EDITORIAL

Em 310 caixas, a nossa história

Merece atenção o início das negociações sobre uma possível transferência do acervo do Núcleo de Arqueologia do Centro Universitário Braz Cubas para a Prefeitura de Mogi das Cruzes.

Essa coleção foi criada com esforço e dedicação de professores e estudantes para contar os períodos pré-colonial e colonial da cidade e do Alto Tietê. Foi reunida em 310 caixas, 400 livros e 140 telhas e tijolos ao longo de 30 anos. Discute-se o futuro de uma herança social, cultural e histórica local, o que torna ainda mais raro esse conteúdo.

Sobretudo em respeito dedicados professores e estudantes que dispensaram energia, dedicação e foco à pesquisa científica durante os 30 anos desse projeto nascido de uma parceria única entre três universidades: USP, UMC e a Braz Cubas.

Uma cidade sem memória empobrece, dizia sempre que podia o historiador José Sebastião Witter (1933-2014), professor emérito da USP, cronista em O Diário e morador no Shangai.

Quanto mais pobre uma cidade, mais vulnerável a interesses de grupos e monopólios. Nesse condição, mais pobre, a cidade é mais lenta na defesa dos seus interesses. O resultado disso, estamos vendo mesmo, na pandemia da Covid-19 pelo mundo.

Repare que os países e sociedades ancorados em valores mais robustos, pavimentados a longo prazo e durantes grandes dificuldades, estão se saindo muito melhor no combate ao vírus. Obra de quê? Do exercício da cidadania, sabedoria e da cultura de bem conhecer e interpretar o passado para solucionar o presente.

Parcerias em busca da zeladoria e guarda de bens históricos são uma boa saída. Uma delas ocorreu quando a Diocese de Mogi das Cruzes cedeu o acervo de imagens e pinturas sacras centenárias ao Museu das Igrejas do Carmo. Embora os detentores das duas coleções, a Diocese e o Carmo façam parte do mesmo instituto, a Igreja Católica, a propriedade do acervo de ambos tem divisão bem definida. Tanto que há alguns anos, o MIC flerta com a ideia de se desfazer da responsabilidade por cuidar dos bens que demandam recursos financeiros e técnicos para serem preservados.

Lembramos disso tudo para dizer que a parceria entre o grupo Cruzeiro do Sul e a Prefeitura será bem-vinda se atender ao que, nas palavras, cai tão bem e já foi dito por estas duas partes: a salvaguarda do Núcleo de Arqueologia, a partir da continuidade das pesquisas e estudos, e da abertura a estudiosos, à visibilidade pública que se der a ele.


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