CIRCUITO

Em defesa do verde e do meio ambiente

Ricardo Sartorello. (Foto: Eisner Soares)

Nascido em São Caetano do Sul, Ricardo Sartorello mora apenas há três anos em Mogi, mas já é tempo suficiente para que ele se sinta comprometido com as causas ambientais da cidade. Formado em geografia, ele se especializou na ramificação desta área que se preocupa justamente com a natureza, lecionou na PUC de São Paulo e mais recente concluiu o pós-doutorado em políticas públicas ambientais pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Gostou tanto do cenário regional que decidiu ficar por aqui, onde atua como professor e pesquisador, responsável pela orientação de diferentes estudos, como um que analisa o papel das plantações locais de eucalipto e outro que avalia a relação das serras do Mar e Itapeti, encomendado pela Prefeitura. Sendo assim, ele comenta, dentro do período reconhecido em todo o mundo como o mês do meio ambiente, o panorama da cidade em relação aos atrativos naturais e também explica o que é e qual a importância da educação e conscientização para com estas áreas.

Mogi possui diversos atrativos naturais, como as serras do Mar e do Itapeti, a Ilha Marabá, o Parque Municipal, o Rio Tietê e muitos outros. Qual é o panorama da cidade em relação a estes locais?

Acho que a cidade tem um potencial enorme. Quando vim para cá fiquei bastante impressionado, pois a serra do Itapeti é algo que merca muito a paisagem, e isso até causa a falsa impressão que Mogi tem muitas árvores. Acredito que estes potenciais paisagísticos, elementos importantes, de certa forma foram preservados ao longo da evolução da cidade. A serra, por exemplo, está presente mesmo depois de um processo grande de modificação, assim como o Parque Municipal, a Ilha Marabá, as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Itapeti e Tietê, ou seja, em termos de estruturas, a cidade tem sido preservada.

O que contribui para este cenário?

Os morros da região impediram, de certa forma, a ocupação em grandes propriedades, e por causa do tipo de imigração, a japonesa, tivemos aqui uso da terra em pequenas proporções. Esse modo deixou fragmentos com bons tamanhos e bem conectados, então hoje Mogi tem vegetação grande por causa dessa história. A mancha urbana cresce nas últimas décadas, mas existe um contexto de que ela está concentrada e as áreas rurais, de mananciais, estão mais conservadas. Dá para ver isso pela agricultura familiar da cidade, em que os produtos dependem de agentes polinizadores, como abelhas e vespas, que podem ser encontrados nas bordas das florestas, então existe uma relação de serviços que a natureza presta para esta produção de água e de cultivos agrícolas.

Claro que dá para melhorar a forma como as pessoas se relacionam com isso. Hoje poucos experimentam as áreas naturais e costuma-se virar as costas para o rio, mas vejo os parques da cidade como agentes para mudar esse cenário. Em resumo, os mogianos são privilegiados, e é preciso que cada um faça sua parte para cuidar de tudo o que a cidade tem.

O que é possível fazer para cuidar dessas áreas? Os processos dependem de recursos financeiros?

Há um gradiente de possibilidades, desde pequenas atitudes, como reciclagem e não poluir à questões mais estruturais, como no caso de rios muito poluídos, que precisam passar por processos mais custosos para encontrar e sanar a origem de poluição, que pode ser de esgoto ou empresas, o que demanda tratamento e destino correto de resíduos. A mesma coisa acontece em casos de desmatamento, pois também são altos os valores para restauração de áreas degradadas, como mudas e monitoramento. Mas, de forma geral esse alto custo estrutural precisa ser entendido como necessário para a sociedade, pois afeta diretamente a saúde. É possível fazer: temos exemplos de vários países no mundo que resolveram despoluir seus rios, com muito custo sim, mas com muitos benefícios para a sociedade.

Então qual é a importância da educação ambiental?

Assim como qualquer outro tipo de conhecimento, a educação ambiental se faz necessária na sociedade, pois  traz a noção de como nos relacionamos com o meio ambiente, ou seja, com o meio que nos envolve, e essa noção é fundamental para que haja uma  relação saudável com a natureza, de modo a continuarmos usufruindo dos benefícios dela, mas sem torná-la hostil a nossa existência.

Na verdade, a educação ambiental deveria permear todos os ciclos de ensino, formais ou não, estando presente na escola e em casa e também em palestras, eventos e cursos. Afinal, mesmo questões básicas de reciclagem e uso consciente da água trazem conscientização para o cidadão, que faz parte de um meio ambiente cujos problemas não vão se resolver sozinhos. É preciso ter atitudes individuais e também coletivas, dentro dos mais variados níveis de responsabilidade (sociedade, iniciativa privada e poder público), para que as próximas gerações sejam mais conscientes e possam atingir o equilíbrio ambiental.

Falando em diferentes níveis de responsabilidade, quais são os papéis de cada um para com o meio ambiente?

Quando o cidadão tem mais consciência sobre o impacto que sua existência causa enquanto consumidor, ele pode passar a questionar as embalagens dos produtos comprados, por exemplo. Para ficar mais fácil de entender, vejamos as garrafas pets. É possível vender água, refrigerantes e líquidos em geral em outros tipos de embalagens, e antigamente isso já era feito em formatos retornáveis, de vidro. Hoje quem tem o poder de escolha é o consumidor, que pode optar por não comprar embalagens plásticas. Da mesma forma, as empresas podem oferecer produtos com embalagens melhores, e sei que as grandes empresas estão pensando nisso nesse momento, questionando qual o futuro do plástico. Apesar dos questionamentos existem poucas ações,  e é um processo, nada acontece do dia para a noite, e se faz necessário o apoio do poder publico, que precisa dar condições para que este tipo de conscientização aconteça, informando a necessidade de separar o lixo e oferecendo coleta seletiva e destinação correta de cada um dos resíduos.

Quem pode ajudar mais: crianças ou adultos?

As crianças têm a vantagem de ser os adultos do futuro, então podem iniciar um processo de médio e longo prazo. Aliás, se houvesse essa preocupação ambiental há 50 anos poderíamos ter uma hoje sociedade mais equilibrada nas questões ambientais, então existe a necessidade de se discutir isso de forma efetiva, com programas e experiências variadas. Mas independente da idade qualquer pessoa tem a capacidade de refletir o mundo em que vive, independente da idade, ganhando uma percepção sobre o papel dela na sociedade. Isso por vir a partir de um comentário que o filho faz sobre o que aprendeu na escola, pode vir de uma palestra, curso, documentário, ou programa de TV, e por isso é importante que haja possibilidades diversas de conscientização.

E como os pequenos enxergam o meio ambiente local?

Respondo com o exemplo de uma pesquisa de um aluno de mestrado, que estamos publicando na revista Ciência e Educação. Ele trabalhou com a percepção sobre o meio ambiente de 300 alunos de  quatro escolas da rede municipal, a partir de recursos chamados de mapa dental, que consistem em desenhos. Foi pedido às crianças para desenharem o que é o meio ambiente para elas e majoritariamente elas pintaram um cenário cheio de árvores, com rios lindos, sol e até onças pintadas, mas esse é o meio em que vivemos? Não, não vivemos nesse lugar. Estamos em áreas urbanas, muito modificadas, então o que os pequenos desenharam é uma imagem idealizada, sem ruas, calçadas ou rios canalizados e poluídos. Essa visão naturalista afasta as pessoas do real, então o estudo consistiu em fazê-las reconhecer o ambiente verdadeiro, o que pode ser até desagradável e frustrante, mas gera benefícios enormes, como soluções imediatas para problemas pontuais.

Que outros estudos você coordena?

A base das nossas perguntas é a modificação do meio ambiente e da paisagem, como isso ocorre e quais os efeitos disso nas biodiversidades. A partir disso desenhamos vários projetos, como a questão do eucalipto na região. Uma das modificações que percebemos é a quantidade de áreas dessa árvore que foi, durante um período, produzida aqui para abastecer as indústrias de celulose, mas que com o tempo, por causa do relevo e questão logística de viabilidade da produção moderna, foram abandonadas há cerca de 10/15 anos. Nesse tempo houve restauração natural, espécies começaram a surgir no sub-bosque, e hoje exitem árvores de até 10 metros, que tem frutos e atraem aves, então investigamos o papel e a função do eucalipto remanescente. Também temos os estudos que mostram a importância de manter estruturas vegetais importantes, como a tentativa de compreensão da importância da serra do Itapeti em relação a serra do mar, uma ligação histórica, e em parceria com o poder público estamos desenvolvendo pesquisas voltadas para o Plano Municipal da Mata Atlântica. Um deles está relacionado à arborização urbana, cuja ideia é equilibrar as árvores da cidade, pois existem bairros com poucas, o que traz problemas em relação aos serviços por elas prestados, como a filtragem da poluição atmosférica, captção de água do solo, geração de oxigênio, ajuda na regulação térmica e impedimento de deslizamentos de terras, quando localizadas em encostas.


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