CHICO ORNELLAS

Dívida de gratidão com Santos

PASSADO – Por 10 anos (1881-1891) a Santa Casa funcionou no casarão com alpendre, até ficar pronto o prédio construído com dinheiro vindo de comerciantes santistas.

Não há demérito algum; assim como ao ser humano, às cidades não se dá qualificação segundo seu grau de riqueza. Os seres humanos nivelam-se, por igual, no sepulcro; as cidades definem-se pelo índice de respeito comum. Dito isto, afirme-se: por séculos, Mogi das Cruzes foi uma cidade pobre. Nada a ver com Sorocaba, ponto de parada dos tropeiros, ou com Campinas, meca dos cafeicultores.

Testemunho dessa realidade nos dá Emílio A. Ferreira que, com fotos de K. Vosylins, editou, em 1935, o seu “Dados Históricos e Notas Diversas” acerca de Mogi das Cruzes.

Em determinado ponto o autor detém-se na história da Santa Casa, fundada em 6 de julho de 1873 – prestes a celebrar seu 146º aniversário. Vigário de Mogi entre 1870 e 1876, dom Antônio Candido de Alvarenga liderou a criação da Santa Casa, antes de ser designado bispo de São Paulo (1899-1903). Por menor que fosse a população local a esse tempo (15 mil habitantes, incluindo todos os municípios do Alto Tietê), mais reduzidos ainda eram os recursos.

A tal que a Santa Casa, de início, não teve sede e seu médico, Paulo Malheiros de Mello, atendia aos doentes em visitas domiciliares. Só oito anos depois instalou-se em sua primeira sede, também o primeiro hospital da Cidade, acolhido, em novembro de 1881, em imóvel alugado na Rua do Bom Jesus. A primeira sede própria foi ocupada, nesse mesmo ano, no quarteirão onde hoje está a Santa Casa de Mogi. Era um casarão colonial, de alpendre que lembrava as casas de fazenda.

Dez anos depois (1891), presidente da instituição, Benedicto José de Almeida, concebeu o primeiro prédio construído para acolher um hospital. Não fosse o empenho do mogiano Olegário Paiva e, muito provavelmente, o sonho teria adormecido sem nunca acordar.

Pois Olegário Paiva, influente à época nos meios empresariais de São Paulo e Santos, saiu a campo em busca de doações que pudessem viabilizar o projeto. Segundo o livro de Emílio A. Ferreira, as doações vieram sobretudo de Santos “esta opulenta praça comercial, no valor de mais de meio cento de contos de réis. Sem esquecer a vultosa doações do terreno, onde se ergue o hospital e as casas vizinhas, perfazendo tudo a soma de 33 contos de réis”.

Um conto de réis é o mesmo que 1 mil da unidade monetária (Real) que vigorou no Brasil entre 1500 e 1942. Impossível fazer a atualização exata. Pesquisadores da Numismática arriscam-se a cotar um conto de réis, hoje, à razão de R$ 123 mil; o que nos daria equivalência de 33 mil contos de réis referida pelo autor, de cerca de R$ 4 milhões.

O terreno foi doado por Francisco Esteves, que atuava com sucesso no porto de Santos e em qual empresa trabalhava o mogiano Olegário Paiva.

Carta a um amigo

Preservar amigos é prova de caráter

Caros amigos José Carlos e Joana

Foram bons momentos de conversa em casa, quando mostrei, a circunstantes, uma foto recente de vocês. Era um sábado, os netos (já são 4) corriam pelo quintal e o café circulava pela saleta. O caçula Frederico mostrou, então, uma foto em que colegas de escola estavam com os filhos recém-nascidos. Havia contemporâneos do ensino básico no Colégio Santa Marcelina, nas Perdizes, também do colegial no São Marcos, em Mogi; da faculdade na Fundação Armando Álvares Penteado e do pós-graduação, na Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Comentei: “Preservar amigos é uma prova de caráter” e, de pronto, pediram-me que falasse de alguns. São muitos, nós sabemos, mas, naquele momento, o que me estava à mão era a foto sua e de Joana que recebera há poucos dias. Mostrei a eles e chamei o testemunho de Nanci para voltarmos à Mogi da década de 1960.

Você e família, de pais e três filhos (Marilena, José e Cristina), vieram de Santos no curso da carreira paterna no funcionalismo estadual. Não havia como adolescentes não se conhecerem, numa Mogi das Cruzes provinciana ainda mais do que a atual.

Passei a puxar a memória e a passear por nossa convivência. Que me lembre, conhecemo-nos na metade dos ‘60, época em que vocês moravam em um sobrado no Vila Santista. Da amizade de Nanci com Cristina e da sua com amigos comuns, surgiu a nossa. E nos entendemos de pronto. Não havia tempo ruim.

