MOGI PELO MUNDO

Em Florença, mogiana relata como encara a pandemia de Covid-19

CONVIVÊNCIA Cristiane Correia percebe diferenças no comportamento dos filhos Mateus, quatro anos e Valentina, de um ano. (Foto: divulgação)
APRENDIZADO Mogiana Paloma Monti conta, em detalhes, como a Itália jogou pesado para enfrentar os efeitos do novo coronavírus e de que maneira a belíssima região da Toscana foi afetada pelas novas regras de convivência entre as pessoas que mudaram radicalmente. (Foto: divulgação)

A arquiteta mogiana Paloma Monti Pecchioli passou a valorizar mais o presente, as relações familiares e a intimidade com Deus durante a quarentena imposta aos italianos, a partir de março passado. Aos 38 anos, ela reside com a família em Bargino, em San Casciano In Val di Pesa, em Florença, na bela região da Toscana. É casada com Beppe e mãe de Benjamin e Teodoro. Especializada em arquitetura sustentável, a mogiana recebeu com desconfiança as primeiras notícias sobre o novo coronavírus e a possibilidade de o surto inicial, na China, se espalhar pelo mundo. Isso, no início. Logo mudou. Paloma conta como os italianos rapidamente entenderam os riscos para a parcela mais idosa do país. Durante algumas semanas, ela precisou ficar com um dos filhos, em um hospital, e acompanhou de perto os cuidados tomados por médicos e enfermeiros para prevenir o contágio. Veja a entrevista que integra a série “Mogianos pelo Mundo” e mostra como a pandemia da Covid-19 está sendo vivida em outros países:

Há quanto tempo você vive na Itália?

Há 17 anos. Tenho origem italiana, e sempre fui apaixonada pelo país e pela cultura, o que me fez estudar a língua por quatro anos durante o período universitário. Deixei o Brasil em dezembro de 2003, primeiramente por seis meses sabáticos antes do último ano de faculdade, mas como o meu amor por esse país só cresceu, acabei trancando a faculdade em Mogi para continuar estudando em Florença. Em 2006 conheci meu marido, que é florentino, e em 2009 nos casamos.

Possui familiares em Mogi? Tinha viagem marcada para esse ano?

Minha família não é originária de Mogi, mas eu nasci e cresci aí. Minha mãe, um tio e uma tia, e alguns primos moram em Mogi. Meus irmãos se transferiram para o Paraná e meu pai para Minas Gerais. Eu costumava ir ao Brasil uma vez por ano, mas no mês que vem, farão dois anos que não vamos. Com as crianças crescendo e as várias atividades delas fica sempre mais difícil organizar viagens de longa permanência. Neste ano, não tinha planejado ir ao Brasil, a ideia era convencer minha mãe a passar um tempo por aqui. Com a pandemia, continuo me comunicando quase diariamente com a minha família através de mensagens e de videoligações no WhatsApp.

No início, a Itália foi um dos primeiros países duramente afetados pela Covid. Como foi viver essa realidade, e o que mudou na rotina de sua família, a partir dos primeiros casos, e durante as últimas semanas?

Logo nas primeiras semanas, eu pessoalmente achei que a mídia estava exagerando e que o governo estava tomando medidas demasiadamente radicais, principalmente quando fecharam todas as escolas e universidades, no dia 4 de março. Me senti um pouco manipulada e me incomodava muito assistir ou ler jornais, tanto que cheguei ao ponto de não querer ter nenhuma notícia sobre o que estava acontecendo. O isolamento forçado nacional (algumas regiões já estavam isoladas há algumas semanas) começou no dia 10 de março, mudando completamente a rotina de todas as famílias italianas. Eu já trabalho em casa, mas estava acostumada com as crianças na escola das 8 às

16h30 e tê-los em casa 24 horas interferiu bastante na produtividade.

O home schooling também foi uma difícil e nova realidade. É verdade que as escolas se organizaram para fazer as aulas online, mas a adaptação a esse novo método de ensino demandou organização e participação dobrada dos pais e das crianças.

As últimas semanas foram as menos difíceis, chegamos quase a nos acostumar com essa nova realidade e a criar toda uma nova rotina, e apesar de toda a vontade de voltar à normalidade, foi estranho quando finalmente fomos liberados no dia 18 de maio. Muitas pessoas não viam a hora de sair de casa; eu, não sei se por morar no campo ou por excesso de zelo, ainda prefiro ficar o máximo que posso em casa.

Você precisou passar alguns dias em um hospital, durante a pandemia. Como foram esses dias? Quais medidas de prevenção chamaram a sua atenção?

Infelizmente sim, mas graças a Deus precisamos do hospital no finzinho do lockdown, quando a situação começou a melhorar. Meu filho menor foi internado dia 3 de maio com suspeita de osteomielite e precisamos ficar hospitalizados por 16 dias.

