EDITORIAL

Do Brasil, SOS ao Brasil

A mobilização da classe artística emplacou um feito e tanto nos últimos dias, quando se mira não apenas o desmonte atual do Ministério da Cultura. Grande parte das cidades brasileiras não possui secretaria, conselho ou fundo municipal, e muito menos orçamento suficiente para se tocar minimamente as ações culturais.

Neste contexto, a aprovação da Lei Nacional de Emergência Aldir Blanc demonstra a força política e a resistência de uma categoria que soube construir pontes e reverter uma injustiça social, em plena pandemia e com o aval da maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Artistas, produtores e uma grande cadeia de profissionais ligados à arte e cultura (técnicos, cenógrafos, etc.) haviam sido excluídos do programa federal de ajuda a trabalhadores afetados pela pandemia.

Em um setor da economia depreciado por muitos governos, que gera renda nacionalmente, os trabalhadores serão os últimos a retomarem as atividades impactadas pelo combate ao novo coronavírus. Casas de espetáculos, teatros e territórios culturais estão no fim da fila para a retomada das atividades.

A costura alinhavada por lideranças não demandou a abertura de outras fontes de recursos federais. O dinheiro sairá do orçamento do próprio setor. Foi um ato político de sucesso.

Aprovada, a lei lança agora um desafio aos municípios, que terão 60 dias para regulamentar o uso do recurso, com a distribuição individual aos trabalhadores sem cadastro em outros benefícios públicos ou o lançamento de editais, projetos e programas de fomento cultural.

Em Mogi das Cruzes, será atualizado o cadastro que possui hoje 2.413 pessoas. Mateus Sartori, secretário municipal da pasta, avaliou que a cultura cumpriu uma de suas funções: criar o diálogo entre pontas divergentes, independe de ideologia ou bandeira política, e conquistou uma política emergencial para a classe artística.

A lei homenageia o compositor Aldir Blanc (1946-2020), uma das vítimas fatais da Covid-19. Em uma de suas canções, há uma análise sobre a americanização da cultura popular, no final da década de 1970. Em Querelas do Brasil, o médico carioca e o parceiro, Mauricio Tapajós, defendem a valorização da cultura nacional, em versos como “O Brazil não conhece o Brasil. O Brazil está matando o Brasil”. Mais atual impossível.


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