MASSACRE EM SUZANO

Dor, tristeza e homenagens marcam os velórios das vítimas

Corpos das vítimas do massacre foram enterrados em dois cemitérios de Suzano. (Foto: Vitoria Mikaelli)
Corpos das vítimas do massacre foram enterrados em dois cemitérios de Suzano. (Foto: Vitoria Mikaelli)

Em meio às lágrimas de tristeza e saudade, uma salva de palmas tomou a Arena Suzano, próximo às 15 horas de ontem. O som anunciava a partida do caixão de Samuel Melquíades de Oliveira Silva, de 16 anos, que iria em direção ao Cemitério Municipal São Sebastião, onde na sequência houve o sepultamento do garoto. Ele foi a primeira das seis vítimas do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, que estavam sendo veladas no local, a ser sepultada.

Antes mesmo de adentrar o ginásio para dar adeus ao menino, Ana Judite Nunes chorava. “É porque eu fico lembrando o quanto ele era bom e ainda não acredito que tenha passado por isso”, falou. O filho dela, João Pedro Matias Nunes, de 12 anos, era amigo de Samuel. Os dois se conheceram no Clube de Desbravadores, um departamento da Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde Samuel liderava João Pedro.

Ressaltando o bom coração do menino, Ana conta que ela e o filho jamais esquecerão seus atos de generosidade. Em uma noite chuvosa, os Desbravadores estavam acampando. Por ser maior que João Pedro, Samuel logo chamou o garoto para perto dele, dizendo que o protegeria. “Ele era um menino maravilhoso, eu não entendo como isso foi acontecer com ele. O meu filho está apavorado e eu não consegui dormir na noite passada”, revelou emocionada.

Enquanto as informações ainda estavam desencontradas na quarta-feira, Keren Guerra Cardoso, 16, tinha esperanças de encontrar Samuel com vida. Ontem, abalada, ela revelou que conversou com os pais do menino, que estavam devastados. Ela conta que o pai do jovem encontrou um desenho de um livro que ele tinha feito para a igreja. “Agora, qualquer um que tiver alguma lembrança dele vai guardar, com certeza. Ele não merecia ter passado por isso”, comentou a amiga, que também estuda na Raul Brasil. Ela diz que não imagina como vai ser voltar às aulas, já que aquele momento dificilmente sairá da cabeça.

A garota conhecia também as duas funcionárias do colégio que estavam entre as vítimas – a agente de organização escolar, Eliana Regina de Oliveira Xavier, 38 anos, e a coordenadora pedagógica, Marilena Ferreira Vieira Umezo, 59. Para ela, a inspetora não era apenas uma funcionária, mas sim uma amiga com quem os alunos podiam contar a qualquer momento. Ela diz o mesmo de Marilena, que “sempre estava ali para nos ajudar”, afirmou.

Antes dos caixões serem levados para o cemitério teve início um ato ecumênico na Arena Suzano. Na ocasião, o bispo diocesano de Mogi das Cruzes, dom Pedro Luiz Stringhini, fez um apelo, principalmente, pela paz. O religioso leu ainda um comunicado enviado pelo cardeal Pietro Parolin em nome do Papa Francisco (leia na íntegra nesta página). De lá, o único corpo que não foi enterrado ontem, é o de Marilena. O filho dela estava na China e chegaria hoje para se despedir da mãe. Por isso, o sepultamento foi postergado.

Enquanto os corpos eram velados, jovens seguravam uma faixa que dizia: “Queremos paz, não queremos a liberação de armas. Queremos mais educação, saúde e segurança. Luto!”.