POTENCIAL

Diversidade, símbolo da Deodato

Rua Dr. Deodato Wertheimer (Foto: Eisner Soares)
Rua Dr. Deodato Wertheimer (Foto: Eisner Soares)

Rua que concentra grande variedade de establecimentos comerciais dá acesso às rodovias Mogi-Dutra e Mogi-Bertioga

A Rua Dr. Deodato Wertheimer, uma das principais de Mogi das Cruzes, que corta a Cidade e praticamente liga as rodovias Mogi-Bertioga e Mogi- Dutra, é um dos mais importantes corredores comerciais da área central, onde estão instaladas as maiores lojas e magazines. São três quilômetros de muito colorido, barulho e movimento, com milhares de pessoas por todos os lados. Passou por várias transformações ao longo dos anos, mas ainda é considerada uma referência para o mogiano.

Ela retrata a história da Cidade, mantém algumas marcas do passado, mas possui caraterísticas que simbolizam o desenvolvimento de Mogi. Foi a primeira via a ter um trecho transformado em calçadão, em meados dos anos 80, mudando o aspecto do Centro. Até alguns anos ainda existiam residências em seus extremos, mas atualmente, está praticamente tomada pelo comércio, com alguns serviços. São lojas de móveis, ferragens, roupas, produtos pets, materiais de construção, padarias, postos de combustível, concessionárias, farmácias, oficinas, madeireiras, salão de beleza e outros.

Além da Firmina Santana, que já abrigou a antiga rodoviária, a rua passa por mais duas praças da Cidade. Uma delas é o Largo do Rosário, local muito frequentado, ponto de referência para festas populares, protestos, campanhas de saúde e muitas outras atividades. A outra praça é a Oswaldo Cruz, onde acontece uma feira permanente de artesanato, e que dá acesso a uma das maiores obras do Município nos últimos anos, que é o Complexo Viário Tirreno Da San Biagio.

Um dos extremos está na Avenida Pedro Machado, no Mogi Moderno, passando pelo Centro, trecho de calçadão, atravessando a linha férrea e seguindo até o Mogilar, no cruzamento com a Rua Delphino Alves Gregório, na Ilha Marabá, caminho de saída para a Mogi-Dutra. Existe uma grande diversidade de pequenos comércios em toda a extensão.

Por se tratar de uma região muito valorizada, a rotatividade de comércio é grande. Poucos são os estabelecimentos que se mantiveram no mesmo endereço sem a mudança de proprietário. Um deles é a Padaria Santa Rita, localizada no começo da rua. Thiago Gomes, 31 anos, filho caçula do proprietário que atualmente ajuda a administrar o comércio, conta que cresceu naquele trecho. Até o final dos anos 90, havia um movimento intenso de carros, porque era o principal acesso para a Rodovia Mogi-Bertioga. Ainda não tinha a Via Perimetral. “Pouca coisa mudou na paisagem, a não ser o avanço do comércio que começou a substituir as residências”, comenta.

O trecho do Mogi Moderno está muito bem conservado. “A rua é tranquila. Tínhamos o problema com o trânsito, sempre muito intenso, mas melhorou com o reforço na sinalização”, explica a comerciante Elizabete Aparecida dos Santos, referindo-se ao novo radar de fiscalização de velocidade instalado próximo à Rua Expedicionário Ezelino Pinto de Moraes. Ela tem um bar nas proximidades há 27 anos, local que virou ponto de encontro de moradores, que se reúnem para colocar a conversa em dia.

No calçadão estão grandes lojas, com Riachuelo, Pernambucanas, Casas Bahia, Marisa e muitas outras. Quem também passa todos os dias por lá é o metalúrgico André Luiz Nogueira dos Santos. Ele mora no início da rua e trabalha há mais de 30 anos em uma empresa na Capital. “Todos os dias desço a Deodato, por volta das 5h30, para pegar o trem da estação do Centro. É o melhor momento, porque vejo a Cidade despertar. A rua está praticamente vazia nessa hora. Volto à tarde, quando o movimento está pegando e a rua fervendo de gente. Já perdi as contas do número de lojas que vi abrindo e fechando nessa rua”, observa.

Isso realmente acontece. Na última semana, a rua ganhou uma nova loja de roupas. O empreendedor César Cleyton é de Guarulhos e atende no atacado. O ponto, no trecho entre a Ipiranga e a Avenida Voluntário Pinheiro Franco, era de um de seus clientes que decidiu encerrar as atividades e ofereceu a ele. “Aceitei na hora, porque acho que é uma dos melhores áreas da Cidade para abrir um negócio. Estamos reformando para abrir o mais rápido possível”, diz o comerciante, que prefere não revelar o valor do investimento.

O aposentado José Ribamar Braga Reis, que está com 87 anos, mora nas proximidades e diz que todos os dias vai ao Rosário encontrar os amigos e ver o movimento. “A Deodato sempre foi uma rua importante de Mogi, com muito comércio e bastante movimentada. Antigamente havia muito mato nos dois extremos e tinha algumas chácaras de famílias antigas. Foram os melhores tempos”, relembra.

