REALIDADES DISTINTAS

Educadoras de Mogi refletem sobre o desafio de ser professor ontem e hoje

Uma das profissões mais antigas do mundo – há 25 séculos, o filósofo grego Sócrates dava aulas a Platão – os professores viram o ofício ser desvalorizado ao longo dos anos. Aposentada das salas desde 2000, Maria Geny Borges Avila Horle, 73, começou a lecionar em 1967 e diz que naquela época a relação entre a família dos alunos e as instituições de ensino era diferente. “Eles já vinham de casa sabendo que precisavam respeitar e as vagas nas escolas eram poucas, então quem tinha a oportunidade valorizava”, comenta. Professora há 18 anos, Joyce Aparecida Camargo de Oliveira, 36, concorda “hoje existe muito desrespeito e uma inversão de valores, porque muitas vezes os responsáveis querem que seja ensinado na escola o que eles deveriam ensinar em casa”. Em entrevista a O Diário as duas fazem um panorama da educação:

Era respeitado e valorizado

Maria Geny Borges Avila Horle lembra da relação com o professor. (Foto: arquivo)

“Realidades diferentes”. É assim que a professora aposentada Maria Geny Borges Avila Horle, 73, vê o ensino no decorrer do tempo. Foram sete anos nas salas de aulas das escolas – de 1967 a 1974 – e outros dez na universidade – de 1990 a 2000 – mas além disso ela atuou por muito tempo na área administrativa. Foi diretora, supervisora, assessora na Diretoria de Ensino e ainda passou 11 anos como secretária municipal de Educação. Sendo assim, conta que acompanhou de perto as mudanças no ensino.

“A educação era elitista no sentido de que nem todos podiam ter acesso, porque existia um número pequeno de escolas. Quando tinha, muitas vezes era longe de casa e muitos alunos trabalhavam e buscavam o ensino noturno, que nem sempre tinha vaga. A partir disso já era diferente, por existir essa maior dificuldade de acesso à escola. Essa juventude já vinha de casa com uma outra relação com o professor, que era muito valorizado pela sociedade. Os responsáveis, então, orientavam os filhos para respeitarem”, considera Maria Geny.

Além do maior número de vagas hoje, a educadora comenta sobre a mudança nos modelos das famílias, quando os pais e mães precisam trabalhar mais e acabam ficando por menos tempo em casa e com as crianças. Ela acredita, então, que esse processo culminou em falta de disciplina e rigidez, o que influencia diretamente na relação entre alunos e professores. Maria Geny afirma que não é preciso estar nas salas de aulas para ver os rumos que o ensino tomou, já que a mídia mostra diversos casos de agressão, por exemplo, além das conversas que tem com colegas de profissão.

Mas nem tudo piorou na visão da ex-professora. A inclusão da tecnologia foi um dos ganhos com o tempo. “Houve uma evolução qualitativa nos meios de comunicação, na tecnologia e no acesso de crianças, jovens e adultos ao conhecimento por meio das internet. Isso trouxe para dentro da escola outra realidade, com uma diferença grande da metodologia de ensino. Tudo isso facilitou muito o ato de ensinar e aprender ficou mais agradável e interessante. Vejo que hoje a escola é muito mais dinâmica, mais aprofundada no conhecimento e com os olhos voltados para o mundo inteiro”, disse.

Por isso, Maria Geny alerta que os professores precisam estar em constante atualização, para que não deixem as aulas monótonas para os alunos, já que ela acredita que a partir do momento que aumenta o interesse pela aprendizagem aumenta também o respeito na relação educacional.

Afeto combate o desrespeito

Joyce Aparecida Camargo de Oliveira procura mostrar o quanto jovens são importantes. (Foto: arquivo)

Para a professora Joyce Aparecida Camargo de Oliveira, 36, uma boa educação nas escolas depende de um trabalho em conjunto entre escolas, famílias e alunos. A falta de interesse por parte dos estudantes é um dos principais motivos para que as aulas, por vezes, não transcorram como deveria. “Existe muito desrespeito e muitas vezes eles acham que podem fazer somente o que querem, mas a gente tenta contornar essa situação com afetividade”, ressalta.

Joyce atualmente leciona na Escola Municipal Coronel Almeida, em uma turma do 5º ano – com alunos entre nove e dez anos. O início da transição para a adolescência também reflete nas salas, o que pode ser um problema. Por isso, ela busca criar laços e mostrar o quanto aqueles jovens são importantes, porque acredita que o sentimento de acolhimento colabora para que as barreiras sejam quebradas.

Na unidade em que atua, a professora acredita que ela e os jovens são privilegiados, já que contam com computadores para auxiliar no aprendizado. “Eles dominam a tecnologia e nós, que somos mais velhos, temos que correr contra o tempo para entender o que eles já sabem. Se ficarmos só na aula expositiva a gente não consegue chamar a atenção. O professor precisa estar sempre em busca de formação e informação. A velocidade da informação é muito rápida e precisamos tentar acompanhar”, disse.

Ao lembrar que nem todas as escolas contam com equipamentos de tecnologia, Joyce lamenta por muitos professores ficaram a mercê da falta de recursos, o que dificulta o trabalho. Além da falta de infraestrutura, ela lembra que muitas coisas precisam melhorar no ensino, como a remuneração dos professores e as condições de trabalho. Joyce afirma que hoje o atual orçamento do Ministério da Educação (MEC) é o dobro de duas décadas atrás, mas que ainda assim o investimento na educação não é priorizado.

No olhar da educadora, o que mudou para melhor foi a humanização dos alunos. “Hoje, eles não são vistos mais apenas como um número, apenas como alguém que tem que passar de ano e pronto. Nós queremos realmente prepará-los para a vida e a maneira como a gente tem trabalhado hoje em dia é diferente. Nos preocupamos em trabalhar o lúdico e a preocupação em trabalhar o lúdico e a interdisciplinaridade”, afirmou Joyce.

Com essa humanização ela acrescenta que veio também a preocupação com a saúde mental, algo que era ignorado no passado. As crianças sofrem com doenças como a ansiedade e síndrome do pânico e, por isso, a discussão de assuntos como o bullying se fazem cada vez mais necessárias na opinião da professora.

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