TEATRO

Em ‘live’, um monólogo com temas complexos

NO PALCO ONLINE Atriz Cibele Zucchi dá voz à criança, à avó e também faz a narração neste espetáculo que é um conto de realismo fantástico. (Foto: divulgação)
NO PALCO ONLINE Atriz Cibele Zucchi dá voz à criança, à avó e também faz a narração neste espetáculo que é um conto de realismo fantástico. (Foto: divulgação)

Uma peça que se propõe a explicar a origem do choro primeiro, o choro do nascimento. Um monólogo profundo e ousado, mas acessível a todas as idades. Essa é uma das várias descrições possíveis para ‘Guerreirinha, Guerreirinha – A Criança Que Matou A Sede Na Lágrima Do Anjo’, espetáculo que será encenado hoje, via transmissão de vídeo em tempo real pela Mostra Virtual Cultura Presente, da cidade vizinha Suzano, às 20 horas.

O enredo que poderá ser acompanhado gratuitamente em facebook.com/agendaculturalsuzano é complexo e talvez até ambicioso, dependendo de como se olha para ele. Trata-se de um conto de realismo fantástico, com a história de uma menina cuja casa é invadida por seres de outro mundo. Para lidar com a situação atípica, a protagonista apoia-se nas orientações da avó, que diz o que fazer neste processo que culminará, como o subtítulo antecipa, nas lágrimas de um anjo.

Há que se fazer uma correção, porém. Não estamos falando de um anjo comum, e sim do arcanjo Miguel, que estava lutando com um monstro, em referência à tradicional imagem que o retrata batalhando com um demônio, na representação da vitória do bem sobre o mal.

No monólogo, escrito por Antônio Nicodemo, a menina acaba morrendo ao pés do arcanjo. E é aí que estaria então a origem para o choro que toda criança chora ao nascer: para simbolizar a sede da criança da peça.

O interessante é que essa montagem poderia ter cenários coloridos e bem imaginativos, assim como a participação de vários atores, nos papéis não só da criança como da avó e até mesmo do arcanjo. Mas, diante da pandemia do novo coronavírus, não é isso o que se vê. Todos estes papéis –e ainda outras funções – são executadas pela única atriz em cena, Cibele Zucchi, paulista que mora e exerce a arte como profissão pelo Teatro da Neura, em Suzano, desde 2007.

Em tempo, também não há palco. Pelo menos não um palco como se costuma pensar. “Quando comecei a ler o texto já imaginei que o cenário seria a janela da minha sala, sendo que eu estaria do lado de fora”, explica Cibele, que nos últimos dias tem adaptado a própria casa para receber ‘Guerreirinha, Guerreirinha’.

O quadrado da janela sugere uma moldura ou borda, algo que funciona bem diante “da falta da cortina do teatro” e ainda proporciona a possibilidade de registrar tudo em plano aberto. “Quem nunca espiou uma história pela janela?”, provoca a atriz.

Outra boa pergunta é “quem opera a câmera?”. E a resposta é melhor ainda: Cibele Zucchi, a mesma mulher que dá voz à criança, à avó e também faz a narração, pensou o cenário, o figurino, o formato e tudo o mais. É claro que ela tem uma ajuda aqui e outra ali, já que mora com outra atriz do Teatro da Neura, mas de modo geral admite ter “independência total”.

“É o primeiro espetáculo que faço na pandemia, e está sendo uma experiência gostosa, de criação diferente. Já tinha participado de leituras encenadas pela internet, mas agora é diferente”, diz ela, que por um lado percebeu larga “liberdade artística”, mas que por outro sente a falta de um “olhar externo”.

Justamente por essa mistura de sensações ela diz que a experiência tem sido “nova e não confortável”, o que a põe em xeque, já que considera o exercício teatral prazeroso. O resultado desta contraposição só virá hoje à noite, após a encenação.

“Essa é a graça do teatro”, afirma Cibele, que evita alimentar expectativas altas demais, embora espere que a produção “toque e estimule as pessoas”, funcionando como uma “injeção de ânimo”, principalmente para que outros artistas se sintam à vontade para experimentar formatos novos na internet.

Uma arte que depende de público

Cibele Zucchi, que conta com o apoio da prefeitura de Suzano para lançar o monólogo ‘Guerreirinha, Guerreirinha – A Criança Que Matou A Sede Na Lágrima Do Anjo’, diz que é preciso “entender o lugar” do teatro no momento atual, quando há uma competição de atenção em lives, principalmente as musicais.

“O músico tem a questão do show, mas isso não o impede de fazer música”, argumenta ela, em defesa de um olhar mais atento para as artes cênicas, que dependem da interação com o público para acontecer.

A atriz, diretora e orientadora conta ter participado de leituras encenada, e que a finalização das apresentações online é “estranha”, já que não existe o “termômetro da plateia para aplaudir ou vaiar”. A audiência, no entanto, está ali sim, e se manifesta por meio de comentários, mas sem dúvidas não é a mesma coisa.

Uma possibilidade que talvez amenize as sensações esquisitas com as quais os artistas têm lidado é a abertura dos teatros para a realização de transmissões de vídeo em tempo real. O Teatro PetraGold, no Rio de Janeiro, por exemplo, fará isso a partir de julho.

“Isso me interessa muito, para trabalhos solo, e eu me inscreveria num projeto regional deste tipo. Mas para teatro de grupo, para coletivos, ainda é totalmente inviável”, encerra Cibele, que tem razão ao dizer que “vale a tentativa de viabilizar o ofício artístico”.


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