ARTIGO

Egberto, o timoneiro

Perseu Gentil Negrão

No final da infância li o livro “Cazuza Verdadeira História de Um Menino de Escola”, de Viriato Corrêa. Em um trecho, o autor fala da morte: “No lugarejo em que nasci dava-se uma singularidade que eu não sei se ocorria em outra parte do mundo: o dia mais alegre era aquele em que morria alguma pessoa”. Depois, explica que o povoado ficava movimentado e a criançada aproveitava para brincar e comer. “A morte parecia-nos um bem que Deus mandava às crianças da terra para que elas brincassem em liberdade”.

No entanto, um dia morreu um amiguinho. “O povoado encheu-se. Foi criança, criança, como eu nunca vi tanta na minha vida. Não podia haver dia melhor para se brincar. Mas (surpresa para toda a gente!) nenhum de nós brincou. Nenhum de nós saiu, sequer, para o terreiro. Ficamos todos em derredor do cadáver, sossegadinhos, tristes, silenciosos. Quando queríamos falar uns aos outros, era baixinho, aos cochichos, como se temêssemos perturbar a majestade da dor que nos afligia. Tínhamos, pela primeira vez, compreendido a morte. Era a primeira vez que ela nos tocava de perto. E, dali por diante, quando alguém morria no povoado, nunca mais enchemos de alaridos os terreiros e os quintais. Nunca mais fizemos de um dia de luto um dia de festa. Dali por diante, a morte ficou sendo para nós uma coisa séria, muito séria e muito triste”.

À medida que os anos passam a morte vai, cada vez mais, se aproximando de nós.

Segunda-feira, logo cedo, o “Zap” apitou. Mensagem informando que o Egberto havia falecido. Fiquei como o menino “Cazuza”, “sossegadinho, triste, silencioso”. A morte me tocou de perto. Depois tomei alguns cafés (que estavam muito amargos) e divaguei um pouco para espantar a tristeza.

Em 1982, como Promotor de Justiça em Mogi das Cruzes, conheci o grande Advogado Egberto Malta Moreira. Era o jurista que, conhecendo o direito, a doutrina e a jurisprudência, nunca se tornou arrogante. Era o homem que sabia conviver e tratar com os grandes e com os pequenos. Eram inegáveis seus dotes de cultura, caráter e ponderação. Quando uma pessoa, que tinha a sorte de conhecer o Dr. Egberto, se encontrava em dificuldade, sua palavra era a salvação. Muitos procuravam o Dr. Egberto buscando seus conselhos, ou até mesmo para uma conversa alegre, pois os justos são mais felizes.

Depois, na Faculdade de Direito da Universidade de Mogi das Cruzes, por longos anos, tive o privilégio de ser colega do Dr. Egberto (notável professor de Direito Civil). Sempre alegre, chegando até mesmo a brincar com sua deficiência.

Além de todos os estes atributos, o amigo Egberto tinha mais um: adorava pescar. Assim, nossos laços se estreitaram ainda mais. Todos os anos, o Egberto organizava (como ninguém), uma grande pescaria. Era o grande líder. Cuidava para que todos os pescadores se sentissem felizes. O seu grupo de pescarias era harmônico e feliz. Era o grande timoneiro.

Com o amigo Egberto aprendi a desfrutar de uma boa pescaria em grupo. Como escreveu Papai: “Tivemos interesses e sonhos comuns. Sofremos e rimos juntos. Andamos pelos mesmos caminhos. Ele “viajou”, foi embora, não sei para onde, se para Deus ou para o nada… É terrível perder um amigo, “embora tudo seja previsível e inelutável” (Livro “A Estrada da Vida”, Rubens Sudário Negrão).

Como diz Roberto Carlos: Ele era meu “amigo de fé, meu irmão camarada. Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas. Cabeça de homem, mas o coração de menino”. Me lembro de todos os bons momentos com “meu bom companheiro” que, muitas vezes me deu a “certeza de que eu nunca estive sozinho”.

Embora eu esteja profundamente triste, é muito bom lembrar que eu tive um grande meu amigo.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo