TEATRO

Ator de Mogi das Cruzes, Eduardo Mossri encena ‘Cartas Libanesas’ online

DE FRENTE PARA A CÂMERA Eduardo Mossri fez atualizações na história de Miguel Mahfouz, libanês que veio ao Brasil fazer “um pé de meia” e depois voltar ao país de origem, onde está a esposa grávida. (Foto: divulgação)
DE FRENTE PARA A CÂMERA Eduardo Mossri fez atualizações na história de Miguel Mahfouz, libanês que veio ao Brasil fazer “um pé de meia” e depois voltar ao país de origem, onde está a esposa grávida. (Foto: divulgação)

Para suprir a falta que espetáculos teatrais fazem num mundo impossibilitado de realizar apresentações presenciais, o Sesc São Paulo criou uma programação online que traz monólogos interpretativos transmitidos diretamente da casa dos artistas. Entre os participantes, grandes nomes da arte nacional, como Ester Laccava, Bete Coelho, Sérgio Mamberti, Ailton Graça, Matheus Nachtergaele e um não menos importante ator de Mogi das Cruzes, Eduardo Mossri, cuja peça, ‘Cartas Libanesas’, está disponível em novo formato.

A encenação estreou no domingo dia 7 de junho, ao vivo, transmitida diretamente de São Paulo, mais precisamente da casa do ator que recentemente pôde ser visto na tela da TV Diário como o médico Faruq Murad na novela ‘Órfãos da Terra’. O cenário, portanto, é uma cozinha, assim como outros cômodos e paredes, ambiente certamente muito diferente do habitual palco e cortina vermelha. A relação com a plateia também precisou mudar, mas está ali, até mesmo para quem vai assistir agora, no YouTube.

Isso porque, “provocado” pelo Sesc a fazer adaptações, Eduardo foi sagaz. Durante o processo, precisou diminuir em meia hora a duração do espetáculo, e embora não fosse uma exigência, aproveitou para atualizar o texto, incluindo referências à pandemia e ao formato live, substituindo momentos de interação com a plateia por falas para a câmera.

A história permanece a mesma: Miguel Mahfouz é o protagonista. Munido com apenas uma mala e um microfone, revela ter vindo ao Brasil para fazer “um pé de meia” e depois voltar ao país de origem, onde está a esposa grávida. No entanto, o ato de “quebrar a quarta-parede”, ou seja, falar com a plateia, não só foi mantido como ainda mais explorado.

“Quebro ela constantemente durante o espetáculo, mas agora faço costuras, intersecções com a parte dramática, como quando Miguel começa a lembrar do Líbano. Tudo funciona como uma conversa com o público, e este é o benefício ou qualidade deste trabalho, que funciona também com a câmera”, explica Eduardo, descendente de libaneses que ao encontrar cartas de sua avó escritas em árabe passou a pesquisar a história da própria família e também da imigração libanesa no Brasil.

Escrito em 2009 e em cartaz desde 2015, o texto fala, portanto, da busca do ator pelas próprias raízes e já pôde ser visto em vários estados e cidades brasileiras e até mesmo em outros países, como Marrocos e Líbano. Não fosse a pandemia do novo coronavírus, outros tantos palcos receberiam a montagem, como municípios do nordeste e também do Rio de Janeiro.

Eduardo explica que no início do ano ‘Cartas Libanesas’ foi contemplada com um prêmio e uma turnê que não chegou a acontecer. “Todas as profissões foram impossibilitadas, mas as artes cênicas foram mais prejudicadas, no sentido de que nosso trabalho acontece com aglomeração e contato físico em ambientes fechados”.

A fala dele vem acompanhada de uma série de incertezas. Uma delas é sobre a retomada da agenda de apresentações no pós-pandemia. “Países que tiveram muito mais cuidado que o Brasil estão tentando entender como tudo vai acontecer, então quem souber essa resposta vai estar mentindo”, opina.

Contudo, isolado na capital paulista o ator tem aproveitado para “passar o tempo de forma produtiva”. No início do ano ele passou uma temporada em Boa Vista, capital de Roraima, envolvido num trabalho voluntário com refugiados de outros países, principalmente da Venezuela (leia mais abaixo). Além da ajuda aos necessitados, há outro resultado prático: ele escreve um novo espetáculo, agora ‘Cartas Refugiadas’, e não mais libanesas.

Eduardo brinca que pretende continuar encenando a história de Miguel Mahfouz “até os 80 anos”. A ideia de longevidade o faz enxergar no novo texto uma oportunidade para continuar falando sobre o tema, que considera “universal e atemporal”, mas agora sob outra ótica. “É muito importante se permitir olhar para outras vivências e experiências. A causa humanitária continua comigo”, encerra o ator, que com toda a certeza merece ser visto na versão online de ‘Cartas Libanesas’, disponível gratuitamente em youtube.com/sescsp.

Eduardo Mossri joga luz à luta dos refugiados

Jogar luz à luta dos refugiados, para o ator Eduardo Mossri, é mais do que algo importante. Trata-se, para ele, de uma missão, uma espécie de chamamento. Apesar de ligado a esta temática há muitos anos, ele diz que a novela ‘Órfãos da Terra’, exibida pela TV Diário entre abril e setembro do ano passado, o fez atualizar o olhar e “se dedicar ainda mais à causa”.

Enquanto se preparava para dar vida à Faruq Murad na telinha, o ator foi, por conta própria, à à Missão Paz do Padre Paolo e Doutora Elaine, “que recebem e acolhem pessoas em refúgio”. À época, visitou casas de várias famílias sírias, e a experiência ficou na memória.

Quando cessaram as gravações do folhetim, Eduardo deixou o Rio de Janeiro, onde estava morando, para rodar o país numa curta turnê com seu espetáculo ‘Cartas Libanesas’. Na sequência, no início deste ano ele começou a escrever mais um capítulo desta história.

“Sabendo do período vago no começo do ano voltei a falar com padre Paolo, e ele me sugeriu ir para Boa Vista, em Roraima, ajudar num serviço jesuíta de imigrantes e refugiados. Fiquei lá um mês trabalhando no escritório e cuidando das pessoas em situação de refúgio, grande parte venezuelanos, cerca de 300 pessoas por dia”, diz Eduardo, que se interessou pela temática quando encontrou e leu cartas dos próprios avós escritas em árabe.

Ao ter contato “in loco” com a situação da fronteira Brasil x Venezuela, o ator confirmou que interpretar a realidade dos refugiados é necessário. Um dos exemplos que ele dá para justificar a causa que escolheu para defender é uma pesquisa feita ao final de ‘Órfãos da Terra’, que revelou uma associação equivocada entre as palavras “refugiado” e “foragido”.

“A novela é quase um espelho da sociedade e mostra histórias, mazelas, alegrias. Foi muito prazeroso participar de uma”, diz ele, orgulhoso por ter participado do projeto que pode ser visto hoje em mais de 50 países e que foi vencedor, em 2019, da categoria de melhor telenovela no Rose d’Or Awards, prêmio suíço que ocorre desde 1961 para coroar os melhores programas da televisão do mundo.

Contudo, ainda que Eduardo afirme continuar seguindo o chamamento de representar a realidade dos refugiados e seus desdobramentos, ele admite que quer fazer outras novelas e projetos para a televisão, inclusive em outros tipos de papéis.

“Não gosto desse adesivo, dessa etiqueta de que o ator só faz determinado tipo de papel, e sempre vou me esquivar disso”, afirma ele, que “busca versatilidade” e procura transitar em diferentes ambientes e produções, a exemplo da série infantil ‘Escola de Gênios’, do canal Gloob, que conta com sua participação em quatro temporadas.


Deixe seu comentário