Sem me ater a qualquer ordem cronológica, fui contando episódios. O primeiro, que me lembre, foi o infortúnio que o pegou quando se mudaram para uma casa na Rua Francisco Franco. Sujeito forte de 1,90m., você cismou de ajudar na mudança. Então… caiu de costas do caminhão e fraturou os dois braços. Por bom tempo voltou à condição de bebê, com os braços engessados e seu pai Pedro tratando-o como só um pai consegue.

Cortei e cheguei ao apartamento do Edifício Drogasil, onde viveram bom tempo. Foi lá que, em um sábado de carnaval, passei com Nanci para dois dedos de prosa. Conversa daqui, conversa dali, Cristina lembrou-se da fantasia de Pierrô com a qual havia brincado o carnaval no ano anterior e Nanci – sempre ela! – tascou: hoje tem concurso de fantasia no Clube de Campo e o Chico poderia ir com essa fantasia. Como nunca me atrevi a contestá-la, lá fui seu de Pierrô, maquiado pelas moças presentes. Resultado: ganhei o prêmio de fantasia de luxo, com troféu (está em casa) entregue pelo Dori Boucault.

AMIGOS – Joana e José Carlos: amigos de mais de 50 anos, sem qualquer trinca na lealdade.

As melhores passagens foram depois que Joana nos chegou. Moça bonita, alta, veio, de Araçatuba, cumprir aqui a Faculdade de Arquitetura. No entremeio, lecionava no Sesi, então instalado na Rua Isabel de Bragança, em frente à casa onde eu vivia com meus pais e irmãos.

Tornamo-nos, então, dois casais de rotina comum. Seus pais iam de férias a Santos ou Guarujá, lá íamos nós passar um dia com eles. Foi numa das idas que, Nanci não esquece, jantamos em um restaurante que, pelo que me lembre, ficava nas cercanias da Ponte Pênsil. A lembrança de Nanci está no cuscuz que provou e nunca mais encontrou igual,

Os pais de Joana iam para temporada na casa da família, em São Sebastião, e lá íamos nós quatro passar um dia com eles. Também em Rio Claro, onde temos familiares. Ou em Araçatuba, terra de Joana, onde estivemos para o noivado, o casamento e uma vez sozinho: quando do confisco do boi determinado pelo governo federal (1986). Fui a trabalho, produzir matéria para o jornal e o pai de Joana me foi a fonte mais valiosa.

Como eu dizia lá em casa, dia destes, preservar amigos é prova de caráter.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
ANOS DOURADOS – A casa da família Straube, na esquina das ruas Braz Cubas e Flaviano de Melo, resiste com poucas alterações. Foi construída há cerca de 70 anos, com desenho do arquiteto Jurandir de Oliveira, o mesmo que rabiscou a fachada do Cine Urupema, na Praça Firmina Santana.

GENTE DE MOGI
MENINA DA PIPOCA – Das lendas urbanas de Mogi é uma das mais consolidadas. E que não se pretenda contestá-la. Como lenda, parte de uma verdade para o imaginário. No imaginário, o túmulo que a Cidade conhece como da “Menina da Pipoca” guarda os restos de uma menininha, que morreu engasgada com grãos de pipoca, logo depois de sua mãe tê-la tirado da varanda de casa para não ver passar, em procissão, o andor com a imagem do preto São Benedito. Na verdade, o túmulo é de Benedita Georgina, morta no final do século XIX, asfixiada pelo de um porta níquel feito de tricô e metal. Parte da maldição da família Mello Freire, Georgina era irmã de Yayá, a milionária mogiana, louca e interdita, que viveu enclausurada por 42 anos.

O melhor de Mogi

Vocês já perceberam o que tem de fotógrafo talentoso em Mogi? Além do mais, gente da melhor qualidade.

O pior de Mogi

Alerta aos incautos: evitem circular, sobretudo a pé e à noite, no entorno do Centro Cívico de Mogi. A vizinhança da Prefeitura, do Fórum, da UMC, da Câmara não é aconselhável, por falta absoluta de segurança. Quem duvidar, pergunte aos vizinhos dos bares da Rua Narciso Lucarini esquina com Narciso Yague Guimarães; ou à diretoria do Clube de Campo, que esta semana emitiu alerta aos seus associados. Convenhamos: Mogi já teve seus tempos de cidade gentil, com autoridades responsáveis. Triste constatação.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter saudades do tempo em que segurança pública não era apenas uma carreira no funcionalismo público.