ARTIGO

Do jeito que está não dá

Gê Moraes
gemoraes@gmail.com

Será que você que neste momento está lendo a crônica deste garimpeiro das palavras, ou qualquer outra matéria inserida neste O Diário, já parou um pouquinho para pensar na coisa linda que é ter duas mãos perfeitas para segurar o jornal e mantê-lo aberto… Quando há muitos que mãos não têm?

Já ponderou como é gostoso ter dinheiro para poder comprar o jornal, ou aquilo que quiser… Quando muitos não conseguem comprar um pãozinho sequer?

Já meditou como é prazeroso poder caminhar até a banca próxima ou distante para pegar seu exemplar… Quando tantos amargam a ausência das pernas, ou se as possuem, não podem usá-las por motivos outros?

Já refletiu na maravilha que é possuir dois olhos vivos, que enxergam tudo e mais um pouco… Quando tantos há que vivem na escuridão?

Já matutou o quão gratificante é poder falar, comentar com os amigos a respeito das notícias e dos fatos diários… Quando há muitos com as vozes presas na garganta, imersos em total mudez?

Já avaliou o valor da riqueza que é ter a faculdade de ouvir, de perceber os sons, de possuir audição perfeita… Quando existem muitos que só ouvem o som do silêncio?

Já imaginou como é fantástico ser dotado de inteligência, ter uma cabeça pensante capaz de aprender, apreender, compreender, interpretar e de fazer tudo mais, inerente a um ser inteligente… Quando há milhares que se debatem nas garras da demência?

Já atentou para a deliciosa sensação que é ter uma casa, um lugar, um teto onde se abrigar contra as intempéries do tempo… Quando há um grande número de pessoas morrendo ao relento?

Já tentou mentalizar como seria sua mesa sem a exuberância de alimentos que hoje ela ostenta? Pois saiba que há por aí muitos desventurados que, premidos pela fome, escarafuncham os lixos da vida e comem coisas que você não daria nem ao seu cachorro.

Já raciocinou na incrível importância do seu nariz – não para metê-lo aonde não for chamado – mas para aspirar o perfume das flores e de uma gama interminável de outros elementos e alimentos, em cuja essência haja aroma a ser exalado… Quando há milhares sem ele e desprovidos da percepção do olfato?

Já se conscientizou de que você é detentor de todos estes bens e de tantos outros? Já? E mesmo assim continua a reclamar de tudo e de todos e acha que a vida é uma meleca só? Então vá se catar, procure se reciclar e volte a ser gente, porque do jeito que está não dá.

Gê Moraes é cronista