Além de todas as prevenções que já estávamos acostumados nesses últimos dois meses, como máscaras, distanciamento social, medição da temperatura, o que me chamou muita atenção foi o total isolamento na primeira noite. Fomos, ambos, sujeitos ao teste para o novo coronavírus e colocados em um quarto completamente isolado. Tivemos somente um primeiro contato com duas enfermeiras e um médico, todos protegidos, com máscaras, óculos, e uniformes descartáveis – eles se vestiram antes de entrar no quarto e jogaram tudo fora assim que saíram. O resto da noite, fui eu a enfermeira do meu filho, coordenada pelo médico/ou enfermeira através de um interfone. Assim que saiu o resultado do teste, que foi negativo, fomos transferidos.

Você mora na Toscana. Como a Covid afetou o trabalho e a vida de quem mora no campo?

Quem mora no campo foi afetado da mesma maneira de quem vive na cidade sobre o que diz respeito à vida social. Nós também estávamos isolados socialmente, e tivemos que nos adaptar ao smart working e à impossibilidade de nos mover com liberdade pela cidade ou de uma cidade para outra. Contudo, tivemos constante contato com a natureza, o que com certeza facilitou psicologicamente. As comunidades menores, como a cidade aonde moramos, tiveram menos impactos durante o período da quarentena devido ao maior número de pequenos negócios alimentares e à menor densidade da população, tínhamos menos filas, menor tempo de espera no supermercado por exemplo. O trabalho no campo, como cultivo de frutas e outros alimentos, e as feirinhas orgânicas não foram proibidas por serem considerados um trabalho de primeira necessidade.

Quais foram os momentos mais difíceis dessa travessia?

Os primeiros dias do lockdown obrigatório foram surreais, parecia realmente que estávamos vivendo em um filme. De um dia para o outro, nos encontramos em um cenário de guerra com policiais de ronda, cidades vazias, todos os comércios fechados, com exceção daqueles alimentares e farmácias.

Lembro perfeitamente do primeiro dia que saí de casa, da primeira autocertificação (um documento oficial e obrigatório que devíamos preencher elencando os lugares por onde passaríamos e motivando tal necessidade), da tensão na fila do mercado, dos olhares cheios de medo e dúvidas por trás das máscaras.

Quais são e quais serão, os impactos sociais e econômicos causados pela pandemia?

Economicamente, um aumento da pobreza e das dívidas, mas acredito também que existirá uma grande oportunidade de recuperação econômica, porém tudo depende da resiliência e da resistência de cada estado.

Socialmente, acredito que haverá uma dúvida assustadora se esse vírus voltará, como e quando… mas por outro lado, acho que na maior parte das pessoas, tudo isso gerou mais gentileza, solidariedade, empatia, gratidão e conscientização (assim, eu espero).

Qual será o legado para pandemia nas gerações atuais, e na geração dos seus filhos?

Esperança de dias melhores e de novos aprendizados, amor, gratidão e solidariedade.

No Brasil, você deve estar acompanhando, há uma grande divisão sobre o principal meio de prevenção à doença, hoje conhecido: o isolamento social. Quais são as diferenças que você observa entre o que aconteceu na Itália, diante dessa recomendação, e no Brasil?

Na Itália, o isolamento social foi levado muito a sério pela maior parte das pessoas, primeiramente pela empatia e proteção da parte dos mais jovens com relação à população idosa, que é grande na Itália, e segundo porque não era somente uma recomendação mas um decreto, era obrigatório, com rigorosos controles da parte da Polícia. O governo italiano foi firme e radical. Mas a Itália é um país menor e mais rico, por isso acredito que o que funcionou aqui, não tem como funcionar no Brasil. Acho que quem pode, deve ficar em casa, e quem não pode precisa tomar todos os cuidados devidos e necessários.

O que você passou a fazer durante esses meses, que pretende preservar no futuro?

Eu cultivei mais intimidade com Deus, maior contato com a natureza, mais tempo de qualidade com meu marido e meus filhos e passei, literalmente, a viver o momento, não me preocupando com o que vai acontecer amanhã.

A rota de Chianti

A rota do Chianti é uma cadeia com belíssimas paisagens formadas pelas montanhas entre Florença, Siena e Arezzo. Com milhares de vinhedos salteados em uma cartela de pequenos e antigos lugarejos, a região atrai visitantes pela gastronomia, arquitetura, cultura e a história preservada por diversos registros medievais em igrejas, palácios e construções antigas. Conhecida na literatura, arte, fotografias e filmes, as pequenas cidades que intercortam a Toscana são visitadas por milhares de pessoas.


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