HIP HOP

Documentário mostra a origem das batalhas de rima

CULTURA A partir de depoimentos de MCs e sociólogos, ‘Se Liga Nesse Flow’ mostra que não há sentido no preconceito e marginalização associadas a rappers, grafiteiros, MCs e DJs. (Foto: divulgação)
CULTURA A partir de depoimentos de MCs e sociólogos, ‘Se Liga Nesse Flow’ mostra que não há sentido no preconceito e marginalização associadas a rappers, grafiteiros, MCs e DJs. (Foto: divulgação)

Desmistificar a batalha de rimas, elemento da cultura hip hop que está presente em território mogiano. Esse é o objetivo dos recém-formados jornalistas Matheus Freitas, Larissa Anjos, Karla Gomes e Nicolas Takada, que acabam de lançar como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), um documentário sobre o tema.

‘Se Liga Nesse Flow’ não é exatamente sobre as batalhas que acontecem na cidade. Também não é exatamente sobre as atividades que podem ser vistas em São Paulo, onde o movimento é mais forte. Trata-se de um produto explicativo sobre as origens do hip hop, sobre a cultura em si. Mais do que isso, sobre o preconceito e a marginalização que infelizmente é associada a rappers, grafiteiros, MCs e DJs.

Curioso é que nenhum dos quatro estudantes tinha proximidade com o tema antes de decidir fazer o trabalho. Eles partiram do ponto que é mais instigante e necessário ao profissional jornalista: a curiosidade. “Queríamos aprender sobre o assunto para passar o conteúdo à frente”, diz Larissa Anjos.

O resultado, como explica Karla Gomes, é um documentário “feito tanto para pessoas leigas como para quem já conhece a cultura”. Sob orientação do professor Hércules Moreira os alunos tiveram respeito pelo universo abordado, dando voz à pessoas-chave, como “MCs e especialistas”, a exemplo da socióloga Amanda Gomes, que diz que o hip hop que existe no Brasil “importa muito da concepção do que acontece nos Estados Unidos, que tem seu valor na luta por direitos sociais”.

A intenção é clara: “mostrar as batalhas que se vê nas ruas, mas muitas vezes não se entende do que se trata”, conta Larissa. Em outras palavras, o ponto aqui é acabar com o preconceito. “A gente quis passar a questão cultural, mostrando que as batalhas são um recorte da cultura hip hop e desconstruindo a marginalização”.

Para atingir os objetivos propostos, o melhor caminho foi o da pesquisa. O grupo encontrou bons materiais no YouTube, como uma fala do MC e produtor musical Lawrence Krishna, o KRS One, mas também foi a campo para observar e registrar a realidade desses encontros, que podem ser “temáticos ou de sangue”, como explica um dos entrevistados, Clayton Gomes, mais conhecido como MC Acme Sam, que recentemente participou Peace Connection Festival, que reuniu artistas de várias partes do mundo (leia mais nesta página).

Acme representa, ao longo do documentário, o que os quatro estudantes mais fizeram ao longo do último ano: ouviram histórias. No caso dele, a história de como se envolveu com a música. E de modo geral, a história das próprias protagonistas de todo o filme, as batalhas de rima.

As filmagens ocorreram em locais como as batalha do Santa Cruz, em São Paulo, e da Resenha Central, no Terminal Estudantes, em Mogi. Como crava muito bem o primeiro depoimento da produção, “não tem como falar do hip hop sem falar sobre a comunidade negra”, então também são abordadas questões raciais e sociais ao longo dos 29 minutos do vídeo que recebeu nota máxima durante a banca virtual realizada em junho.

Representar “a reunião de jovens que se reúnem para se expressar, como forma de entretenimento, diversão e libertação”, como define Karla Gomes, foi especialmente difícil considerando a pandemia do novo coronavírus. Entrevistas precisaram ser canceladas, e imagens de arquivo foram incluídas para que o isolamento social fosse respeitado. Mas isso não tirou o brilho do produto final.

Além do filme disponível gratuitamente no YouTube o trabalho gerou desdobramentos em outras redes sociais, como o Instagram, onde o perfil @seliganesseflow tem postado, desde a concepção da ideia, fotos e vídeos sobre o universo do hip hop. E, mesmo que já tenham sido positivamente avaliados em banca, pretendem seguir com a iniciativa, que pode tomar outros rumos em breve. “Estamos pensando em como desenvolver, mas pretendemos dar continuidade ao projeto”, admite Larissa.

Um “exercício de resistência”

Para Acme Sam, MC veterano da cena hip hop em Mogi desde a década de 1990, valeu a pena ter participado do documentário ‘Se Liga Nesse Flow’. “Isso só comprova que a cultura está viva na cidade”, afirma ele, que confirma a ideia do filme, sobre a marginalização das batalhas de rima. “Quem está de fora pensa que é algo agressivo, mas não vê que somos uma família”.

Acme fala com a propriedade de quem já esteve a frente de um dos principais redutos do rap na cidade, a Casa do Hip Hop, mantida pela Secretaria Municipal de Cultura. Há algum tempo afastado das atividades por lá, a O Diário ele diz que o espaço até precisa ser “revisto”, mas merece ser “ocupado”. “É melhor ter uma casa aberta em que se possa trabalhar e que mais pessoas tenham acesso do que uma fechada”.

O que falta então para, como sugerem os jornalistas responsáveis pelo documentário, acabar com o preconceito que envolve o tema? “Falta se espalhar. Cada um no seu bairro, na sua localidade, tem que fazer com que o poder público olhe para eles e faça acontecer”.

Todas as batalhas, segundo Acme, “nasceram para apaziguar brigas que aconteciam”, inclusive no Brasil. É por isso que além das “batalhas de sangue”, em que duas pessoas ficam “tirando onda uma com a outra”, há as “mistas” e também as “temáticas”, onde surgem rimas sobre tudo, “desde o coletor de lixo à política”.


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