ENTREVISTA DE DOMINGO

Em defesa das tradições populares

TRAJETÓRIA Déo Miranda, 44 anos, se dedica à música, à produção cultural e à Casa do Congado. (Foto: Eisner Soares)
TRAJETÓRIA Déo Miranda, 44 anos, se dedica à música, à produção cultural e à Casa do Congado. (Foto: Eisner Soares)

As tradições populares nordestinas que vivenciou na infância influenciaram a profissão do produtor cultural e músico Wendell da Silva Miranda, conhecido como Déo Miranda. Nascido em Aracaju, o sergipano que há uma década mora em Mogi das Cruzes, se dedica à música desde os 13 anos, mas ainda na infância já dançava em quadrilhas juninas. Filho de Laércio Moraes de Miranda e de Ana Maria da Silva Miranda, ele viveu a infância ao lado das irmãs mais novas, Adriana e Aline, e em contato com estas manifestações que mais tarde contribuíram para pesquisas e trabalhos na área cultural. No Nordeste, passou por secretarias de Cultura de várias cidades e se tornou produtor. A chegada a Mogi das Cruzes foi influenciada por amigos que moraram em Sergipe e estavam aqui. Primeiramente, Déo, que já viajava muito por conta das apresentações musicais, deixou sua terra natal, em 2007, para trabalhar na área de marketing de uma cervejaria da Itaipava, em Boituva, no interior do Estado de São Paulo, mas aproveitava as folgas de finais de semana para visitar os amigos em Mogi, onde já havia se apresentado na casa Arco da Velha, em 2004. Aqui conheceu vários músicos tocando na noite e deixou o trabalho na cervejaria para também seguir carreira nesta área, conciliando com os trabalhos como produtor. Em 2009 se mudou para Mogi, onde se envolveu em projetos culturais. O primeiro deles, dedicado às congadas, resultou na criação da Casa do Congado, que reúne grupos da cidade em várias atividades. No dia 12 de julho, ele lança o CD “Poesia Dura Língua Ferina Coração Justo”. Na entrevista a O Diário, Déo fala de sua trajetória e da importância da preservação das congadas e da Festa do Divino.

Você é sergipano. Por que a vinda para Mogi das Cruzes?

Sair de Aracaju era uma ideia antiga, porque desde os 13 anos estava envolvido com a música e, já adulto, viajava muito por conta disso e não abria mão das minhas aventuras artísticas. Por isso, até agora, não consegui terminar o curso superior de Administração e Marketing que comecei em Sergipe. Minha vinda para Mogi das Cruzes está ligada a amigos que tenho na cidade, alguns inclusive, moraram em Sergipe. Primeiramente fui tocar em Londrina com alguns deles, depois vim para cá me apresentar na casa chamada Arco da Velha, em 2004, ao lado do Beto Carvalho. Este foi o meu primeiro contato com Mogi, onde vim morar cinco anos mais tarde.

Qual foi a primeira impressão da cidade quando veio tocar aqui?

Era uma época fria, entre junho e julho, e o nordestino não está acostumado com temperaturas abaixo de 24 graus. Um fato interessante é que em uma semana já conheci muitos artistas daqui que se tornaram amigos. Depois disso, voltei para Aracaju, mas mantinha contato com os amigos de Mogi, como Memeu Cabral, que é meu amigo de infância, Juá de Casa Forte e Beto Carvalho, que são de Pernambuco, mas moraram em Aracaju. Em 2007, fui trabalhar na área de marketing, numa cervejaria da Itaipava, em Boituva, em São Paulo, e deixei Aracaju. Passei uma temporada lá, mas sempre aproveitando a proximidade com Mogi para vir à casa dos amigos daqui aos finais de semana. Até que abri mão do trabalho na cervejaria para tocar na noite. Fiz isso lá por pouco tempo, porque em 2009 já fixei residência aqui e passei a tocar na noite mogiana.

Como foi o início da trajetória na música?

Em 2007, na véspera de vir para o Interior de São Paulo, gravei um disco artesanal e independente, em quatro horas e com apenas 80 cópias. Dei uma delas para uma amiga, que fez contato com outro amigo. Por conta disso, tive oportunidade de conversar com o Fernando Faro, da TV Cultura, que dos anos 60 para cá descobriu vários nomes da música. Deixei dois destes discos com ele, porque ele entregaria um para a Inezita Barroso. Nesta época, estava na casa de um amigo em São Paulo e quando retornei para lá, depois desta conversa, recebi um email para participar do programa Móbile, na Cultura. Comecei a trabalhar este acontecimento para fazer meu nome e, em 2010, toquei no palco principal da Virada Cultural Paulista em Mogi.

Quando teve início seu envolvimento com as tradições populares da cidade?

Logo que cheguei já tive contato com a Festa do Divino Espírito Santo e com a marujada de Nossa Senhora do Rosário, que é a mais antiga daqui, e onde fiz amizade com o mestre Dico. Eu já trabalhava com estas tradições e tinha feito ações com a Funarte (Fundação Nacional de Artes), pelo Ministério da Cultura, e passado por secretarias de Cultura do Nordeste. Prestei serviço para a Fundação Cultural de Aracajú, fui diretor de Cultura da cidade de Carmópolis, consultor de Cultura de Rosário do Catete, trabalhei na Secretaria de Cultura de Aracaju e fiz trabalhos no Paraná, onde intermediei a vinda do Ariano Suassuna para um dos eventos de lá. Então, quando conheci a marujada, adaptei um projeto que havia feito para a Cultura de Aracaju e ofereci para a Secretaria de Cultura de Mogi.

Qual era este projeto?