No trecho do Mogilar ainda há várias residências. A dona de casa Celina Cardoso Veiga, 68anos, mora em uma delas há 25 anos. Ela disse que gosta do local porque fica próximo ao Centro, mas é tranquilo. Porém, reclama da pavimentação da rua, que ainda tem grande trecho de paralelepípedos, com muitos remendos. “Precisa melhorar também a sinalização, porque muitos carros descem em alta velocidade”, sugere.

A rua tem uma padaria em cada extremo, a Santa Rita, no Mogi Moderno, e a Natural, no Mogilar. A proprietária desta última, Sandra Giordano, disse que há 15 anos escolheu a localização pelo ponto estratégico, próximo à escola, ao hospital, além dos condomínios construídos nas imediações. “Adoro este lugar. Não tem do que reclamar. Nunca tive nenhum problema com segurança. A única coisa que incomoda é a pavimentação remendada”, declara.

Rua já foi chamada de Alegre e 13 de Maio

A Dr. Deodato Wertheimer foi uma das primeiras ruas a se formar em Mogi, no início do povoado. A via que corta o Centro de Mogi das Cruzes foi batizada inicialmente como Rua Alegre. Ficou com esse nome até 1888, quando passou a se chamar Rua 13 de Maio, em homenagem ao dia da assinatura da Lei Áurea.

Imagens antigas da Cidade demonstram que desde o início dos anos 1920, ela era uma das mais “congestionadas” de carros. Na época, já abrigava hotéis e agências bancárias, além da antiga Igreja do Rosário.

VISUAL Movimento intenso é uma das marcas da Rua Dr. Deodato Wertheimer, que conta com grande variedade de comércios como a Padaria Natural, comandada por Sandra Giordano, que há 15 anos escolheu a área pela localização estratégica. (Foto: Eisner Soares)

Apenas mudou de nome em 1938, passando a se chamar Dr, Deodato Wertheimer, uma figura que teve papel importante na história da Cidade. Chegou aqui em 1912 para atuar como médico, também foi vereador, prefeito e deputado estadual. A Revolução de 1930 interrompeu sua carreira. Getúlio Vargas pôs abaixo o poder de Washington Luís, que em Mogi era representado por Deodato.

Assim que divulgada a notícia, dezenas de getulistas invadiram a casa de Wertheimer e a queimaram. O médico foi preso. Depois de um tempo voltou a Mogi, e no ano de 1932, durante a Revolução Constitucionalista, liderou várias campanhas de auxílio aos combatentes. Faleceu em São Paulo aos 44 anos de idade. (S.C.)

Cancela fechada afeta comércio

Neste ano, a Dr. Deodato Wertheimer sofreu uma nova transformação, com o fechamento da passagem de nível para carros. A medida foi adotada depois da construção do novo Complexo Viário Jornalista Tirreno Da San Biagio. Os comerciantes do trecho torceram o nariz para a mudança e até hoje ainda não entendem muito bem porque a Prefeitura decidiu fechar o acesso para veículos.

Os irmãos Marlon e Maurício Leopoldino tinham inaugurado o comércio há poucos meses antes da interdição, por isso ficaram “indignados” com a decisão da Prefeitura. Segundo eles, apesar de o local ainda ser passagem de pedestre e dos carros que descem pela via para acessar a Navajas, o movimento caiu muito.

“Quando parava os carros na cancela, muita gente aproveitava para comprar algum salgado, refrigerante, água e outros produtos do gênero. Muitos passavam e viam e depois voltavam para consumir, diferente do que acontece agora”, comenta Marlon.

FOCO Ricardo Teixeira, que está no local há 24 anos, aposta no segmento de fotografia. (Foto: Eisner Soares)

Por enquanto, o dono da loja de fotos, Ricardo Teixeira, que está no local há 24 anos, disse ainda não sentiu os reflexos, mas acredita que isso vai acontecer no futuro. Ele explica que o trecho sempre foi conhecido como um ponto onde se concentrava comércio relacionado à fotografia. “As pessoas mais antigas ainda sabem que estamos funcionando aqui, mas no futuro acho que existe o risco de perdermos essa referência com as novas gerações”, alega.

Depois da linha férrea sentido Mogilar, a situação dos comerciantes é mais complicada. Sem movimento dos carros, a dona do salão de beleza, Lourdes Aparecida Ricardo, 17 anos no ponto, comenta que o local ficou sossegado, apesar de mais perigoso. Apesar de ser menor o fluxo de veículos, ela afirma que não sentiu muita queda no movimento de clientes.

O dono de uma bomboniere, Lauro Hosokawa, que tem o comércio há 10 anos, reclama da falta de segurança. Ele disse que o trecho é muito frequentado por pessoas em situação de rua, usuários de drogas e marginas. “No período noturno, aqui fica muito deserto. Já entraram três vezes no meu comércio. Tive que instalar um sistema de alarme para garantir mais segurança”, contou. Além disso, afirma que teve queda de cerca de 20% nas vendas depois que a passagem de nível foi fechada.

Quem mais gostou da medida foram os camelôs que atuam na área. Eles contaram que quando o carro da fiscalização se aproxima, é só guardar tudo depressa e atravessar a linha, onde os veículos são impedidos de trafegar. (S.C.)


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