainda não ocorreu, porque ainda depende da aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Por enquanto é só um contrato, mas a gente precisa aprender ainda quais são os caminhos da Braz Cubas e conhecer as pessoas. Em 100% dos casos, são identificados profissionais e talentos locais, que podem ser aproveitados na Braz Cubas ou eventualmente em outras instituições do grupo. Em médio a longo prazo, todos podem esperar crescimento: mais cursos e mais alunos, tanto no presencial como no EAD. Todas as unidades adquiridas pela Cruzeiro do Sul tiveram crescimento expressivo tanto em número de alunos como de indicadores acadêmicos

Qual o cronograma para que a Cruzeiro assuma totalmente o comando da Braz Cubas?
Dado ao processo, principalmente do Cade, nós devemos ter um período estimado entre três a quatro meses. Esse prazo é meramente uma estimativa. Não dá para cravar um prazo porque não depende da gente. No rito ordinário, normalmente as conclusões do Cade se dão nesse período.

O que causou uma estranheza na cidade, principalmente entre os que vivem nesse meio, foi o fato de não ter havido uma comunicação formal à comunidade sobre essa negociação, nem por parte dos novos e nem dos antigos controladores. A Cruzeiro do Sul tem algum plano de se apresentar às autoridades, prefeito, clubes de serviços e outras instituições?

Sim. A gente tem sempre uma dinâmica de comunicação bastante aberta e transparente. Inclusive, a comunicação da transação foi previamente combinada com os vendedores. No dia, comunicamos a determinados veículos, tomando cuidado para que a notícia só fosse publicada depois de informar as comunidades internas. Assinamos contrato na terça-feira e o jornal Valor Econômico publicou só na quarta de manhã. Mas ocorre que na terça à noite, como já havíamos combinado e alinhado com os vendedores, fizemos uma comunicação interna juntamente, no mesmo horário que a Braz Cubas comunicou aos seus funcionários e alunos, justamente para que as nossas comunidades não ficassem sabendo pelos jornais. Agora, para aprofundar essa comunicação e iniciar a interação com a comunidade local, autoridades e representantes da cidade, temos que ter um pouco mais de cuidado porque o Cade é muito criterioso para esse tipo de coisa e não é bom que considere que a transação está sendo adiantada. É um cuidado que a gente deve ter enquanto o Cade não der uma posição definitiva sobre o caso.

Existe alguma possibilidade dessa negociação ser vetada? O Cade pode barrar ou impor algum empecilho a essa negociação?

A gente acha muito difícil que isso ocorra. Não temos tem nenhuma sobreposição da educação presencial, praticamente zero. O que determinou o rito ordinário e não sumário foram, me parece – os advogados ainda não protocolaram o pedido junto ao Cade, estão terminando a peça -, três ou quatro focos de educação a distância e mesmo assim, para determinados cursos, que houve em princípio um potencial de concentração. Mas é apenas um detalhe face à transação como um todo, que envolve entre 16 mil a 18 mil alunos e estamos falando sobre uma sobreposição de 200 a 300 alunos, que mesmo assim pode não haver remédio algum mesmo para esses casos. É o mínimo de concentração que foi ultrapassada, de acordo com o critério do Cade, mas é muito local em alguns polos e em alguns cursos. Então, de fato a gente não espera nada de substancial a ser imposto pelo Cade.

O principal foco de interesse da Cruzeiro são os cursos EAD mantidos pela Braz Cubas? Qual o percentual que deve ser mantido para esse tipo de ensino?

Não diria que o que despertou nosso interesse foi principalmente o EAD. Foi o conjunto. A Braz Cubas está muito consolidada na cidade e no entorno. Tem um campus grande, muito bom e funcional, que pode ser modernizado. A gente espera crescer consideravelmente no presencial nos próximos anos. Tem aí um potencial de crescimento importante. Quanto ao EAD, a Cruzeiro tem hoje cerca de 840 a 850 polos hoje pelo Brasil. A Braz Cubas nos trará mais cerca de 70. É importante, mas não foi o fundamental nesse caso. O que nos chamou o interesse foi todo um conjunto de modalidades de educação que a Braz Cubas tem.

Quando planeja a oferta de cursos, a Cruzeiro pesquisa no mercado para formar mão de obra direcionada?

Normalmente a gente faz sim. Tem alguns dados estatísticos da área comercial que prepara e revê portfólio. Mas posso afirmar que no caso da Braz Cubas vai ter um aumento de portfólio e a complementação de cursos que ela ainda não oferece tanto presencialmente como EAD. No EAD por exemplo, o portfólio de cursos da Cruzeiro é praticamente três vezes maior que o da Braz Cubas. Então, a partir do momento do fechamento da transação, a gente vai muito rapidamente, em questão de dias, triplicar o portfólio de oferta de cursos online da Braz Cubas

Os cursos devem priorizar alguma área específica?

Há um potencial crescimento de portfólio em todas as áreas. Onde houver a oportunidade vamos complementar portfólio tanto EAD como presencial. Um fato importante é que em 100% das aquisições da Cruzeiro do Sul, que são mais de 10, normalmente a gente aumenta expressivamente o número de alunos. Todas elas cresceram e melhoraram seus indicadores acadêmicos. Melhoraram também os conceitos de cursos e eventualmente os strictos sensos, mestrados e doutorados. A comunidade e a cidade de Mogi podem ficar confiantes de que a atuação da Cruzeiro será para melhorar e potencializar os valores que a Braz Cubas já tem.

Sobre a preservação de cultura, a Braz Cubas tem o curso de Direito que foi âncora durante muitos anos. É o seu primeiro curso de graduação, criado em 1966. A Cruzeiro pensa em criar novos cursos âncoras?

A gente trabalha com instituições generalistas. Não temos nenhuma instituição nichada e não acreditamos que em princípio a Braz Cubas terá um portfólio de cursos nichados em uma área. Evidentemente que temos ciência da força da tradição do curso de Direito da Braz Cubas, por isso vamos potencializar essa força que a Braz Cubas já tem e tentar criar algumas outras.

Há alguma estratégia para atuar em uma cidade que tem uma concorrência tão direta como no caso da Universidade de Mogi das Cruzes?

Não. A gente reconhece a força e a tradição da UMC. Ela será o nosso concorrente certamente mais importante. Mas, vamos melhorar muito, revitalizar a Braz Cubas e mostrar mais força. Esperamos ganhar bastante mercado em Mogi e região.

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