A proposta era fazer o mapeamento e identificação de matrizes tradicionais da cidade. Para esta pesquisa, fizemos uma reunião com os mestres de congadas no Ciarte (Centro de Cidadania e Arte), onde conheci o Chico Preto, Otaviano, Zé Tavares, Silvio Antônio e outros de uma só vez. Fiquei encantado e veio a ideia de organizar estes grupos como entidades para garantir maior representatividade a eles. O mestre Dido, o mais jovem entre eles, estava com mais gás para pensar nisso e combinamos com o Silvio Antônio uma reunião em César de Souza, onde foi proposto o estatuto da entidade, nos mesmos moldes que eu pretendia criar no Sergipe. Sugeri o nome Casa do Congado, o Dido e o Silvio fizeram a arrecadação e demos entrada no cartório, o que foi oficializado em junho de 2009.

Como foi o início deste trabalho?

Esta foi a primeira ação com os grupos de congada daqui e a primeira diretoria foi formada apenas por congadeiros. A partir daí, começamos a buscar coisas de interesse destes grupos. Saiu o edital de Ponto de Cultura e ganhamos, fizemos a Festa de Reinado pelo ProAc (Programa de Ação Cultural), o Festival de Arte Popular do Alto Tietê, criado para beneficiar a congada para coroação do Rei do Congo, principal ritual da congada e um evento exclusivo destes grupos. Em parceria com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nas pesquisas de campo, quando foi aberto o edital nacional, apresentamos a proposta de mapeamento e resgate das tradições afrodescendentes de Mogi. A Casa do Congado concorreu com entidades federais bem maiores e comunidades acadêmicas, mas venceu. Depois disso, ainda passamos por uma sabatina em Brasília (DF). Fizemos pesquisas com apoio de historiadores, sociólogos e antropólogos, com grande ajuda de Odair de Paula e Jurandyr Ferraz de Campos e dos mestres e dançantes das comunidades de congadas. Vencemos e trouxemos este mérito para Mogi, colocando a cidade nesta roda, com a congada reconhecida como patrimônio. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) financiou tudo e um lançou livro destas iniciativas no Brasil, incluindo Mogi.

As congadas mogianas tiveram destaque em outros projetos?

Mogi teve uma conquista inédita em projeto do Itaú Cultural. A Casa do Congado participou do edital nacional que elegeu 117 propostas do País e ficou na 11ª colocação em pontuação. A caixa com oito discos, cada um gravado por uma congada de Mogi, chamada ‘Cantos Sagrados’, foi o resultado de quase dois anos de trabalho.

Hoje, quantos grupos há na cidade?

Temos oito coletivos, sendo seis congadas e duas marujadas, já que um destes grupos atua como congada e também marujada, que participam de vários eventos.

Qual a importância das congadas na Festa do Divino Espírito Santo?

As congadas vieram para Mogi e aqui se instalaram, mas elas não surgiram na cidade. Os primeiros que aqui chegaram vieram de Minas Gerais, em busca de trabalho e se encontraram, se reconheceram e foram reproduzindo o que já faziam quando estavam na região mineira. Aqui, elegeram locais de celebração de acordo com as devoções religiosas que tinham, como Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, São Benedito e outros. A maioria se identifica com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que havia na antiga Igreja do Rosário, no largo de mesmo nome, no centro. Mas há celebrações da Festa do Divino Espírito em que as congadas se encontram e as elegem como retrato das manifestações deixadas em Minas. A Festa do Divino é um evento católico que se soma a isso, virou tradição, cultura criada e adquirida. Há a tradição da festa, a tradição da congada e a ligação entre elas. Mas o Divino é o momento, diferente dos sentimentos e das pessoas conduzindo as coisas, como as beatas que saem de casa para a novena ou colocam a bandeira do Divino na porta das residências. A congada entra na Festa do Divino porque é católica e seus integrantes são devotos fervorosos.

Como manter e preservar estas tradições na cidade?

Com a Casa do Congado já conseguimos muita coisa, mesmo com certo conservadorismo que ainda existe quando se fala de tradições de origens africanas. A congada tem seu papel dentro da cidade, assim como a Festa do Divino.

Quais as recordações da infância no Nordeste?

Foi muita ligada às tradições populares, como a taieira, cacumbi, samba de pareia, os trios com instrumentos… As quadrilhas juninas, onde dancei desde criança até os 17 anos, são muito fortes, presentes e enraizadas lá. Na infância, estudei em uma escola do bairro Santo Antônio, perto da casa da minha avó (Maria Elza Batista da Silva). Meu avô (João Batista), conhecido como João Pretinho e que morreu quando eu tinha 6 anos, era dançante de cacumbi. Por perto havia uma praça no encontro de três ruas, onde era feito o arraial para as quadrilhas se apresentarem, que foi inaugurado por Luiz Gonzaga.

De que forma isso influenciou na escolha da profissão?

Minha infância foi vendo as quadrilhas; as tradições das beatas; a cantoria das procissões que a minha avó me levava; os buscapés, que são as guerras de espadas; os vendedores ambulantes de garrafas, do doce chamado cavaco chinês, cocada, pipoca e frutas, que usavam a música e faziam versos com os nomes das pessoas para vender seus produtos; e ouvindo Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva, entre outros que construíram a música nordestina. Eu, criança, vendo tanta informação artística, não imaginava o que isso traria para minha vida futura, mas quando comecei a mexer com artes vi que estas figuras foram importantes, assim como minha participação como dançante de quadrilha, porque tive mais facilidade de entender, pesquisar estas manifestações e ter acesso mais rápido às informações.

O que representa Mogi na sua vida?

Nunca desenvolvi apego. A ideia, se for o caso, é experimentar morar em São Paulo, mudar de Estado ou ir embora do país. Mas sinto saudades de Aracaju, já que nunca mais vivenciei uma festa junina como a de lá.